ROUPA A CORAR NO CORADOIRO

por Alberto Correia | 2014.09.16 - 09:37

VISEU . RURALIDADES

(Textos ilustrativos de um antigo viver rural nas margens de Viseu ilustrados com imagens de Arquivo de Foto Germano)

 

Parece ser hora de meia manhã, que as sombras dos corpos mal começam a alongar-se sobre o Norte e o Verão parece ir adiantado, que as águas da Ribeira são escassas, deixando a descoberto o cascalho do arrasto do Inverno e o fragoedo do açude antigo que represava as águas que, por abonada cale, alimentavam mós de azenha e de moinho.

As mulheres vieram cedo, trouxas armadas com a ponta dos lençóis. Cada uma delas tem o seu pouso costumado, a pedra do lavadoiro colocada na justa medida dos seus braços, a corda do estendal ganhando o melhor do sol.

Se fecharmos os olhos talvez possamos ouvir o compassado bate-que-bate da roupa ensaboada da mulher que ali fica à nossa beira e o vozear distante das outras lavadeiras cujo vulto mal se adivinha, mais acima, tão afadigadas quanto a companheira.

Aquece já ao sol, no coradoiro, o estendal dos lençóis lavados, a roupa de intimidade meio escondida pelo corpo da menina que traz ao colo o irmãozito. A roupa voltará à água, mais tarde, para enxaguar, para dela retirar os restos de sabão e revelará depois, alçada como bandeira no cordame alevantado, a apreciada brancura que haverá de derramar-se sobre mesa de festa, amoroso leito ou meigo colo de mulher, lençol, toalha, camisa, avental de moça, blusa ou bibe de criança. Às vezes a cor vermelha ou âmbar de um monograma bordado.