Segredo secreto

por Jose Cruzio | 2014.10.02 - 15:54

Um pequeno exercício como espectador é, por vezes, necessário. Quando são coisas boas, sempre é necessário. E muito bom.

Ver outras produções, ouvir outros rumos ou ler sobre mundos possíveis. Para se ter um novo ponto de vista. Para ver o que nos rodeia com outro olhar.

Esses exercícios levam-me a outros locais e a novos contactos. Começo um.

Nos últimos tempos, mercê de contingências ou de novas metodologias de trabalho dos coletivos cénico-performativos, tem crescido o número de estreias com base no “trabalho de e com a comunidade” e nas reduzidas equipas de profissionais.

Estreias em que aparecem ou como figurantes | “apoios” à ação principal como aos atores de primeiro plano. Nada tenho a objetar quando se efetiva mesmo. Estando ambos num igual plano, melhor. Evidentemente que comporta riscos; há que saber conduzir.

Daqui parto para um segredo secreto. Título de uma coreografia de Ana Figueira/Companhia Instável. Nasceu da vontade de repescar algo já feito há anos, mas com novas linguagens, roupagens e talentos. E com parte da comunidade, na senda de anteriores trabalhos da mesma companhia. Nesta, uma particularidade: com pessoas surdas. Surdez e mudez são características muito diferentes. Não por mal, muitas vezes confundidas. Não ouvir e não emitir sons são situações muito diferentes. Ainda assim erroneamente utilizadas quando se trata de “definir” alguém.

À pessoa surda é imputável o mundo silencioso embora visível. Todavia o silêncio acaba por ser “ruidoso” num invulgar prisma: na visualidade da expressão físico-motora. Dos estados de alma, opiniões como de “falas” necessárias à sua (sobre)vivência no meio da comunidade.

A outros minimamente capazes de ouvir mesmo que com próteses, há o indiscernível do mundo. Sons aparentemente avulsos, irreconhecíveis e confusos. Dos graves, talvez a vibração através do tacto e da pele. Dos agudos, nem sinal. Somente algo como um apito. E isto só a alguns.

Muitos corpos “imperfeitos” são completados com a ajuda da tecnologia; joga com a dissimulação, muitas vezes, para ser mais aceite por eles. Noutros, não é possível. Ela ainda provoca terrores. A tecnologia. Uma dupla exclusão é o maior receio. Que quem do meio consiga suplantar as “imperfeições” e, assim, passar para o outro campo. Que os “isole” ainda mais.

Assim são fonte de decisões. Algumas irremediáveis, a longo prazo. Há somente a fé (ou teimosia, consoante o ponto de vista!) de que com o tempo se “remedeie”. Acaba por ser uma aposta bastante arriscada. Talvez o receio se revele mais tarde fundado. Mas são decisões particulares. Aprofundar aqui não vem ao caso.

Mas os segredos secretos dos espectadores são escritos num bilhete e por si ciosamente guardados. Até que serão pedidos pelos diversos “atores”. Quando, não sabemos. Fica a dúvida para que será tal bilhete.

Adentra-se na imensa black box, com um palco despido, ténues luzes e baloiços. E um ambiente deveras “ensurdecedor”. De silêncio.

A música dá o ritmo. São várias. E espaçadas entre si. Para que sobressaia o silêncio.

O espaço vazio do palco é, em momentos, preenchido com o “ruído visual” dos corpos em crescente agitação, numa tentativa de colmatar esse mesmo vazio silencioso. As “vozes” sem voz; a vontade de falar através dos gestos estrategicamente contidos. Convirá, sim, que não houvesse o risco de cair no “clownesco”. Que é o que menos importa. Daí a importância da condução ao que se é pretendido.

O entrosamento entre os diferentes corpos chega ao ponto de um baile de pares em que se completam. Nos “arrastões” palco fora. No empurrar dos baloiços. Como que uma massa una.

Os baloiços revelam-se “corpos” inesperados. Que interagem, mesmo que inertes, com quem os manipulam. Criam-se sequências insuspeitas. Dolentes, outras agitadas.

As “anormalidades” são completadas por corpos como que próteses dissimuladas, a fim de emular uma completude. Cai-se a máscara e os segredos transbordam corpo fora numa irrequietude vívida. Revela-se a vida e a sua expressão.

O segredo do espectador é, por fim, revelado através do corpo e dos seus movimentos de outrem a seu “dono”. Todavia, não se inibe de ser espreitado por outros estranhos ao nosso lado. Involuntariamente, os segredos dos nossos vizinhos são por nós vislumbrados.

Acaba-se o texto com um segredo secreto. Por vezes, sabe bem o silêncio. E numa deliciosa coreografia com a comunidade. Arriscada? Talvez.

A colaboração tem várias facetas como vários graus de empenhamento. A muitos não interessa o grau mas desde que a haja. Mas quanto mais igualitária entre os diversos atores em palco, maior o interesse. Também a surpresa daí advinda.

Daí que pequenos exercícios como este sejam imprescindíveis.

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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