Serão as aves azuis?

por Anabela Silveira | 2014.10.06 - 23:02

Convenhamos:

A minha “amizade” com Beatriz Pinheiro é recente. Bastante recente mesmo.

Mas gosto dela. Muito mesmo. Tanto que, com todo o respeito, transformei-a numa personagem dramática e ela não se queixou. Que eu saiba…

Foi então assim que aconteceu:

Escrevi, para o TGV (Teatro da Grão Vasco) a peça Serão as Aves Azuis? Sim, um título em forma de pergunta. Com encenação de Carlos Clara Gomes, o grupo apresentou-a no Festival de Teatro Jovem, edição de 2014.

No fim de contas, em se tratando de Beatriz Pinheiro, há coisas que não podem ficar fechadas nas gavetas e serem apresentadas uma única vez.

Então, pensei: e se divulgasse o texto?

Aqui vai.

 

 

 

Serão as aves azuis?

 

 

 

PERSONAGENS:

 

O Espectro de Hilário

Beatriz Pinheiro                                                                                                                 

Carlos Lemos

Cónego da Sé

Beata

1 Mulher

2 Raparigas

2 Estudantes de Coimbra

Figurantes

 

ESPAÇO:

 

Viseu

Redacção da revista Ave Azul

Adro da Sé

Rua Nova

 

 

Tempo:

 

1899 – 3 anos depois da morte de Hilário

 

 

 

Pano de cena fechado

 

CENA 1

 

(Fado Hilário como tema de fundo. O Espectro Hilário desce pela coxia central até ao palco, onde se senta quando se ouvem os versos “a forma de um coração// a forma de uma guitarra)

 

Espectro Hilário: Fui eu que escrevi e cantei isto. Mas ninguém fez questão de entender. Quando fui a enterrar no cemitério de Viseu, o meu caixão tinha a forma exacta dos caixões comuns. Era rectangular e à medida de meu corpo ferido pela doença. Parece que morri de (coça da cabeça) de icterícia grave. Também consta por aí que sofria de cirrose. Problemas de fígado. Estava desfeito. Culpa da boémia coimbrã, da zurrapa bebida nas tascas. Mas sussurram que estava infectado com a sífilis (coloca o dedo indicador na boca a pedir silêncio). Chiu! Que isto da sífilis só pode ser murmurado. Doença íntima das partes íntimas, não sei se me compreendem? Há males assim e acusam-me de ter frequentado as rameiras de Coimbra! Moralistas! Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra. (Dá uma gargalhada). Pois, sim senhor. Morri a 3 de Abril de 1896, já lá vão três anos. Eram 9 horas da noite. As trindades tinham batido na torre da Sé. Ainda as ouvi. Pudera, a casa de meus pais, na rua nova, ficava tão perto! Levei a capa como mortalha, pois então! Não fui eu o boémio trovador da cidade dos amores de Pedro e Inês? Agora, apodreço sob a lápide pesada de granito no cemitério da cidade que me viu nascer. (Só então parece reparar no público) Eh! Lá. Mas onde é que vim parar? Vosselências sabem dizer-me onde estou? É que, de vez em quando, faço umas pequenas passeatas pela cidade, porque os seres, anjos ou demónios, nem sei bem, que tomam conta de nós, não nos deixam ir muito longe. Mas dizia eu que, de vez em quando, dou umas passeatas pela cidade. Sim senhor! Está bem diferente! Cresceu tanto que a estranho. Nem sei como vim parar aqui! Acontece que, quando me distraio, entro em sítios desconhecidos. (Põe-se de pé, olhando em volta) Mas, cuido que esta sala se parece com uma casa de teatro! Estarei certo? Também fui actor. E que belas representações! E as palmas? Ah! Como gostava eu das palmas! Dos aplausos! Dos «encore»! Vendo bem, vou ficar por aqui (senta-se no canto lateral direito). Sinto-me em família.

 

Abre-se o pano de cena

 

(O cenário dividido em duas parte: de um lado a sala que servia de redacção à revista “Ave Azul”. Do outro o adro da Sé de Viseu. Na redacção da Ave Azul, Beatriz Pinheiro e Carlos Lemos preparam um novo número da revista. No adro da Sé, passeiam-se populares, entre os quais estudantes trajados a rigor).

 

CENA 2

 

(Adro da Sé iluminado)

 

Estudante 1: (dedilhando uma guitarra) Se o Hilário aqui estivesse, puxava da sua voz de tenor…

 

Estudante 2: (sentado no chão) Soprano. O Hilário era soprano.

 

Estudante 1: (continuando a dedilhar a guitarra) Tenor! Digo-to eu. Não percebes nada do naipe de vozes! Ignorante! Pois se o Hilário aqui estivesse, puxava da sua voz e arrefinfava-lhe uma cantoria.

 

Estudante 2: (continuando sentado no chão) Como o Hilário já não está entre nós e a tua voz é de cana rachada, ficas-te por aí a estragar os acordes da guitarra! (levanta-se). Soprano. O Hilário era soprano.

 

Estudante 1: (continuando a dedilhar a guitarra) Tenor! Repito. Se o Hilário aqui estivesse, puxava da voz e arrefinfava-lhe um fado, com uma letra do João de Deus!

 

Estudante 2: Porque não com uns versos dele? (duas raparigas aparecem no canto superior direito) Acaba lá com essas guitarradas (dá um ligeiro toque no ombro do companheiro), que ainda afastas as avezinhas que para aqui voam…

Estudante 1: (parando de tocar) Que dizes tu?

 

 

 

CENA 3

 

(As duas raparigas atravessam a cena com cantarinhas de água pousadas na cintura)

 

Estudante 2: (aproximando-se) As meninas são cá da terra?

 

Rapariga 1: (com ar muito admirado): Boa tarde, senhor. Somos, porquê? Vossemecê é de fora?

 

Estudante 2: Estudante de Coimbra (mostrando a capa). Não se nota?

 

Rapariga 1: (encolhendo os ombros) Não se nota, o quê, meu senhor?

 

Estudante 1: (metendo-se na conversa) Não lhe ligue! Diga-me uma coisa. A menina conhecia o Hilário, o Augusto Hilário, o cantador de Coimbra?

 

Rapariga 2: (com ar espevitado) Está a falar do Augusto Hilário, o filho duns tasqueiros ali da Rua Nova?

 

Estudante 1: Cuido que sim!

 

Rapariga 2: Como pode ser cantador de Coimbra, se ele era cá de Viseu? (Espantada) Ele há cada uma!

 

Rapariga 1: Mas olha que o Augustito andava em Coimbra a estudar para médico

 

Rapariga 2: Pois sim! A Zefa disse-me que ele era assim a modos que qualquer coisa na marinha

 

Rapariga 1: Não! Andava a estudar para médico. Coitadito! (limpa uma lágrima inexistente) Nosso Senhor levou-o tão cedo!

 

Rapariga 2: Grande funeral o dele, lembro-me bem. Veio muita gente a acompanhá-lo à última morada. (Reparando bem no traje dos estudantes). Estava muita gente, quero dizer, muitos homens, trajados assim como vossemecês os dois.

 

Estudante 1: Pois claro. Veio a academia em peso prestar-lhe as últimas homenagens! Deixou-nos tão cedo o rouxinol do choupal!

 

Rapariga 1: (com um ar muito admirado). Hã! Rouxinol quê?

 

Estudante 2: Nada, minha formosa menina. Não canse a sua cabecinha! Já agora, dê-nos uma informação. Fica muito longe a casa dos pais do Hilário?

 

Rapariga 1: Nada. É só descerem a Rua Nova. Fica mesmo ao fundo quase a entrarem na Rua Direita (Curiosa). Para que quer saber?

 

Estudante 1: Queremos ir a casa dos pais do Hilário entregar-lhe umas coisas do filho.

 

 

CENA 4

 

(Redacção da revista iluminada. Beatriz Pinheiro e Carlos Lemos, sentados a uma mesa cheia de papéis e revistas)

 

Beatriz Pinheiro: (tem na mão um exemplar da revista Ave Azul) Estava a reler o texto de apresentação da nossa revista. Tu escreveste que “gostos não se discutem; nem se justificam tão pouco”. E olha que é bem verdade! Eu prefiro um solo de harpa ao trinar da guitarra.

 

Carlos Lemos: (pousando a caneta com que estava a escrever) Porque dizes isso?

 

Beatriz Pinheiro: Não sei. Lembrei-me do Augusto Hilário que tocava guitarra e cantava aquelas melodias a que agora chamam fado de Coimbra. Não sei bem se gosto daquele toar e do tremor na voz de quem o canta. Não sei mesmo.

 

Carlos Lemos: Por isso é que os gostos não se discutem? Mas olha que ele tinha algum cuidado com o que cantava. Sabia escolher as letras. Não cantou versos do Nobre, do João de Deus, do Pascoais, do Guedes Teixeira e até do Ladislau Patrício?

 

Beatriz Pinheiro: Dizem que sim. Nunca o ouvi cantar. (Hesitando) Espera. Tenho uma vaga ideia de, no adro da Sé, o ouvir naquele fado do caixão em forma de guitarra. Tétrico!

 

Carlos Lemos: A letra é dele. Parecia uma premonição do seu fim, tão cedo se foi.

 

Beatriz Pinheiro: (Pensativa) Aos 32 anos! Pouco mais velho era do que eu!

 

Carlos Lemos: Que achas se lhe dedicarmos um artigo no próximo fascículo da nossa revista? De certa forma, o Hilário é uma ave azul. (Rindo-se) Canora!

 

Beatriz Pinheiro: (Rindo) Mas de uma plumagem azul bem escura, quase preta! Olha a capa que ele tão bem glosava!

 

Carlos Lemos: Coitado do Augusto! Não te esqueças que relembrámos o João de Deus no terceiro aniversário da sua morte.

 

Beatriz Pinheiro: Pois foi. Até escreveste (procura na revista), deixa-me encontrar. Cá está. () “O segredo da sua Arte está no teor da sua vida: poetou como viveu; viveu como poetou: o homem e o poeta, uma Harmonia”. Tens razão, Carlos, porque não relembrar o Lázaro (Rindo). Sabias que o Hilário foi baptizado com o nome de Lázaro Augusto?

 

Carlos Lemos: Não.

 

Beatriz Pinheiro: É o que contam e que, por altura do crisma, mudou o nome para Augusto Hilário. Vê lá como as coisas são. O fado mais conhecido não se chama o fado do Lázaro, mas o Fado Hilário. (Rindo). Saiu-me cá uma ave!

 

CENA 5

 

(Palco às escuras. Luzes sobre o Espectro Hilário)

 

Espectro Hilário: (espreitando a redacção da Ave Azul) Mas aquela não é a Beatrizinha Pinheiro? Parece ela! E ele, quem é? (firma o olhar). Afigura-se-me o Sr. Professor Carlos Lemos que dá aulas no Liceu. (Curioso). Que estão eles a fazer. Irra, tanta papelada em cima da mesa. (Virado para o público) Não falaram de uma revista? Cuido que sim! Vosselências podem relembrar-me o nome da publicação? Como? Ave Azul? Não conheço. Pudera, estou morto há já três anos! E uma revista sobre quê? (Levanta-se, vai buscar um exemplar e volta a sentar-se). Ora bem, (desfolha o exemplar que tem em mãos), olha uns versos que podiam dar um fado! Adiante que me falta a guitarra. (Lê então) “A Ave Azul é, pura e simplesmente, uma revista de arte e de crítica: mais nada. Nas suas páginas se recolherão versos, quando possamos, bons; prosas, quando possamos, correctas; e, blá, blá, blá, uma vez por outra, para não aborrecer demasiado umas notas de estética, ao alcance de todos, de pura vulgarização”. (Fecha a revista) Sim senhor! E logo aqui em Viseu! (Encolhe os ombros). Não sei se terá pernas para andar! Mas louvo-lhes a intenção. (Interrogando o público) O Sr. Professor não disse que ia escrever um artigo sobre mim? Mas a Beatrizinha riu-se. E chamou-me uma ave de plumagem muito escura! Mazinha! Ela só gosta lá do seu harpeio! Não sabiam que ela toca harpa muito bem? Pois toca! Uma exímia executante!

 

 

CENA 6

 

(Adro da Sé iluminado. A Beata encontra-se com o Cónego da Sé)

 

Beata: Ó senhor Cónego! Sr. Cónego, uma palavrinha

 

Cónego da Sé: (enfadado) Só uma que eu sei como vossemecê é. Nunca mais se cala e já estou atrasado para a missa.

 

Beata: É mesmo por causa da missinha, senhor Cónego! Disseram-me que era pela alma daquele Augustito ali da Rua Nova.

 

Cónego da Sé: (seco) E se for, o que tem?

 

Beata: Ó senhor Cónego, ele morreu sem sacramentos e dizem que de doença ruim, mas mesmo muito ruim, que se apanha por má frequência, faço-me entender?

 

Cónego da Sé: (seco) E isso que tem? A mãe encomendou-me a alma, pagou o que é devido e a missa vai ser rezada!

 

Beata: (escandalizada) Ora a mãe! Uma mãe que o mandou para a roda quando nasceu!

 

Cónego da Sé: (irritado): Ó mulher, vossemecê é mesmo venenosa!

 

Beata: O senhor cónego não se lembra, mas lembro-me eu que o pequeno foi para a roda porque os pais não viviam de acordo com as normas da Santa Madre Igreja.

Cónego da Sé: (irritado) Não tenho mais tempo para conversas que me atrasa a missa. Vossemecê vem?

 

Beata: (amuada) Ainda não sei, senhor Cónego. Vou-me mas é à capelinha da Senhora dos Remédios rezar o meu tercinho!

 

Cónego da Sé: (saindo de cena) Faça como quiser!

 

 

CENA 7

 

(Palco às escuras. Luzes sobre o Espectro Hilário que se aproximou do Adro da Sé)

 

Espectro Hilário: (visivelmente irritado) Mas o que é que a beata tem a ver com a missa por minha intenção? Sempre a meter-se na vida dos outros? E se eu fui para a roda ao nascer? Não me perfilharam os meus pais e não tenho os seus apelidos? Que lhe interessa a ela se eu me finei sem os sacramentos? Com eles ou sem eles todos vimos parar debaixo da terra. Já agora, que reles mencionar a minha doença. Sabe lá ela do que morri! Há gente que não muda e de nada lhe vale bater do peito e arrastar-se de joelhos no lajedo da Sé! (Virando-se para o público). Digo-vos eu que já estou do outro lado. O que sei é que das beatas como ela ninguém se vai lembrar, enquanto daqui a 150 anos, mais coisa menos coisa, haverá gente a recordar o Hilário, nem que seja pelo fado que leva o meu nome. Tenho ou não tenho razão? (Torna a sentar-se) Velha dum raio!

 

 

CENA 8

 

(Adro da Sé iluminado. Enquanto a Beata, desfiando o terço, se prepara para sair de cena, uma mulher salta-lhe ao caminho)

 

Mulher: Não pude deixar de ouvir o que vossemecê disse ao senhor Cónego

 

Beata: (agastada) E que disse eu, já agora?

 

Mulher: Falou mal do defunto. Lá por não gostar da família dele…

 

Beata: (interrompe irritada) Pois não gosto. Gente que não sabe temer a Deus e que vive em pecado! E olhe que o defunto seguia o mesmo caminho. Sabe lá o que fazia pelas Coimbras! Andou por lá 10 anos na estroina!

 

Mulher: (de mão na anca) Como é que vossemecê sabe? Andou por lá, também?

 

Beata: (benzendo-se) Cruzes! É o que dizem por aí. 10 anos na estroina, sim, que de estudos nada!

 

Mulher: (de mão na anca) Olhe que vomecê!

 

Beata: 10 anos na estroina, pois. De bebedeiras, cantorias e sabe-se lá quê mais (benze-se novamente) Vade retro. E agora, desampare-me que quero ir rezar o terço. (Dando um encontrão à mulher sai de cena,

Mulher: (espantada) Não querem lá ver esta! Tão pouca caridade! Coitado do moço que já está na terra da verdade! Ainda se fosse rezar o terço às alminhas do purgatório!

(cruza os braços) Mas que o rapaz cantava bem, isso cantava!

 

 

CENA 9

 

(Redacção da revista iluminada. Beatriz Pinheiro de pé. Carlos Lemos sentado a escrever)

 

Beatriz Pinheiro: Faz hoje anos que o Hilário morreu.

 

Carlos Lemos: (parando de escrever) É verdade. A 3 de Abril de 1896.

 

Beatriz Pinheiro: Manténs a hipótese de um artigo sobre ele?

 

Carlos Lemos: Mantenho. Eu sei que torces o nariz à canção de Coimbra, ao fado. Mas tenho para mim que, daqui a 100 anos, muita gente o canta. Mais, o fado do nosso Hilário tornar-se-á num caso muito sério.

 

Beatriz Pinheiro: (sentando-se) Não torço nada o nariz. A música é também uma forma de arte. E as aves azuis não se quedam pelos poetas e pelos romancistas. (Abre o 1ºfascículo). Sobre o João de Deus escreveste, deixa-me ler, “eram lindos versos e cantavam-nos. As cantigas do povo também são anónimas: por isso são eternas”

 

Carlos Lemos: Eu sei e não te esqueças que o Hilário foi o responsável por pôr música em versos de João de Deus, também ele um antigo estudante da Lusa Atenas.

 

Beatriz Pinheiro: (pensativa) Indo por aí, tens toda a razão em querer prestar homenagem ao Augustito da Rua Nova. Uma coisa que me aborrece e deixa perplexa é essa das homenagens pós-morte, quando em vida as pessoas são muitas vezes tão maltratadas.

 

Carlos Lemos: Ó Beatriz, então?

 

Beatriz Pinheiro: É verdade!

 

Carlos Lemos: Nem sempre é assim. O João de Deus foi homenageado em vida.

 

Beatriz Pinheiro: Eu li na imprensa. Mas tu estiveste lá. (Curiosa) Conta-me outra vez como foi!

 

Carlos Lemos: Foi a 10 de Março de 1895, um ano antes da morte do poeta. O Ateneu Comercial de Lisboa quis homenageá-lo, contando com a colaboração da Academia de Coimbra. Hilário fazia parte da delegação que se deslocou à capital.

 

Beatriz Pinheiro: Começou na rua a dita homenagem, não foi?

 

Carlos Lemos: Foi. Os homenageantes postaram-se junto à casa de João de Deus que assomou à janela. O Hilário, de capa e batina e joelho no chão, improvisou quadras numa melodia que ficava entre o fado corrido e os descantes populares.

 

Beatriz Pinheiro: Que instrumento tocou ele?

 

Carlos Lemos: Não me recordo. Também estava um bocado longe e só lhe via as costas.

 

Beatriz Pinheiro: Mas ouviste-o cantar?

 

Carlos Lemos: Claro. Aquela voz de barítono enchia a rua. Transbordava-a. As sacadas das casas ficaram repletas de pessoas que o ouviam em silêncio. Só a voz dele ecoava naquela manhã ainda fria de final de inverno. Momento único! Acredita, Beatriz!

 

Beatriz Pinheiro: Mas houve festa à noite? Muito mais formal!

 

Carlos Lemos: Houve, pois. Uma récita no D. Maria. O Hilário tocou e cantou! Foi o delírio. Os aplausos nunca mais terminavam. Emocionado e num arrebatamento, lançou a guitarra sobre a plateia!

 

Beatriz Pinheiro: (arregalando os olhos) Que louco!

 

 

CENA 10

 

(Palco às escuras. Luzes sobre o Espectro Hilário, que se sentara junto da mesa da redacção da Ave Azul)

 

Espectro Hilário: (emocionado) Grande dia esse da homenagem ao João de Deus. O homem também se emocionou. Até deixou rolar uma lágrima que se apagou por entre aquelas barbas de patriarca antigo. Parece que nesse dia a voz me saiu mais límpida! O frio da manhã foi compensado pelo odor dos jacarandás que começavam a florir. À noite, com o teatro D. Maria cheio que nem um ovo, deixei-me levar e cantei, toquei numa felicidade indiscritível. Os aplausos foram tantos, mas tantos, os encores mais que muitos que, num arrebatamento, lanço a guitarra sobre a plateia. Fiquei sem a guitarra, mas tinha atingido o zénite! (Para o público). Perguntam-se vosselências, e bem, o que aconteceu à guitarra. Partiu-se, desfez-se em bocados tal foi a fúria do lançamento e o impacto no chão. (Foca-se num espectador como se este o estivesse a interpelar) Se voltei a tocar guitarra? Questiona-me vosselência. Voltei, pois. Podia lá passar sem o seu trinar. Mas a vida tem destas coisas. Veja lá o senhor que me ofereceram uma nova. E foi com ela que compus o meu fado, aquele que leva o meu nome. Pelo que sei, que esta coisa de se viver no além permite-nos viajar ao futuro, a minha última guitarra foi oferecida por um sobrinho neto meu, ou sobrinha, não consegui perceber bem, à academia de Coimbra. Está bem entregue. Ah! mais uma coisa. Num hotelzinho na praça D. Duarte, em Viseu, e desculpem-me a propaganda, com nome Casa da Sé, inventaram um quarto a que chamaram de Hilário e que tem uma réplica da minha guitarra. É só para saberem que não sou só nome de rua. (Esfusiante) Das beatas não reza a história. Apagaram-se com o tempo. Mas os loucos boémios são lembrados!

 

 

CENA 11

 

(Redacção da revista iluminada. Beatriz Pinheiro sentada, escreve. Carlos Lemos passeia-se)

 

Carlos Lemos: (parando atrás da cadeira de Beatriz Pinheiro) Estamos já em finais de Setembro e não escrevemos nada sobre o Hilário.

 

Beatriz Pinheiro: (continua a escrever sem dar qualquer opinião)

 

Carlos Lemos: (debruçando-se sobre o ombro de Beatriz Pinheiro, procura ler o que ela está a escrever) Não ouviste nada do que eu disse. Que escreves tu tão afanosamente?

 

Beatriz Pinheiro: (para de escrever) A crónica de abertura do número de Outubro. Sobre as Ligas da Paz. (enrugando a testa). Pergunto-me como irão receber o meu artigo sobre a educação das mulheres. Achas que vai ser muito criticado

 

Carlos Lemos: Temo que sim. Não só cá, mas por todo o país.

 

Beatriz Pinheiro: (pensativa) Na verdade, levantar questões novas que poem em causa um pensamento enquistado pode sair-nos caro.

 

Carlos Lemos: (senta-se) Mas se é o que pensamos e defendemos, acreditando que o futuro poderá ser diferente, porque não agitar as consciências?

 

Beatriz Pinheiro: Vê lá tu bem! A Ave Azul foi concebida como uma revista de divulgação de arte e cultura, e já vamos na emancipação feminina.

 

Carlos Lemos: Uma outra forma de cultura, quiçá! Mas vamos ao que interessa e ao Hilário. Não escrevemos sobre ele.

 

Beatriz Pinheiro: Pois não. E pelo que tenho aqui apontado, os números até Dezembro estão já tomados. Temos de deixar para o ano que vem.

 

Carlos Lemos: Possivelmente terá de ser assim. Contudo, vou alinhavar algumas ideias e procurar ver se encontro algumas letras das canções que ele escreveu. Vou divulga-las.

 

Beatriz Pinheiro: Não te podes esquecer da letra do Fado Hilário.

 

Carlos Lemos: (soltando uma gargalhada) Como podia?

 

 

CENA 12

 

(Adro da Sé iluminado. O Cónego da Sé lê um fascículo da Ave Azul. A Beata observa-o)

 

 

Cónego da Sé: (batendo com a mão na página que estava a ler visivelmente irritado). Não querem lá ver esta! A Sra. D. Beatriz Pinheiro deu-lhe para escriba e, sem vergonha nenhuma, redige umas enormidades que só visto. Onde se viu defender que a mulher é igual ao homem? Esta senhora anda a ler de mais e a ser conspurcada com as ideias que não deixam de chegar além Pirenéus!

 

Beata: (que se chegara de mansinho ao pé do Cónego) Credo, senhor Cónego! A falar sozinho? E bem agastado está vossa senhoria!

 

Cónego da Sé: Pois estou com as coisas que se lêem por aqui e são publicadas nesta cidade que sempre foi temente a Deus e nunca se deixou seduzir por modernices pecaminosas.

 

Beata: (benzendo-se) Cruzes, abrenúncio, Senhora do Carmo. Isso é assim tão mau, senhor Cónego?

 

Cónego da Sé: Muito mau mesmo. E sabe vossemecê quem escreveu?

 

Beata: Como poderia saber? Saiba vossa senhoria que eu não atento em mais nada que não seja a religião e a minha casinha.

 

Cónego da Sé: Pois foi a Sra. D. Beatriz Pinheiro

 

Beata: (muito espantada) A Beatrizinha? Não pode ser, senhor cónego. Então eu não a conheço tão bem! Até trabalhei em casa dos pais! Era uma menina que gostava muito de ler e de escrever. Lá isso era.

 

Cónego da Sé: Vossemecê sabe ler?

 

Beata: (continuando espantada) Eu?! Ó senhor Cónego. Desde pequenita que aprendi o trabalho. Tive lá tempo para essas coisas da leitura e dos livros!

 

Cónego da Sé: Então ouça esta pérola: “O que eu desejo é que a mulher progrida, progrida sempre, que por todos os meios justos ao seu alcance faça por se tornar igual ao homem, para de uma vez para sempre, acabar esta pretendida superioridade do macho e ela deixar, enfim, de ser a mísera escrava emparedada e manietada, o ser secundário, ínfimo, que ora está sendo”. Percebeu tudo?

 

Beata: (benzendo-se e puxando do terço) Nem quero, porque pelo que o senhor Cónego leu, parece-me ser coisa do chifrudo. Onde é que vamos parar! Coitadinha da minha menina que lhe devem ter dado volta ao miolo. Vou mas é rezar um rosário à capela do Senhor dos Passos, para que ele, na sua imensa misericórdia, ilumine os espíritos que bem precisados são.

 

Cónego da Sé: Vá, mulher, vá, que isto não pode ficar assim. Onde já se viu! (sai por detrás da redacção da Ave Azul

 

Beata: (dirigindo-se para dentro da Sé) Acho-te graça. Atacas a minha menina, mas foste lépido a rezar a missa por alma daquele esconjurado que cantava o fado lá pelas tascas. Que quando ele cá vinha, não deixava ninguém dormir descansado, tal eram os trinados e as cantorias. Mas, nessa altura untaram-te as unhas. Nosso senhor nos abençoe e nos livre das tentações, que bem precisamos!

 

CENA 11

 

(Palco às escuras. Luzes sobre o Espectro Hilário, sentado a meio do palco)

 

Espectro Hilário: O cónego da Sé estava mesmo irritado. Não percebi lá grande coisa da irritação, nem tão pouco o que a Beatrizinha escreveu, mas pareceu-me que vai aborrecer muita gente por aqui. (Para o público). Falava das mulheres e não sei de quê da igualdade com os homens! Destas coisas, nada entendo e até acho que devem deixar ficar o mundo como está. As meninas são rosas a quem se fazem serenatas. As outras dão-nos aquelas felicidades que não podem ser nomeadas perante um público tão selecto como este que tenho à minha frente. (Levanta-se) Mas este já não é o meu mundo e sei, porque o futuro adivinha-se no além, que o que a Beatrizinha escreveu, escandalizando a beata e irritando o cónego acontecerá. (Galhofeiro) Mas o que elas terão de penar! Não lhes bastava as serenatas, os vestidos, os chapéus e alguns romances que lhes ocupassem os dias? Mas não, querem mais! Isto sou eu a falar que sou já um espectro e um homem da boémia. (Sacudindo as mãos). A mim tanto se me dá como se me deu. Porque o que sei é que as serenatas e o fado coimbrão irão perdurar por muito tempo. A revista, coitada, terá só mais um ano de vida. Morrerá em Dezembro de 1900. (Virando-se pra um espectador). O é que Vosselência disse? Ah! sim, a revista será reeditada, mas isso ainda vai demorar muito. Olhe, um século precisamente. 100 anos. Já viu o que são 100 anos?

 

CENA 12

 

(A zona do palco que se referia ao Adro da Sé transforma-se na Rua Nova. Os estudantes de Coimbra dirigem-se à casa dos pais do Hilário, encontrando-se com as duas raparigas)

 

Estudante 2: Ora vivam, minhas flores!

 

Raparigas: Deus lhes dê muitas boas tardes.

 

Estudante 2: Não se lembram de nós?

 

Rapariga 1: Lembramos sim senhora. Até lhes ensinámos o caminho para a casa dos pais do Augustito.

 

Estudante 1: Isso mesmo. E não é que vamos para lá agora!

 

Rapariga 2: Fazer o quê? (Envergonhada) Desculpe lá, mas é assim a modos de falar.

 

Estudante 1: Fazer uma serenata!

 

Rapariga 2: Fazer o quê?

 

Estudante 2: (Galhofeiro) Uma serenata! Então, uma menina tão bonita não sabe o que é uma serenata?

 

Rapariga 2: (Cabisbaixa e de olhos no chão) Eu não senhora. (Vira-se para a amiga) Tu sabes, ó coisa?

 

Rapariga 1: (Acena com a cabeça negativamente)

 

Estudante 2: Então, uma serenata é uma espécie de concerto que se faz debaixo das janelas da menina por quem temos uma dedicação especial.

 

Rapariga 2: Ah! (Brincalhona) E na Rua Nova mora alguma menina a que o meu senhor se dedique?

 

Estudante 2: Quem sabe. A menina onde mora?

 

Rapariga 2: Ora, na Rua Nova mesmo paredes meias com a casa do Hilário!

 

Estudante 2: Então, está a ver!

 

Estudante 1: (Muito sério) Que é lá isso? Hoje a serenata não é dedicada às meninas. É a nossa maneira de homenagear o Hilário. Sem a voz dele, vamos cantar como pudermos!

 

Rapariga 2: E vão cantar as modas que o Hilário cantava?

 

Estudante 1: Sim, vamos cantar as canções do Hilário.

 

Rapariga 2: Temos de ir chamar o povo!

 

 

CENA 13

 

(Palco às escuras. Luzes sobre o Espectro Hilário, sentado a meio do palco)

 

Espectro Hilário: Vão fazer uma serenata junto a minha casa, em Viseu? Há qualquer coisa que não liga bem. A serenata só acontecerá lá para finais do século XX. Não me digam que também querem descerrar uma lápide? Já agora!

 

 

CENA 14

 

(A Rua Nova ilumina-se. Em cena os estudantes de Coimbra, as raparigas e figurantes que vão entrando, entre os quais a mulher e o Cónego da Sé. A cara da Beata por entre as cortinhas do palco)

 

Rapariga 1: (Correndo para o lado da redacção da Ave Azul) Vinde, vinde todos que os estudantes vão fazer uma serenata em frente à casa do Augustito Hilário!

 

Rapariga 2: (Correndo em sentido oposto da amiga) Vinde, que a serenata vai começar. São os fados do Hilário.

 

(Figurantes e actores concentra-se em frente à asa do Hilário)

 

Estudante 1: Boa noite, meus senhores! Estamos hoje aqui para prestar a nossa singela homenagem ao grande cantador Augusto Hilário, o criador do fado de Coimbra.

 

(Aplausos)

 

Estudante 2: Sabemos que Hilário há só um. Não fomos fadados com a dádiva divina de uma voz como a dele, nem conseguimos tanger a guitarra da forma como o fazia! Mas fomos seus amigos. Com ele percorremos tocando e cantando as vielas de Coimbra. Porque Coimbra é isto, meus senhores. Estudos, boémia, canção.

 

Estudante 1: E as canções que vos trazemos têm todas a marca do Hilário. Na música com letras de poetas nossos, ou com versos seus.

 

(Aplausos)

 

Mulher: Ai que ele cantava tão bem! Parecia um rouxinol! (Emociona-se, limpando uma lágrima furtiva à ponta do avental)

 

Cónego da Sé: Ó mulher, não é preciso chorar, já agora.

 

Mulher: (Reparando no Cónego) Vossa reverência estava aí? Fico sempre comovida quando ouço falar do Augustito. Sabe, vi-o crescer, fazer-se homem, abalar para os estudos para Coimbra. (Triste). E acompanhei-o à tumba. Grande funeral o dele. Nunca se viu um assim cá na cidade

 

Cónego da Sé: Então eu não sei! Fui eu que o fiz. E vossemecê e não sabe das notícias que foram publicadas nos jornais. Parecia que tinha morrido um político!

 

Mulher: (Encolhendo os ombros) Ó senhor Cónego! Olhe que acomparação! Um político!

 

Cónego da Sé: Cale-se lá agora que isto vai começar. Não é que eu apreciasse o rapaz. Não apreciava a forma como vivia e como desbaratou a vida. Mas que lá cantava, cantava, deixando-nos fados que vão ser sempre lembrados.

 

Beata: (Benzendo-se) Onde é que este mundo irá parar! Em vez de rezarem mais tercinhos, ficam-se ali a ouvir modas do Hilário! Até o senhor Cónego! Ó valha-nos o Santíssimo Sacramento!

 

CENA 15

 

(Penumbra sobre a Rua Nova, de onde saem acordes de guitarra e viola. Iluminação sobre a redacção da Ave Azul. Beatriz Pinheiro sentada a escrever. Carlos Lemos em pé)

 

Carlos Lemos: Estás a ouvir, Beatriz! Parecem violas e guitarras!

 

Beatriz Pinheiro: (Continuando a escrever) Não ouço nada.

 

Carlos Lemos: Presta atenção! Não deve ser longe.

 

Beatriz Pinheiro: (Pousa a caneta) Agora, sim. São mesmo violas e guitarras. Onde será?

 

Carlos Lemos: Não sei, vou ver. (Rindo) Para quem só gosta de harpa, ficaste muito atenta!

 

Beatriz Pinheiro: (Solta uma gargalhada) Pois, vai lá.

 

 

CENA 16

 

(Palco iluminado. Com o Espectro Hilário ao centro, começa a serenata que é muito aplaudida)

 

 

 

Anabela Silveira – 2014

 

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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