que o mundo é uma lágrima rara…

por Isabel Mendes Ferreira | 2013.12.27 - 12:51

“que o mundo é uma lágrima rara sabemos bem assim como a carne em sangue exposta e suspensa de um fio de vertentes frágeis. a terra dispara em feridas o rumor da peste avança e resta-nos a governança do inóspito e do drama. o êxito é o êxodo. o enxame o caudal o rebanho a abastança do medo e a descendência de um cabaz de fruta comida pelas aves de rapina que engordam e nos emagrecem. devorante caminho de tesouras. onde nada escapa. onde nada sobra. onde nada impele à mão fraterna. onde tudo é esquema e orgulho e ímpeto e canduras imperfeitas. que o mundo é uma resma de corvos indeliciosos já sabemos. e a barbárie senta-se à grande mesa esférica do cinismo aplaudido. ___________________e morre-se. devagar. enquanto enterramos os nossos vivos. raros ainda os que da ilha em flor se dizem filhos e amantes. que as lágrimas são o espelho de uma face invisivelmente fronteira. perto tão perto do silêncio para onde vou. com este país amarrado aos pés de uma renúncia onde não somos mais que deuses envenenados tristes caídos.”

Isabel Mendes Ferreira escritora, poetisa e pintora, natural do Montijo, editou o seu primeiro livro de poesia em 1982: "Sobre as Ervas um corpo de Junho". No ano seguinte edita na Bertrand "Um Nocturno de Bach" e "Um Relâmpago no Olhar", segue-se "Um Corpo (sub) Exposto", na Imprensa Nacional, sendo 1984 o ano de edição do livro de contos "A Mais Loura de Lisboa", na Difel. Em 1990 volta à poesia com "A Pele na Presença Ponto Final", na Átrium, "Cantochão" e "Vermelho Doce", na Produce. Regressa em 2010 com "As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar", na Babel e entra em duas antologias. Possui colaboração dispersa por várias publicações e ainda são seus os textos do livro "Imagens", de Dina Aguiar, as ilustrações do "À Mesa do Amor", de Joaquim Pessoa e os textos do "a. des.escrever esta língua que me é mar", em co-autoria com José Rodrigues, editado este ano pela Câmara Municipal de Cascais.

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