Quando a vida faz das suas

por Nuno Rebocho | 2015.08.09 - 14:16

 

Duas notícias recentes incomodaram o meu “exílio” de Cabo Verde – as dos falecimentos de dois grandes poetas da língua portuguesa, Ana Haterly e Corsino Fortes. Nunca tive relacionamento por aí além com a autora de “Interfaces do olhar”, com ela não me lembro de alguma vez ter estado em Portugal, mas tinha respeito pela sua obra (fundamental para a nossa literatura) e fora uma das minhas referências desde os anos 60, desde o aparecimento da “Poesia Experimental”. Muitas vezes o referi nos meus encontros com esse grande amigo E. M. de Melo e Castro, antes da sua partida para o Brasil, trabalhava eu na Antena 2, e algumas vezes tentei arrasta-la para os Encontros de Poetas que, com o Luís Machado, organizei na Figueira da Foz. Velhos tempos.

Com o poeta de “Pão & fonema”, de quem era amigo, tive ainda oportunidade de o homenagear no último Dia Mundial da Poesia, em Cidade Velha, atual Capital Cabo-verdiana da Cultura e Património Mundial. Foi a maior concentração de poetas por metro quadrado jamais havida naquele arquipélago, à qual já não pôde assistir devido ao inexorável adiantado da sua terrível doença. Ainda tentei levá-lo à Bienal das Culturas Lusófonas em Odivelas, em Maio último, mas de tal fui demovido por seu filho, Ildo Fortes.

Para Cidade Velha foi uma honra. Já três poetas são seus Cidadãos Honorários: Osório de Andrade, Jorge Carlos Fonseca (Presidente da República de Cabo Verde) e, a título póstumo, o falecido Mário da Fonseca, seu irmão. E a homenagem feita foi a primeira de muitas que se engatilharam para celebrar o autor de “A cabeça calva de Deus”.

Cada um destes falecimentos à sua maneira me marcou profundamente. Juntam-se ao longo role dos vates que se despediram do nosso convívio direto e com quem tive oportunidade de com eles ter particular relacionamento, como foram os casos de Natália Correia, Dórdio Guimarães, Eugénio de Andrade e tantos outros.

Foi a vida (e não a morte) que fez das suas. Lamentavelmente.