seguir relâmpagos

por Maria José Quintela | 2014.02.27 - 15:26

sempre que sigo pistas tudo desemboca num sentido natural. não sou supersticiosa. gosto até de desafiar estas premissas enigmáticas. confesso que sempre passei por baixo de escadas e nunca nada me caiu sobre a cabeça. pelo menos nada que me provocasse um traumatismo craniano. o que me cai sempre sobre a cabeça são as folhas do outono nos dias de vento. e essas só me trazem melancolia.

o que é preocupante é o que cai dentro da cabeça. o que é perigoso é o choque frontal dos pensamentos que nem sequer precisam dos dias de vento.

dizia eu que sempre que sigo pistas tudo desemboca num sentido natural. nunca me preocupei em desvendar os mistérios pouco misteriosos. as coisas estão lá à frente dos nossos olhos por alguma razão. basta segui-las sem grandes rodeios e menos teorias. precisamente ao contrário do que fazemos com as palavras que nunca resolvem os enigmas. antes conspiram contra os nossos dedos provocando verdadeiros nós.

quando falo em olhos devo fazer uma advertência: os olhos nem sequer precisam de estar abertos para seguir estas pistas. qualquer cego de nascença consegue enxergar. seguir pistas não é mais do que seguir o rasto de pensamentos súbitos. antes que eles façam inversão de marcha e nos confundam de contradições. a maior dificuldade está na contagem deste tempo súbito. a nossa cabeça está cheia de lixo reciclável. os pensamentos às vezes parecem novos e afinal apenas sofreram uma pintura na fachada principal. esta é a primeira armadilha para quem segue as pistas de sentidos naturais.

eu uso um método: a recolha de relâmpagos.

em primeiro lugar é preciso aprender a interpretar a luz. distinguir a luz artificial da luz dos relâmpagos só é fácil ao coração anaeróbio que vive no escuro. já o pulso na polpa dos dedos se ilumina da luz artificial.

dizia eu que sempre que sigo pistas tudo desemboca num sentido natural. uma verdade com um senão: a certeza de seguir um sentido natural é o impedimento da sua expressão por palavras. seguir relâmpagos é um ofício sem recompensa.