Pequeno retrato da ciência do prazer

por Elvira Gaspar | 2013.11.29 - 00:39

O prazer é um bicho traiçoeiro. Sabemos quando o sentimos. Queremos, quase sempre,  mais. Sim… há a gula, a  embriaguez, a obesidade, a culpa, a dívida, a má compleição… e há ainda aquele deslizar medonho do “não conseguir parar”, a passagem do prazer à dependência…

Existe prazer e existe desejo? Sim – a distinção biológica entre gostar e querer. Tendemos a desejar o que nos dá prazer – exemplos são o sexo ou o chocolate (prazeres universais) o vinho, a comida, o tabaco, a música, as viagens ou as compras (ou outro “céu” qualquer!) – mas nem sempre é assim. Nem sempre desejamos as coisas que nos dão prazer, tal como nem sempre retiramos prazer das coisas que desejamos. São os casos do tabaco (nicotina), do fast food, do jogo ou da pornografia, os quais apenas proporcionam episódios fugazes de prazer, sendo o maior efeito a dependência, o querer mais, o desejo.

Para que serve o prazer? A resposta mais simples é que o prazer e a sua congénere sinistra, a dor, existem para nos incentivar a agir da forma certa. O prazer leva-nos a comportar de formas provavelmente benéficas em termos biológicos, ao passo que a dor nos desencoraja de fazermos mal a nós próprios. O prazer é a força oculta subjacente  às nossas escolhas, mesmo quando julgamos estar a usar o nosso consciente para efectuar decisões racionais – o compromisso entre a quantidade de desprazer que estamos preparados para sentir e a quantidade de prazer que esperamos em troca. Contudo, o prazer tem de ser efémero, para cumprir a sua função. Por isso, o prazer evolui para nos obrigar a comportamentos biológicos benéficos.

O cérebro humano vive constantemente uma fantástica ciranda de impulsos nervosos em todas as direcções, um mecanismo de impressionante complexidade que tem como resultado o pensamento, a fala, a acção, a locomoção, as manifestações de prazer e de desejo. Os impulsos nervosos passam através dos neurónios libertando substâncias químicas, os neurotransmissores.

A acetilcolina é o neurotransmissor encontrado em maior quantidade no organismo humano; estômago, baço, bexiga, fígado, glândulas sudoríparas, vasos sanguíneos e coração são alguns órgãos que este neurotransmissor controla. A síntese de acetilcolina é vital, pelo seu papel relativo aos movimentos e à memória – baixos níveis de acetilcolina contribuem para a falta de concentração e esquecimento, logo também interfere nas emoções e no prazer. Está relacionada com a prestação sexual, controlando a pressão sanguínea e batimento cardíaco durante a relação sexual.

As endorfinas, opióides endógenos (assim designados por terem uma acção semelhante às substâncias activas provenientes do ópio: morfina, codeína e  heroína), são tidos como os compostos do prazer, os quais actuam no alívio da dor, reduzem a ansiedade, aumentam o bem-estar e o conforto, melhoram o estado de humor, a alegria e actuam  na prisão de ventre. Os opiáceos endógenos são neurotransmissores libertados naturalmente em determinadas partes do cérebro, quando temos uma qualquer experiência agradável como, por exemplo, quando rimos ou comemos um alimento saboroso; ou seja, os opiáceos aumentam o impacto hedónico dos estímulos. (Se bloquearmos (quimicamente) a reacção do cérebro aos opióides, os actos (ex: de comer) tornam-se menos agradáveis, conquanto não exerce qualquer efeito sobre as causas (ex: a fome))

Uma das endorfinas é a serotonina, cujas funções incluem o estímulo dos batimentos cardíacos, a indução do sono e o combate à depressão. A serotonina é também o neurotranmissor precursor da melatonina, a hormona que regula o sono.

Ligada ao desejo está a dopamina, um neurotransmissor com actividade inibitória que, dependendo da zona do cérebro onde actua e dos seus níveis de libertação, apresenta diferentes funções  de dependência/recompensa. Contudo, a capacidade destrutiva do desejo é conhecida, como é o caso dos alcoólicos, dos consumidores de drogas, dos “compulsivos” do sexo ou do jogo, ou mesmo do poder…

Os Portugueses são os maiores consumidores de antidepressivos na União Europeia (UE), revela o último Eurobarómetro sobre Saúde Mental divulgado pela Comissão Europeia. Um em cada sete Portugueses consumiu este tipo de medicamentos nos últimos doze meses, mais do dobro da média da UE (7%). Com a crise, prevê-se o aumento do consumo. Os dados referentes aos suicídios em Portugal não têm sido tornados públicos.

O stress e os acontecimentos frustrantes da vida, podem hoje em dia, muito facilmente, provocar depressão. Quimicamente, a depressão é causada por um desregular  na produção de serotonina e endorfinas, os compostos biológicos que nos dão a sensação de conforto, prazer e bem-estar, como já foi referido. As consequências são sintomas como desânimo, tristeza, auto-flagelação, perda do interesse sexual, falta de energia por actividades simples, incluindo a actividade laboral. A depressão acontece devido à diminuição da quantidade de neurotramismissores libertados, mas a bomba de recaptação e as enzimas continuam a trabalhar normalmente. Os neurónios receptores capturam menos neurotransmissores e o sistema nervoso funciona, também, com menos neurotransmissores do que seria normalmente necessário. Para o tratamento da depressão são então utilizados anti-depressivos que têm por objectivo inibir a captação de neurotransmissores e manter um nível cerebral elevado dos mesmos, de modo aos indivíduos reestruturarem o humor e portanto o sentido de prazer e o desejo.

A classe de antidepressivos actualmente mais prescrita no mundo (e também em Portugal) são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) à qual pertence a fluoxetina, o famoso Prozac®. Ao inibir a captação de serotonina deixa-a em circulação, promovendo o bem-estar psicológico e físico das pessoas e o seu bom humor, promovendo também a felicidade.

É hoje uma área de investigação em crescimento perceber-se o porquê do gosto e/ou do consumo (às vezes compulsivo) de certos alimentos e perceber-se qual a contribuição  que têm para o bem-estar das pessoas, tendo em conta as suas necessidades químio-biológicas, ainda que temporárias. Não é por acaso que quando em stress, enervadas ou tristes, as pessoas recorrem mais ao consumo de alimentos como o chocolate, ou ricos em cafeína, a refrigerantes, a alimentos gordurosos, ricos em hidratos de carbono (pão, arroz, massas), ricos em ácido fólico (bróculos, feijão, citrinos), em minerais como potássio (vegetais de cores fortes), magnésio (abóbora, amendoim, cajú), selénio (noz e avelã) e em vitaminas C (papaia, frutas cítricas) e do complexo B (atum, frango, amendoim), pois são ricos em serotonina. Outras vezes, consomem leite e iogurte, que são fontes de uma substância denominada triptofano (um aminoácido que estimula a síntese de serotonina) e, portanto,  aumentam também a sensação de bem-estar. Além de estimularem a atividade cerebral, estes alimentos energizam as pessoas, contribuindo simultaneamente para o seu bem-estar no respeitante ao prazer e ao desejo. Ou seja, em vez de fármacos, inconscientemente, as pessoas usam alimentos aquando das suas carências!

Contudo, muito do que hoje encaramos como prazer é, na realidade, a expectativa do prazer ou o desejo dele… Há hoje quem defenda que o desejo tem  maior impacto no comportamento humano do que o prazer em si mesmo, porque o prazer termina com a saciedade, ao passo que o desejo continua a incitar-nos e não nos deixará cruzar os braços. Assim sendo,  os nossos desejos impelem-nos constantemente à acção e acabam por nunca estar saciados. Ou seja, não existe uma tranquilidade perpétua/duradoura da mente, porque a vida em si mesma é movimento e mutação e nunca poderá existir sem desejo…

Nascida em 1960, em Luanda, Angola. Pais Beirões (Pai de Mangualde, Mãe de Cantanhede) - raízes genéticas e culturais que me "desassossegam". Ensino secundário em Mangualde (um privilégio!) (transição colégio-liceu, 1975-1978). Licenciatura em Engª Química pela Universidade de Coimbra (1983). PhD em Química, especialidade Química Orgânica, pela Universidade Nova de Lisboa (1994). Docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa desde 1984.

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