Pronto: ponto.

por Rui Macário | 2014.12.10 - 19:16

EUDAIMONIA

 

 

Escrever crónicas ou artigos, sobretudo os de opinião, comportam sempre um ponto final que corresponde à perspectiva e vontade de quem escreve. “Isto digo eu”. Ponto. Assim se devem ler os textos em causa, ou assim o entendo.

Recentemente, uma cidade assumiu ser um ponto final na conversa. O Porto reformulou o seu logo e tornou-se “Porto.”. Ponto! Aprecie-se ou não a linguagem e o grafismo, não deixa margem a qualquer outra visão que não a de uma cidade que se assume ponto de partida e ponto de chegada em simultâneo, ponto de encontro e ponto e vírgula para qualquer história que se vá escrevendo. É o Porto, ponto.

Vem à colação a Invicta e seu logo porque em conversa casual me comparavam os méritos do Porto e de Viseu e das indústrias (culturais e criativas, a cultura, enfim) do Porto e de Viseu e das gentes do Porto e de Viseu. Sempre defendi que a Viseu interessava ser o caminho entre o Porto e Salamanca e que era do Porto que poderíamos chegar ao novo mundo das gentes que viajam. Vivi no Porto, trabalhei no Porto, estudei no Porto. Gosto do Porto, ponto; gosto igualmente de Viseu onde fui criado, onde vivo e onde está a minha família, ponto. Mas convenhamos que por enquanto o Porto é o Porto e Viseu é uma cidade do interior que não tem meios para atrair cinco a seis milhões de visitantes estrangeiros por ano. Nem nunca terá se não tiver aeroporto, estação ferroviária e mantiver portagens a cada dois passos na única estrada digna desse nome que nos serve (a nós viseenses).

Comparar as dinâmicas e as receitas que uma e outra cidade podem gerar é, no mínimo alucinar. Bem-intencionado quem o faz, mas alucina ainda assim. Aparentando o panegírico que já fiz noutras ocasiões, parece-me que se vai fazendo bem quando se escolhe o Porto como cidade a conquistar e com a qual trabalhar directamente. O “interior beirão” disso necessita, é uma questão de sobrevivência numa primeira fase, e de desenvolvimento a seguir… Coimbra e Aveiro, são por seu turno “gatunas” do mesmo sentir (menos no caso de Aveiro e Coimbra com outro encanto, apesar de tudo), já que neste espaço NUT que é o Centro é com elas que Viseu disputa pontos e sedes. Podemos não ofender as ditas edilidades mas cooperar só no fim das portagens que de resto cada quererá o seu quinhão. E isso é natural, ponto.

De fininho porém, a Guarda que é um desassossego e a Covilhã que é universitária, vão surgindo em conjunto com uma outra dimensão que aparenta ser a de juntas contra o resto antes que desapareçam e, vão conquistando os tais pontos. Um risco a leste?

Um ponto assente é que há coisas bem-feitas e coisas que se melhoram com o tempo. Outras, mal e entranhadas. É assim em todo o lado, diremos. Os méritos “deste” interior não vão lá sozinhos mas deve encontrar-se uma dinâmica própria e autónoma para que tenha uma voz sua e sobretudo não dependa de terceiros, não vá um dia acabar quem forme ou financie esses “terceiros”. Isto é um ponto a propósito da ACERT e da sua Viagem do Elefante; do Cine Clube de Viseu e da sua menção honrosa no Cinanima; e de todos esses outros menos institucionais que são notórios e reconhecidos pelo seu trabalho. Ou seja, há com o que trabalhar e há o que é já reconhecido, onde será reconhecido é uma questão de escolha, oportunidade e sorte. E se outros o poderão ser, é uma questão de tempo e pontos bem definidos pelos quais orientar o percurso.

Isto penso e digo eu.

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

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