Séries da Vida de um Trintão

por António Soares | 2014.10.31 - 11:25

 

 

Começou hoje, na CBS, a 12ª e última temporada da série “Two and Half Men”.

Esta série estreou em 2003, com Charlie Sheen, Jon Cryer e Angus T. Jones nos principais papeis. Ao longo de oito anos, milhões de pessoas soltaram gargalhadas com as aventuras de um compositor de jingles solteirão e bom vivant (Charlie Sheen) – cuja vida oscila entre o fundo de uma garrafa de whisky vazia e uma noite com uma estranha -, que dá guarida ao irmão (Jon Cryer) e ao seu filho de dez anos (Angus T. Jones). Contudo, a entrada de Ashton Kutcher, na 9ª temporada, não granjeou a simpatia de grande parte do público que viu nesta troca de elenco um adiado mas inevitável fim de “Two and Half Men”.

Esta era a oportunidade ideal para Charlie Sheen se assumir como um dos grandes actores da sua geração, justificando as expectativas criadas por um início de carreira auspicioso: Platoon, Hot Shots, Os Três Mosqueteiros.

Mas Charlie Sheen levou o seu papel longe demais: à vida real. Drogas, álcool e prostitutas levaram Sheen a episódios de detenção, prisão e internamento, tendo obrigado, inclusive, a CBS a terminar uma das temporadas antes do previsto.

Este ano já tinha ficado marcado pelo fim de “How I Meet Your Mother” (2005 – 2014), uma série que pautou pela originalidade e renovação a cada temporada, pelo humor refinado, e pelo argumento que nos cativou ao enaltecer o valor da amizade. A ter um mote, o de HIMYM seria “os amigos são os que conhecem as tuas histórias, mas os melhores amigos são os que as viveram contigo”.

Se umas terminam, outras virão, é certo, mas o mundo nunca mais será o mesmo.

O mundo não foi o mesmo depois de “Seinfeld” (1989 – 1998), “The X Files” (1993 – 2002) ou “Law & Order” (1990-2010). O humor de “Friends” (1994 – 2004), “That 70’s Show” (1998-2006) ou “Will and Grace” (1998 – 2006) não se repete. E tantas outras se tornaram insubstituíveis.

As séries, como tudo, marcam não apenas pela qualidade, pelo conteúdo ou pela qualidade do conteúdo, mas pelo tempo em que acontecem.

Para quem se encontra na casa dos 30, como eu, “Allo Allo” (1982 – 1992) é mais do que a série cómica, com uma trama difícil de compreender aos oito ou nove anos de idade, que passava no segundo canal. Marca a infância sem Internet, Touchscreen e centenas de canais na TV. Traz à memória os jogos de futebol com uma bola gasta, as brincadeiras no parque e as subidas às árvores para a “apanha de fruta alheia”, quando todos os rapazes queriam ser desenrascados como o MacGyver (1985-1992) ou como os Soldados da Fortuna (1983-1987), e conduzir o carro do Knight Rider (1982 – 1986).

Em 1995, não havia adolescente que não fosse apaixonado por Lucy Lawless, a bela Xena, a Princesa Guerreira (1995 – 2001) ou por todo o elenco feminino de Baywatch – Marés Vivas (1989 – 2001), e nas lutas dos intervalos de escola todos queriam ser o Mighty Morphin Power Ranger (1993-1996) Vermelho. Ou então Walker, o Ranger do Texas (1993 – 2001), mas sem aquela barba ridícula do Chuck Norris.

Em 2004 viria a estrear uma série de culto: “House, MD” (2004 – 2012). Muitos dos, como eu, trintões, filhos dos 80’s, terminaram o Ensino Secundário e entraram Universidade ou no mundo do trabalho, viveram as paixões mais intensas e mais estúpidas e tomaram as melhores e as piores decisões, enquanto acompanhavam esta série.

Actualmente, uma das séries com mais humor e inteligência é “The Big Bang Theory”, que iniciou em 2007.

Tudo marca pelo tempo em que acontece, e a nostalgia sabe bem. Faz bem. Já “nada é como antes”. “Hoje em dia” não se faz nada como antigamente. “No meu tempo é que era”.

Quem entre nós, trintões, consegue ouvir “Íris” de “Goo Goo Dolls”, sem exclamar “Que grande música. Já não se fazem músicas destas”?

Mas não foram apenas as músicas que foram grandes. Nem os filmes. Nem as séries.

Grandes foram os tempos em que aconteceram. Enormes foram os tempos em que as vivemos.

A CBS anunciou a última temporada de Two and Half Men: “the beginning of the end of na era starts now”.

Venha daí, então, o fim de uma era. E o início de outra.

Venham grandes novos tempos. E venham novos grandes tempos.