Portugal como Memória na Poesia de Manuel Alegre

por Ana Albuquerque | 2014.04.14 - 14:22

“(…) um grupo ou uma nação só são sujeito como metáfora do indivíduo que simbolicamente por analogia constituem. Sujeito, quer dizer, memória, reatualização incessante do que fomos ontem em função do que somos hoje ou queremos ser amanhã.”

Eduardo Lourenço, Nós e a Europa ou as Duas Razões, 1994

A poesia de Manuel Alegre não pode ser lida apenas num contexto restrito de literatura de resistência, rótulo que o tem vindo a acompanhar desde a sua primeira publicação, em 1965, Praça da Canção.

De um modo geral, a sua extensa obra poética, na qual englobamos a narrativa, dada a indestrinçável unidade de toda a sua criação literária, estabelece claras relações com o Grande Texto Literário Português e com o Grande Texto da História de Portugal, assumindo-se, desde sempre, este autor, como um poeta da Memória Lusa.

Para Manuel Alegre, o poeta é o porta-voz, o guardião da memória coletiva de um povo, na esteira do pensamento de T. S. Elliot para quem o grande poeta deve restaurar a tradição esquecida.

De facto, o nosso poeta organiza a sua paideuma indo beber à História de Portugal e à sua Literatura um grande número de acontecimentos e vozes com quem entra frequentemente em diálogo: “Em cada poema estou mas não sozinho. /Antes de mim a língua e os que primeiro/ cantaram a longa história do poema.”

Ecos de poetas ancestrais, desde os primeiros cantares de amigo, até aos cronistas Fernão Lopes e Rui de Pina, de Bernardim Ribeiro a Camões, de Pascoaes a Camilo Pessanha, de Fernando Pessoa a Miguel Torga e Sophia de Mello Breyner e tantos outros, sucedem-se.

As figuras históricas iluminam os seus textos: Viriato, D. Afonso Henriques, D. Dinis, o Mestre de Avis, D. Pedro, O Infante, D. João II, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, D. Manuel I, etc.

Clara Rocha, notável estudiosa e ensaísta, afirma que para Manuel Alegre o tempo dos antigos é um tempo sagrado e exemplar. Também Eduardo Lourenço, o grande psicólogo do destino português, esclarece que a poesia de Alegre se revela como um autêntico exercício de arqueologia. Trata-se de uma poesia genealógica, feita da revisitação da memória portuguesa.

Esclareçamos, parece-nos pertinente fazê-lo, que na sua poesia não encontramos o nacionalismo como ideologia, mas um patriotismo natural, entendido como um fenómeno cultural coletivo, na senda daquilo que para Anthony Smith define a identidade nacional, sinónimo de personalidade coletiva, de cultura única, distinta das outras e que nos pode ajudar a saber quem somos na heterogeneidade do mundo contemporâneo.

O conceito de nação para o poeta não assenta nas conceções de Fichte sobre a pureza de uma raça e a supremacia de um território, mas nas ideias que desde Renan nos iluminam e iluminam o pensamento das democracias. Uma nação é uma consciência moral, uma grande cadeia de solidariedade que nos une no passado e no presente, é um ato voluntário e consciente que nos leva a querer olhar juntos o futuro.

Manuel Alegre distancia-se inequivocamente de uma visão providencialista de pátria. Por isso, assume-se como um poeta lusíada que escava o passado e traz para o presente aquilo que são as raízes do sentido de ser Português. Através da memória do país, procura a nossa identidade, muitas vezes fragilizada pelas circunstâncias da História.

A memória que perpassa na poesia de Alegre, constrói-se pondo em evidência o que nos é peculiar, não esquecendo nunca o papel que tivemos na construção de uma cultura universal, e não só europeia, contribuindo com a nossa aventura solar para a desmistificação dos medos dos mares tenebrosos.

O canto do poeta Manuel Alegre foi sempre a voz de um país, Portugal, que quer viver de pé:

 

Porque tudo começa onde começas

porque tudo se chama o nome do teu nome

porque tudo se escreve com a tua história.

 

Porque tu estás em tudo o que circula

e tudo tem o preço do teu sangue.

Porque tu moves com teus ombros as cidades

tocaste a pedra e a pedra fez-se casa

tocaste o bosque e o bosque fez-se barco.

 

Porque um país tem o tamanho dos seus homens

e o meu país tem o teu tamanho e nada mais.

Porque nada é tão grande como as tuas mãos:

oitenta e nove mil quilómetros quadrados.

O céu e o mar. E todos os navios.

E todos os poemas.