“Sem rede”

por Carlos Salvador | 2013.11.28 - 16:32

Seria difícil começar a escrever sobre cinema sem usar a palavra ‘crise’.

No entanto, para quem vive no interior de um país como Portugal, a ‘crise no cinema’ a que me refiro é mais antiga, mais ampla e mais sedimentada.

No cinema e no interior ela torna-se gigantesca; afecta a produção, a distribuição, a formação e até a criação de públicos. E não é uma ‘crise’ romanceada. É real e é dura. Prima pelo silêncio e pela indiferença das pessoas.

Na verdade, não há dinheiro para fazer filmes, os padrinhos e os favores estão longe, as salas de cinema foram fechadas ou trocadas por ‘salas de visionamento’ em centros comerciais, as escolas de cinema estão quase sempre longe e, invariavelmente, o público cede a outras motivações.

Mas conheço uma excepção. Incontornável.

Refiro-me a Viseu. Nesta cidade respira-se cinema. E quem ainda não percebeu… está distraído. Ou entretido.

Vale a pena detalhar:

– o Cine Clube de Viseu organiza ciclos de cinema, o Cinema na Cidade e, com a Projecto Património, o Festival VistaCurta;

– os Jardins Efémeros incluem o cinema e o vídeo experimental na sua programação;

– os Palcos Livres da Zunzum apresentam curtas-metragens;

– o projecto Musiquim fundamenta-se no suporte vídeo;

– a Empório acolhe mostras de curtas-metragens e mantém o cinema presente na sua Viseupédia.

– o Museu do Falso incorpora filmes na sua colecção.

– a Escola Profissional Mariana Seixas oferece um curso de Multimédia e organiza a 48ShortMedia.

– germinam Clubes de Cinema em algumas escolas públicas;

– nasce um Festival de Curtas-Metragens numa escola pública de 2º e 3º ciclo;

– organizam-se ‘residências artísticas’ em cinema-curto para jovens estudantes de Artes;

– o movimento europeu Shortcutz chega a Viseu e instala-se na Só Sabão;

– mostram-se filmes-curtos em pequenos e grandes auditórios, neste e naqueles contextos.

A lista não é exaustiva. Ainda assim, parece não ter fim.

De facto, a cidade e a região de Viseu têm à sua mercê uma oferta cultural cinematográfica independente e uma abordagem diversificada e pertinente que pressinto irrepetível noutra cidade portuguesa da mesma dimensão.

Mas a cidade sabe o que fazer com isso? Sabe e quer usar as vantagens que daí podem resultar?

O que faz Viseu com todo este cinema de curtas e longas-metragens, com tantas determinações e empenhos individuais, com todos estes projectos autocéfalos?

Alguns deles já se entrelaçam. Mas será pouco.

Poderia criar-se uma rede que exponenciasse a mais-valia de cada um deles para a cidade de Viseu? Sim. Sem dúvida.

Uma rede estruturada de oferta cultural no âmbito do cinema, em que os parceiros trabalhassem de forma concertada e solidária, aproveitando sinergias e conciliando vontades. Trabalhando em grupo e trabalhando para o grupo, em função dos resultados, em função da cidade.

Seria difícil, muito difícil, mas não impossível.

Seria preciso, de certa forma, partilhar paixões. Para se perceber o que quer o outro, do que precisa o outro e o que cada projecto e cada pessoa tem para oferecer e para receber.

Pina Bausch disse um dia: I’m not interested in how people move; I’m interested in what makes them move. Subscrevo.

Carlos Salvador (Lisboa, 1968) Formação em Design na Faculdade de Belas-Artes (Lisboa) Frequência de Mestrado em Museologia na Faculdade de Letras (Coimbra) Professor de Artes Visuais. Produtor e Programador no Shortcutz Xpress Viseu.

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