Sob o céu estrelado

por Gaëlle Istanbul | 2014.01.12 - 17:12

Quando era pequena, talvez tivesse 8 anos de idade, deitada na minha cama, já de noite, fantasiava que a minha vida era fruto da imaginação de uma menina da minha idade.

A noite, por exemplo, acontecia não porque o céu estivesse realmente a escurecer mas porque essa menina puxava de um pano azul, enorme, estrelado, para que eu pudesse sentir a noite.

Na verdade, a minha vida era a caixa de pandora da sua. Daí, o meu mundo estar sujeito a tantas perdas, injustiças, guerras, fomes, ditaduras, a tanto racismo e escravaturas e outras preocupações que, já na altura, me atormentavam.

Era a minha forma, creio, de me proteger, de expressar que esperava e queria mais, melhor do nosso mundo.

Não sei como as crianças de hoje processam a informação mas espero que de alguma forma fantasiem, como eu costumava fazê-lo.

Fazia-o apenas à noite, mesmo antes de adormecer. Era a minha forma de limpar os dias, sobretudo os dia maus.

Hoje, 33 anos depois, sinto-me com a mesma vontade de o fazer. De me enfiar na cama e de fantasiar com a menina a esticar novamente o largo toldo estrelado, até que escureça e eu me possa despir de todos os males deste mundo.

Talvez, assim, não enlouqueça.

É que é difícil evitá-lo. Apetece-me falar de política e de sociedade mas não vou fazê-lo. Apetece-me falar de educação, de família mas também não vou fazê-lo. Apetece-me falar de saúde, mas seria demasiado doloroso. Apetece-me falar das relações, das amizades, dos princípios, de humanidade mas também não vou fazê-lo. Pela mesma razão: arde, fere, dilacera, rasga.

A caixa de pandora é grande, do tamanho do gigante toldo estrelado, mas eu prefiro – ainda que seja entusiasmante abrir uma caixa cujo conteúdo não se conhece -, prefiro o meu toldo estrelado, dizia.

Ainda ontem, publiquei no meu mural do facebook o seguinte:

Identifico-me cada vez menos com o mundo. Desconsinto reviver a História. Julguei que pudessemos projectar.

Em resposta, uma amiga comentou que só 10 % do mundo lhe interessava, tal como alguém também lho tinha dito. Quis dar-me esperanças e transmitir-me sentimentos positivos, escrevendo ‘há a consciência do mundo, terrível, mas existe um nicho nele que vale a pena. E é aí que nos mantemos vivos.’ E, eu, na maioria das vezes, enquanto não me deito, também penso assim.

Acontece que, hoje à noite, assim que me deite, vou pensar nos restantes 90% do mundo e deixar que a menina volte a puxar aquele colossal pano estrelado.

Talvez assim que acorde, logo pela manhã, o mundo se tenha endireitado e as pessoas vivam felizes, com as suas minúsculas caixas de pandora a servirem de fantasia.

 

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

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