Reflexos da 1ª Guerra Mundial em Angola: das Campanhas de Pacificação às Revoltas Indígenas

por Anabela Silveira | 2014.10.24 - 17:28

 

Quando, em Agosto de 1914, estalou a Primeira Guerra Mundial, Portugal continuava com as campanhas de pacificação africanas, ou seja, a ocupação do território que lhe coubera na conferência de Berlim. A década de dez do século XX despontou em Angola com sublevações das populações indígenas a norte e a necessidade de submissão dos Ovambos no sul, que dividiam o seu território natural entre a colónia portuguesa e o Sudoeste Africano sobre soberania alemã. Este texto procura abordar o processo de consolidação da soberania portuguesa em Angola coincidente com o período da Grande Guerra.

Em 1898, quando a Inglaterra e a Alemanha, num acordo secreto, previam a partilha entre si das duas maiores colónias portuguesas, a ocupação efectiva desses territórios só na década anterior ganhara algum impulso. Em Angola, na sequência imediata da Conferência de Berlim, entre 1885 e 1887 os portugueses ocuparam formalmente o distrito do Congo, que englobava o enclave de Cabinda e a margem esquerda do rio Zaire então atribuída a Portugal, com a instalação de «residências» e subdelegações entre Santo António do Zaire e Noqui. Com o intuito de controlar o respectivo soberano, em 1888, uma outra residência surgia em São Salvador, a capital do secular e mítico reino do Kongo. Na década seguinte, o domínio português estendia-se para leste. A criação de um posto militar em Maquela do Zombo procurava abrir espaço à penetração portuguesa no território compreendido entre os rios Cuilo e Cuango. Na fachada atlântica do Congo, dominada por povos que controlavam o comércio local, cobrando portagens e multas aos comerciantes europeus, a tomada de Ambrizete em 1887 e o estabelecimento de mais três postos a poucos quilómetros do litoral marcariam o começo do fim desse controlo. Porém, somente a partir de 1908, quando as populações locais passaram a pagar o imposto de cubata, se tornou efectivo o domínio português.

A progressão para leste seria muito mais lenta. Só depois da expedição de Henrique de Carvalho ao coração do reino de Muata Yanvo, entre 1884 e 1887, e de uma segunda expedição três anos depois comandada por Cândido Sarmento, ganharia actualidade a delimitação de fronteiras na zona da Lunda. Os portugueses tiverem de esperar por 1905 para, seguindo pelo norte, penetrarem além do rio Cuango e instalaram o posto de Caungula, seguido, dois anos mais tarde, do de Camaxilo, 140 km a oriente daquele rio. Com Paiva Couceiro, governador geral de Angola no estertor da Monarquia, a ocupação do norte de Angola sofreu um novo impulso. Os portugueses progrediram até Luchiro, a 160 km do Cassai. Dominando o caminho tradicional dos sertanejos, deram uma maior segurança aos negociantes europeus que assim se furtavam à passagem por Cassange na posse dos aguerridos imbangalas. Estes, fragilizados já, seriam vencidos numa rápida campanha em 1911, pouco tempo depois do regime político ter mudado em Portugal. No ano seguinte, as forças portuguesas chegam finalmente às margens do rio Cassai. Se a fragilidade do domínio português naquele vasto território das Lundas era notória, com algumas dezenas de postos mal guarnecidos, nas terras de Moxico, mais a sul, era quase inexistente a sua presença.

Em 1886, sob o comando de Artur de Paiva, foi desencadeada a primeira acção militar na área compreendida entre os cursos superiores dos rios Cunene e Cubango. Depois da instalação dos fortes Princesa Amélia e Maria Pia, o papel evangelizador das populações foi entregue às missões espiritanas que ali se acomodaram. Por seu turno, no planalto da Huíla, tinham-se instalado, em inícios da década de oitenta, dois núcleos de população branca: um bóer e outro madeirense. Os Bóeres, que, em 1879, entraram em território angolano pelo Cunene, progredindo para norte, fixaram-se na Humpata em 1881 e aí fundaram a colónia de S. Januário. Os colonos madeirenses chegaram ao planalto em duas levas, 1883 e 1885, num total de 558 pessoas. Servindo como tropas irregulares, os Bóeres colaboraram com as forças militares coloniais na repressão dos movimentos de resistência da população local – os Nhanecas – revoltada contra a apropriação das suas melhores terras e do seu gado pelos colonos brancos, bem como pela interferência crescente no seu modo de vida. Em toda a região a oeste do rio Cunene – Huila, Gambos e Humbe – foi também custosa a afirmação do domínio português, de que é notório o adiamento do lançamento do imposto de cubata, só consubstanciado em 1908 pela força das armas.

Porém, o principal esforço militar fez-se mais a sul, na zona de fronteira com o Sudoeste Africano de soberania alemã. Rompia já o século XX, quando os portugueses iniciavam a tentativa da ocupação de terras de além-Cunene, no território angolano do povo Ovambo, constituído pelos Cuamatos e pelos Cuanhamas. Por seu turno, os alemães tinha já fundado missões protestantes em Ondjiva, Mupata e Mamacunde, “principiando a fazer, por meio da catequese, uma verdadeira campanha contra o nosso domínio em toda a região do Ovampo”, como escreve nas suas memórias o Major Artur de Morais, à época administrador e comandante militar do Concelho do Humbe. Pelo contrário, a primeira missão católica portuguesa, fundada em 1884, foi pouco depois destruída, só vindo a reinstalar-se em 1900, quando já existiam as quatro missões protestantes alemãs. Os Ovambos que, em finais de oitocentos, se dedicavam à criação de gado e ao comércio a longa distância, tinham um acesso facilitado à aquisição de armamento, base do seu temido e temível poderio militar. Estes, em especial os Cuanhamas, para além de não aceitarem qualquer tipo de intromissão nos seus domínios, raziavam as populações que se encontravam já sob a soberania portuguesa, como era o caso dos Ganguelas. Em 1904, o genocídio contra os Hereros do Sudoeste Africano pelas tropas alemãs, levou o governo de Lisboa a temer que as acções semelhantes fossem desencadeadas mais a norte, já em território angolano, vazio de qualquer autoridade colonial. Assim, a primeira grande expedição militar além-Cunene teve lugar naquele ano, com o objectivo preciso da ocupação militar do Cuamato e do Cuanhama. A força portuguesa, que reunia mais de 1000 homens dos quais 500 europeus, o que era raro numa campanha colonial, fundamentalmente constituída por «tropas indígenas», foi desbaratada no Vale de Pembe, na manhã do dia 25 de Setembro. Em reacção, formou-se na metrópole uma outra expedição bem mais numerosa e melhor equipada a que se juntaram algumas centenas de soldados africanos. De uma primeira incursão, que teve lugar em 1906, resultou a ocupação de Mulondo, no Cuamato, a destruição da embala e o aniquilamento do soba e a edificação do Forte Roçadas, na margem esquerda do rio Cunene. No ano seguinte, nova expedição foi levada a cabo e acabou por dominar, pela força e pelo sangue, o território dos Cuamatos. Ao Forte Roçadas foram acrescentados mais outros quatro. Contudo, o poder Cuanhama continuava intacto. João de Almeida, governador do distrito de Huila entre 1907 e 1910, ao invés do afrontamento militar, procurou seguir uma política de pacificação, entrando em negociações com Nande, o soberano dos Cuanhamas. Pressionado pelos seus lengas para a expulsão de todos os brancos, Nande preferiu a contemporização, ou seja, evitou os conflitos directos com qualquer das duas potências coloniais. O mesmo não aconteceria com o seu sucessor, o jovem rei Mandume, que subiu ao trono em 1911. Ferozmente antiportuguês, despótico, e, “vagamente matizado na cultura alemã”, para utilizar as palavras de Pélissier, Mandume, protagonizando um dos mais aguerridos chefes indígenas contra o poder colonial português nos inícios do século XX, simbolizava o espírito de resistência do povo Ovambo à dominação europeia. Como os alemães o deixassem em paz, contentando-se com as missões protestantes, a senha de Mandume virou-se contra Portugal, que considerava o «verdadeiro colonizador». Incursões até 300 km para norte permitiam-lhe a captura de escravos e o roubo de gado que eram depois trocados por armas e munições. Nas vésperas da eclosão da Primeira Guerra Mundial, Mandume disporia, segundo René Pélissier, de 35 000 a 40 000 homens armados a norte e a sul da fronteira que limitava Angola do Sudoeste Africano.

A conjuntura colonial da segunda metade dos anos noventa do século XIX, concretamente os projectos imperiais ingleses e alemães, e a difícil conjuntura financeira do Estado Português permitem explicar o acordo secreto estabelecido em 1898 entre a Inglaterra e a Alemanha quanto à partilha das duas maiores colónias portuguesas. A Inglaterra interessava Moçambique, concretamente os postos de Lourenço Marques e da Beira. A Alemanha, potência ocupante do Sudoeste Africano, com um partido colonial a ganhar peso e expressão, não escondia seu particular interesse pelo domínio de Angola. Porém, para que tal desejo se concretizasse era preciso que Portugal, que entrara em bancarrota em 1892, recorresse ao empréstimo externo que tanto precisava para regularizar as suas finanças públicas, dando como garantia o rendimento das alfândegas coloniais. A 30 de Agosto de 1898, em Londres, Balfour por Inglaterra e Hatzefeld pela Alemanha assinavam duas convenções, uma delas secreta, bem como uma nota igualmente secreta que, tendo por base a questão do empréstimo a conceder a Portugal, diziam respeito à partilha das colónias portuguesas. Deste modo, a concessão do empréstimo teria como garantia as alfândegas coloniais, sendo que as do sul de Moçambique competiriam à Inglaterra, ficando a Alemanha com o sul de Angola, o norte de Moçambique e Timor. Em caso de incumprimento, as zonas alfandegárias passariam de imediato para a zona de influência das duas potências imperiais. Apesar do secretismo, os ministros de Portugal em Londres e Berlim tiveram conhecimento de alguns dos detalhes do acordo, concretamente da partilha de esferas de influências, pelo que o primeiro ministro português, José Luciano de Castro, alegando perda de soberania, procurou financiamento junto de outras instâncias, que não a praça de Londres.

Porém, a rivalidade crescente entre a Inglaterra e a Alemanha, com reflexo directo na cena política mundial, levaram à reabertura do dossiê colonial, materializado no acordo de 1913. Para alimentar o projecto da chamada Mittelafrika, a Alemanha pretendia o Congo Belga e as colónias Portuguesas. Como os mediadores supunham que a discussão sobre o Congo belga teria de contar com a participação da França, ingleses e alemães viraram-se mais uma vez para as colónias portuguesas, tanto mais que Portugal atravessava uma conjuntura pós-revolucionária decorrente da instalação da República, que o deixara isolado durante quase um ano e numa situação pouco favorável no concerto das nações europeias. Com o desagrado dos governantes britânicos pela situação nas colónias portuguesas e a violenta campanha que a imprensa inglesa desencadeou, em 1912, contra o sistema de contratação da mão-de-obra indígena em Angola, tendo um dos jornais defendido abertamente a entrega de Angola à Alemanha, foi fácil o reatamento das negociações que tiveram por base o tratado de 1898. O novo acordo, para além de estabelecer uma nova partilha territorial, alargava a legitimidade da intervenção. Assim, Moçambique, com exclusão da região do Niassa, ficava dentro da zona de influência inglesa, enquanto a Alemanha ocuparia inteiramente Angola incluindo o enclave de Cabinda. Politicamente era alargada a base de legitimidade de intervenção, que partia de um critério muito vago: a defesa da vida e de bens nacionais ingleses e alemães nas colónias portuguesas. Portugal ficava assim com uma soberania bem limitada. O texto definitivo seria rubricado a 13 de Outubro de 1913.

Mas enquanto a Europa se preparava para a Guerra e as duas potências rivais renegociavam a partilha das maiores colónias portuguesas, Eugénio Ribeiro de Almeida, aprisionava um dos sobas do Evale, em território Cuanhama, provocando uma revolta indígena que estalou a 15 de Junho de 1912. Cinco dias depois, 2 000 guerreiros cuanhamas, sem levarem a melhor, investiam contra o forte onde se entrincheiravam os cerca de 100 homens de Ribeiro de Almeida. Mandume, percebendo da dificuldade do ataque aos fortes portugueses, continuou com as razias contra o Evale, o Humbe e mesmos o Cuamato, onde a presença portuguesa se ia consolidando. E se a eclosão da Primeira Guerra Mundial tornou letra morta o acordo entre a Inglaterra e a Alemanha, esta última via na neutralidade de Portugal um factor de aproximação. Deste modo, as autoridades do Sudoeste Africano viraram-se para Angola, a única possibilidade para escaparem ao bloqueio de que eram vítimas. Enviaram, então, à fronteira um administrador colonial e alguns oficiais para iniciarem conversações com as autoridades portuguesas do Humbe e esperarem um comboio de reabastecimento proveniente da Huila. Contudo, na sequência de um «trágico mal-entendido», assim o define Pélissier, o administrador alemão e dois dos seus tenentes foram abatidos no posto de Naulila a 19 de Outubro de 1914. Os sobreviventes retiram reclamando vingança. E ela chegava em finais de Outubro. Os dirigentes republicanos, que desde Agosto pressentiam o perigo nos seus territórios coloniais, nomeadamente naqueles que faziam fronteira com as colónias alemãs, prepararam e mandaram embarcar uma forte expedição metropolitana encarregada de bloquear a fronteira do Sul de Angola e terminar a ocupação meridional, pacificando os Cuanhamas. Apesar da neutralidade, Portugal estava de facto em guerra.

A partir de 31 de Outubro de 1914 começaram as represálias alemãs com um ataque surpresa ao posto de Cuangar e o massacre da maior parte da guarnição. De igual modo foram tomados e arrasados mais quatro postos no Cubango. Era preciso agir contra o invasor alemão. O encontro entre as tropas portuguesas, comandadas por Alves Roçadas, e os soldados alemães que, em menor número, eram capitaneadas pelo comandante Franke, teve lugar em Naulila a 18 de Dezembro de 1914, saldando-se numa derrota para o exército nacional. No rescaldo da batalha, enquanto o general português dava ordem aos sobreviventes para evacuarem Naulila, fazendo explodir o Forte Roçadas com todos os explosivos, munições e armamento, para que este não caísse em mãos alemãs, Franke, com os seus feridos e alguns prisioneiros, regressou ao Sudoeste Africano, depois de ter mandado enforcar «sete indígenas portugueses». Na debandada portuguesa foram abandonados todos os postos além-Cunene e evacuada a fortaleza do Humbe. Em suma, num espaço de uma semana, «a colonização dos quartéis», para utilizar uma outra expressão de Pélissier, deixou de existir e o território Ovambo voltou à situação de revolta. Contudo, a dura situação de sobrevivência dos Ovambos que, em virtude da seca persistente, se debatiam com uma fome atroz, facilitaria o regresso dos portugueses no ano seguinte.

O desastre Naulila não podia cair no esquecimento. Quando, em Março de 1915, Pereira d’Eça, o novo governador-geral de Angola, desembarcava em Luanda, vingar Naulila apresentava-se como o principal objectivo. Para tal, foi enviado para Angola um contingente metropolitano com 7100 soldados e marinheiros, reforçando as tropas que tinham sobrevivido. Deste modo, o exército de Pereira d’Eça preparava-se para recuperar o Humbe e todos os postos abandonados em Dezembro de 1914, bem como ocupar o Cuanhama. Porém, a 12 de Julho, os portugueses tomaram conhecimento da rendição das tropas alemãs do Sudoeste Africano às forças vitoriosas da África do Sul. Afastado o perigo germânico, restava-lhe Mandume. E é contra os cuanhamas que o general avançaria. Para evitar a concentração dos homens de Mandume num único ponto, Pereira d’Eça dividiu as suas forças em três frentes, comandando pessoalmente o destacamento «Cuanhama», que se irá encontrar com os guerreiros africanos junto das cacimbas de Môngua, fragilmente defendidas. Apossando-se destas a 19 de Agosto, esperava a investida de Mandume programada para um dia seguinte. Alertado por um desertor cuanhama, Pereira d’Eça teve tempo de enviar mensagens aos dois outros destacamentos para se acercarem do local da batalha. O combate durou 10h. Mandume derrotado fugiu para a sua capital, Ondjiva para, a partir de 22 de Agosto, se refugiar na parte sul do reino, já em território do Sudoeste Africano. Pereira d’Eça, ao contrário de Alves Roçadas, decidiu ocupar a capital cuanhama, não encontrando aí resistência significativa. A 4 de Setembro de 1915 aceitava a rendição dos Cuanhamas da parte norte da fronteira. Porém a paz não regressou logo ao sul angolano. Mandume continuou por quase dois anos a fazer incursões contra os seus súbditos que aceitaram a soberania portuguesa, chegando a matar numa emboscada, em Outubro do ano seguinte, um oficial e dezasseis soldados portugueses. A 6 de Fevereiro de 1917, quatro balas sul-africanas porão fim à vida de Mandume. Parecia ter terminado a pacificação do território Ovambo.

Efectivamente, a ordem colonial instalava-se nas zonas pacificadas através da cobrança do imposto de cubata, do recrutamento forçado de mão-de-obra, da perturbação dos circuitos comerciais indígenas, da perda de prestígio e poder por parte das autoridades tradicionais, o que dava azo a insurreições como a dos Bacongos que, protagonizada por Álvaro Buta, assolou o noroeste de Angola entre 1913 e 1915. Verdadeiramente surpreendidas com o grau de agressividade demonstrado, as autoridades coloniais relacionaram os ataques perpetrados com apoios estrangeiros, nomeadamente de missionários baptistas ingleses recém-instalados no norte da colónia. Em Outubro de 1913, um angariador de mão-de-obra para as roças de S. Tomé chegou a S. Salvador preparando-se para o recrutamento de 1500 trabalhadores, num quadro a que os bacongos não estavam habituados, uma vez essa função fora atribuída aos sobas. Estes, dentre os quais Álvaro Buta, comprometeram-se perante o administrador do posto de Maquela do Zombo ao pagamento do imposto de cubata contra o não envio dos seus homens para as ilhas. O administrador não só rejeitou a proposta dos sobas, como destitui Álvaro Buta do cargo. Um mês depois, novo recrutamento forçado para S. Tomé provocou mais rebeliões e ataques às posições portuguesas. Meio ano depois, em Março de 1914, Álvaro Buta, que era católico, com o apoio dos missionários protestantes ingleses, chefiava uma revolta local contra o rei do Kongo a quem acusava de lacaio dos portugueses, transformando um conflito localizado em S. Salvador numa guerra de todos os Bacongos. O embargo à compra de armas, e fundamentalmente à pólvora, imposto por Norton de Matos, então o governador-geral de Angola, o papel conciliador dos missionários de ambas as confissões religiosas aliado à acção musculada das forças coloniais e às condições oferecidas aos chefes dos insurgentes para o fim das hostilidades, levaram à pacificação de uma região que servirá de palco, cerca de cinquenta anos depois, aos massacres levados a cabo pela UPA, por sinal liderada pelo neto de um dos actores da revolta de 1913. Falo de Holden Roberto. E foi a necessidade do recrutamento de carregadores para a campanha contra os Ovambos do sul de Angola, no rescaldo do desastre de Naulila, que levou à criação de condições para a cessação das refregas. Contudo, os portugueses precisarão ainda de mais três anos para imporem a sua autoridade em todo o distrito do Congo.

Não se podendo classificar a «Guerra de Buta» como um epifenómeno da Primeira Guerra Mundial, antes um movimento de resistência ao poder colonial, certo é que o afluxo de tropas a Angola permitiram levar a cabo as denominadas guerras de pacificação, impondo, quase em definitivo, a soberania portuguesa naquela colónia. A cobrança de impostos, particularmente os abusos por parte dos comerciantes a quem era acometida a função, levou à insurreição no sobado de Bunda Bando, no leste angolano, arrastando outros regulados de Quiocos, Luchazes e Luimbes. Para os insurgentes havia que liquidar o branco e o assimilado, exemplos acabados do mal absoluto. Foi o que aconteceu em Setembro de 1916 perto de Luati. Em Outubro uma coluna de soldados portugueses e auxiliares africanos, depois de violentos combates, pôs fim à revolta. Porém, em Novembro, a rebelião estendia-se para norte, oeste e sudoeste até aos limites do Bié. Durante seis meses, aquela região viveu a ferro e fogo. A falta pólvora e o papel da tropa comandada pelo major Lucínio Ribeiro puseram não só fim à sedição, como provocaram uma forte emigração de Luchazes e de Bundas para a Rodésia do Norte.

A 30 quilómetros a sul de Luanda, na região de Amboim/Gabela, era feminina e infantil a mão-de-obra disponível, já que a maior parte dos homens tinham partido para o trabalho por contrato em S. Tomé. A prática clandestina do tráfico de escravos, a espoliação fundiária e o imposto de cubata apresentavam-se, mais uma vez, como o rastilho para outra insurreição, iniciada esta a 27 de Abril de 1917 com o assassinato de um comerciante. Seguiu-se o saque das fazendas e a liquidação dos seus donos e capatazes. Em início de Maio, 2 000 insurgentes desceram ao litoral atacando povoações e eliminando colonos. Os portugueses sobreviventes entrincheiram-se nos fortins da Gabela e do Uco. A ajuda pedida a Luanda e a Benguela teimava em não chegar. Viveram-se dias comparáveis aos de Março de 1961. Só em Junho é que, depois de sete horas de combate num desfiladeiro, uma pequena coluna conseguia chegar à Gabela. A 18 daquele mês, durante cinco horas, batalhou-se no Uco. Se, em final de Junho era declarado o estado de sítio na região, outra revolta rebentava a norte de Amboim. As operações de uma pacificação bem musculada seriam retomadas em Setembro, com os portugueses a desencadear uma «velha guerra étnica», na definição de Pélissier, recorrendo a gentes do Huambo, Bailundo e Bié.

À semelhança das outras regiões angolanas, também nos Dembos a cobrança de impostos levaria, a partir de 1913, a escaramuças frequentes e a actos de rebelião, mais intensos a partir de Outubro de 1918, que deram azo a uma resposta robusta por parte dos militares comandados por Ribeiro de Almeida. Em Abril de 1919, os Dembos estavam submetidos.

Pacificado o território e aparentemente sufocada a resistência indígena, será preciso esperar cerca de quarenta anos, já em plena fase das descolonizações saídas da Segunda Guerra Mundial, para Angola voltar à rebelião. Só que, desta vez, sob a forma de guerra de libertação que demorou 13 longos anos até à Revolução de Abril de 1974, seguido do processo de independência ultimado a 11 de Novembro do ano seguinte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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