«Pensar é não compreender»

por Amélia Santos | 2014.11.27 - 18:35

 

Hoje apetece-me falar dos pequenos «mistérios» da vida.

Não há praticamente um dia na minha existência em que não dê por mim a pensar nos pequenos mistérios e curiosidades da vida. Algumas coincidências surpreendentes que nos deixam incrédulos. Ironias inexplicáveis. Acasos estranhos. Enganos grosseiros. Mal entendidos… Pontas soltas…

Cada uma destas coisas pode, à sua maneira, alterar os caminhos que tínhamos traçado ou que imaginávamos seguir. Obrigar-nos a rever posições, reexaminar sentenças, modificar planos e mudar de ideias… E são pequenos mistérios para os quais nunca encontramos uma explicação coerente e válida…

E, não raro, damos por nós a pensar: “se não tivesse sido aquele encontro ou aquele telefonema ou…, o que teria acontecido ou como seriam hoje as coisas? A mim, estes acasos estão sempre a surpreender-me e a inquietar o meu espírito desassossegado. Há uns anos, numa viagem de férias, conheci uma pessoa, com quem tive uma cumplicidade imediata, que parecia vir de uma outra dimensão. Hoje, ela permanece como uma amiga muito, muito especial e ambas sabemos que, se não fosse aquela viagem, dificilmente nos teríamos cruzado nesta vida. Mas, quantas vezes, uma viagem não representa uma perda irremediável e nos leva a dizer: “se eu não tivesse ido…talvez ainda hoje…” Coisas das vidas…

Mas, o que é certo, é que tudo isto encerra mistérios que jamais desvendaremos. Acreditar que é o destino o dono disto tudo, pode ajudar a suportar e a resignar, mas não resolve o enigma… (Não quero entrar pelos complexos mistérios da fé e daquilo que não se consegue compreender/ explicar racionalmente, mas que tem um valioso poder, enquanto meio apaziguador de incertezas, dúvidas e interrogações sobre o que desconhecemos. Porque, ter fé é, neste contexto, ter um confortável colo materno e protetor, que nos acompanha ao longo da vida e que nos ajuda a encarar a morte e a «usar» Deus como a explicação para tudo.)

Hoje apetece-me mesmo enunciar os pequenos «mistérios» da vida, aqueles que são frequentes e quotidianos, apenas porque me inquietam muitíssimas vezes… Os mistérios que encerra a «sorte» e o «azar». As marés de uma e de outro. Discorrer sobre a sorte de uns e o azar de outros, levar-nos-ia a oceanos de frases feitas, por vezes apaziguadoras, outras tantas indutoras de maiores revoltas interiores. Mas o que é certo, é que todos nós experimentamos fases de vivências inexplicavelmente más, que nos fazem pensar que existe ali qualquer entidade que se assemelha ao demo e que apenas nos quer infernizar a vida por todos os meios. Como se explica isto? Alguém sabe?

Os pequenos mistérios do dia-a-dia são tão curiosos como os outros. São talvez aqueles de que mais falamos. São os invocados para deixar em aberto, para registar a ausência de uma explicação, para evidenciar pontas soltas… São aqueles que entram na nossa casa e no nosso carro. Que invadem os nossos sonhos sem pedir licença. Que convivem com cada um de nós, mexem com as nossas emoções e desencadeiam reações, tantas vezes inexplicáveis.

Interferem com as nossas escolhas e hesitações. Com as nossas fraquezas… E chego a uma brilhante conclusão: “Pensar é não compreender!”

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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