Philomena

por Graça Canto Moniz | 2014.02.12 - 13:17

Philomena é uma obra extraordinária. Vamos por partes: tem uma história extraordinária, sobre uma mulher extraordinária, representada por uma actriz extraordinária.  Podia ficar por aqui, mas não faria jus à obra. Assim, peço perdão, mas Judi Dench não é uma simplória actriz. Judi Dench é uma Lady, um título que, certamente, seria atribuído a Eusébio se António José Seguro fosse o nosso monarca. Claro que adaptado ao género, com certeza, seria Sir e não Lady. Mas, tem razão caro leitor, falta-lhes o pedigree. A quem? Bem, fiquemos por aqui… Por falar em Eusébio, ainda alguém se lembra dele? Ou onde estava no dia do Portugal – Coreia? A euforia foi só mesmo no momento de enterrar Sir Eusébio? Falemos de coisas sérias: este texto é sobre Philomena.
Stuart Hall, jamaicano intelectual infiltrado entre os intelectuais da esquerda britânica, fosse a nossa esquerda como a de sua majestade e Seguro… Volto a Stuart Hall, autor do termo “Thatcherism” que perguntava a um jornalista da New Statesman, “what’s happened to Englishness?” Caro Stuart, encontrei-a. Englishness, britishness, “potato, patato”, nacionalismos à parte: Philomena é uma amostra cultural desse conceito largamente vago. Apesar do toque Irlandês de Philomena, Coogan é um típico “bife”, na ironia e no tom mordaz.
É neste tipo de filmes, baseados em episódios reais, que o cinema de terras de Sua Majestade, qual Sir Eusébio, dá dez a zero a Hollywood. Philomena, realizado por Stephen Frears (Ligações Perigosas (1988), Alta Fidelidade (2000) e A Rainha (2006)), conta a história de Philomena Lee, uma sobrevivente de um asilo católico (haverá ideia mais vitoriana?), gerido pelas Irmãs de Madalena que, para punir jovens mães solteiras “pecadoras”, vendiam os seus rebentos a Americanos. O abuso físico e emocional sádico que aquelas meninas sofreram, como vítimas de retidão moral imposta, é retratado no filme dirigido por Peter Mullan, The Magdalene Sisters (2002). Aconselho. Philomena Lee é uma dessas vítimas que passou 50 anos à procura do filho e agora é ajudada por um jornalista (Steve Coogan) que procura desesperadamente uma “história de interesse humano” (enorme cacetada na voracidade dos media).
Mas Philomena não é uma história sobre vingança, nada disso, até porque o tema central do filme é o perdão. A serenidade da fé de Philomena Lee, apesar do tratamento inumano das ditas Madalenas, e a sua capacidade de perdoar (perante a incapacidade de Martin) é a lição de moralidade que Frears nos ensina. Do início ao fim do filme há esta dicotomia, há um contraste agridoce entre o espírito das duas personagens, uma interacção entre os dois que é o músculo da narrativa e que torna as conversas entre ambos verdadeiramente engraçadas e pitorescas: Martin (Coogan) é um cínico, um ressentido, um snob, um ateu devoto; Philomena é uma senhora humilde, inocente, resignada, com uma postura idílica da vida e profundamente Católica. Água vs azeite, portanto. No fundo é um encontro improvável que torna todos os demais desencontros da vida menores ou, pelo menos, menoriza a sua importância. Num mundo diferente, num filme diferente, estas duas pessoas nunca se encontrariam.
O trabalho de Fears é notável sobretudo por contar uma história tão complexa, tão trágica, tão real e tão dura, com um toque brutal de redenção de Philomena (quase chocante para um espectador mais frágil a provocações religiosas), de uma forma tão simples: ainda que extremamente emocional sem a piroseira e a pieguice do costume.
Se ainda não viu Philomena, senhor leitor, prepare-se: vai rir, chorar e haverá alturas em que irá misturar lágrimas com gargalhadas.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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