“Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor…”

por Amélia Santos | 2014.06.11 - 14:57

Desde que, pela primeira vez, li Fernando Pessoa senti a “Mensagem” dele, como uma mensagem individual, escrita para cada um de nós, e, ainda hoje, recorro a ele para encontrar um paliativo para algum desabusado sofrimento e desassossego. Também recorro, evidentemente, a alguns amigos especiais e a alguns que têm o dom da palavra e de verbalizar aquilo que nos assalta a alma…

No seu último livro, Restaurante Canibal, o meu querido professor Gabriel Magalhães diz, por meio de uma personagem, que “quando nos acontece algo mau, nós massacramo-nos a nós mesmos: fazemos essa coisa negativa voltar a acontecer infinitamente no nosso interior.” É, efetivamente, isto que eu sinto acontecer-me um sem número de vezes. É como se quiséssemos ampliar os castigos que a vida nos impõe, uma espécie de agudização da dor e do sofrimento. Isto é um pouco irracional, mas reveste-se de uma grande dose de «autoinjustiça» que exercemos qual juízes das emoções… É quase uma necessidade de cair no poço dos tormentos, para depois tentar sair, voltar à tona e tentar (sobre)viver de novo… Talvez este mergulho na escuridão seja o mote para a reação que, por norma, vem depois – ir à luta e não desistir.

Num ano perfeitamente insólito, vítima de enganos injustos, fui arremessada a uma vida profissional (e pessoal) completamente nova e, para mim, incompreensível…Uma nova cidade. Uma escola bem diferente…

Hoje, praticamente a terminar o sofrido ano letivo, escrevo sobre este tema, na perspetiva mais otimista possível, sob o signo de que nada acontecerá por acaso e que tudo terá algum sentido… Reagir às sucessivas adversidades, constituiu um desafio. Não se pode perder tempo a pedir explicações ao destino, porque no meio do muito mau surge também o bom. A par de colegas pouco solidários e egoístas, encontramos os que desmentem que haja pessoas assim- os que nos acarinham, os que nos fazem sentir melhor pessoas (a Martinha, a Filipa, o Nelson…). A par de alunos que nos desrespeitam despudorada e descomplexadamente, aparecem outros que irradiam ternura e que agradecem terem-nos como docentes – não posso esquecer as «minhas» Carlita e Cátia… E tudo isto quase me leva a dizer que “há males que vêm por bem”! O repto será conseguir transformar as nossas fraquezas em pequenos triunfos e concentrar nestes as nossas energias, tentando que sejam as coisas boas que nos vão acontecendo, a multiplicar-se infinitamente no nosso interior…e a ajudar-nos a ultrapassar e a aceitar os «bojadores» da vida com mais serenidade…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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