Sem que tu estivesses lá

por Patricia Maia Noronha | 2014.11.10 - 13:38

  

Os meus cadernos eram mapas de rascunhos onde ensaiava infinitamente o nosso amor com corações e setas a dizer Pedro + Ana. Ana loves pedro. Ana e Pedro 4ever.

 Sempre que passava pela tua porta. Era o mesmo desassossego. E era só por isso que lá passava. Antes da tua porta, a minha saia ficava mais curta, o decote mais cavado, o ouvido atento, à procura do teu nome.

 À porta da tua porta, deixei-te mil bilhetes anónimos. Bilhetes infinitos. Debaixo da porta. Amo-te. Quero-te. Só penso em ti. És lindo.

Seguia-te às escondidas pelo liceu. Via-te jogar à bola, fintar os adversários, correr até ao golo. E depois a abraçares os teus amigos na celebração. Quem me dera que fosse eu nos teus braços…

 Ouvia em transe as notícias que me contavam acerca das tuas proezas, de como eras o maior no campo e ninguém te tirava a bola dos pés. De como vencias sempre. E marcavas os golos todos da tua equipa.

 Revejo eternamente aquele dia na piscina municipal quando um miúdo ranhoso me atirou para a água, vestida e tudo. Lembro-me dos risos dos outros. Mas lembro-me melhor de ti. Que vieste ter comigo enquanto chorava. Encharcada a um canto.

– Então? Estás a chorar? Por causa de uma brincadeira parva? Não vês que ele é um palerma? E tu tão bonita a chorar…

 E tu tão bonita a chorar”. Foi por causa de ti que acabei por aceitar Deus. A minha mãe arrastava-me para a Igreja Adventista. “O Senhor há-de voltar para nos salvar”. A minha mãe chorava, às vezes, durante os sermões, pelo meu pai ausente, pela comida escassa, pelo trabalho tão duro.

Eu também chorava. Por ti. Por mim. Pela “nossa” paixão escondida. A minha mãe via nas minhas lágrimas uma fé diferente. Sorria emocionada e apertava a minha mão fervorosamente. No fundo da sala, o padre gritava: “O Senhor há-de voltar para nos salvar”. Tu eras o meu salvador. E ias-me salvar.

 Depois houve aquelas férias de Verão. Quando voltei rondei a tua porta dia após dia e nada. Um pressentimento difícil de aceitar entrou em mim. Até que a vizinha de cima, sempre à janela, gritou:

– Oh miudinha, não sabes que o Pedro já não mora aqui?

Durante dias os cães uivaram por ti. Durante dias só chuva, só frio. Durante dias, só noite. E todo o nosso futuro? Para onde ia agora? Senti uma maldição e desejos de vingança e tudo. Pensei em pedir-te explicações. Que espécie de pessoa desaparece assim. De um dia para o outro. Que espécie de pessoa abandona um amor como o nosso? Que espécie de pessoa serias tu? Que espécie seria eu?

 Anos a fio insisti em acreditar que ias voltar. Procurei por ti em todo o lado. Nos dias cinzentos, debaixo da chuva. Entre os buracos do chão. Em noites de copos no meio de luzes robóticas. E alguém um dia parecia que eras tu. O sorriso, os olhos. O cabelo moreno. Se fechava os olhos com força podia pensar que eram as tuas mãos.

 Casei com ele. No dia em que entrei na igreja vestida de noiva, fechei os olhos ao dizer “sim”. E prometi “amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza ate que a morte nos separe”. Chorei por ti quando demos o beijo e a aliança entrou no meu dedo.

 Hoje passei pela tua porta. A minha filha saltitava agarrada à minha mão. Cantarolava. Íamos caminho de uma tarefa burocrática que passava pelo nosso antigo bairro. Estaquei em frente à tua porta.

Já não mora lá ninguém. Naquela porta. Mas sem que tu estivesses lá, o meu coração voltou a acelerar, a saia ficou mais curta, o decote mais cavado. E o meu ouvido atendo, à procura do teu nome.

 

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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