Para uma desmistificação da “germanofilia” aquiliniana

por PN | 2014.04.12 - 06:18

 “Alemanha – Convenção sobre os afectos”.

Este breve escrito deve entender-se dentro do espírito da maiêutica e por ele levar à consciência de uma realidade, exprimindo-a e julgando-a. Quer-se breve, polémica e propensa a outros voos, daqueles que asas para tal tenham.

É frequente cochichar-se sobre a costela germanófila de Aquilino; abeirarmo-nos do assunto aversivamente com receio de destapar Pandora. O sol tapado com peneiras sai quadriculado, apenas. Há que perceber o insinuado, detectar sua abrangência e ter olhos para olhar de frente esta sincronia de tão vasta diacronia.

Falamos hoje, a 78 anos de distância, de uma ocorrência que prevalece escrita: as publicações em 1934 e 1935 das obras “É a Guerra” e “Alemanha Ensanguentada”. A 1ª sendo um diário escrito em Paris, que vai de 1 de Agosto a 26 de Setembro de 1914. A 2ª, tendo como subtítulo “Da Guerra para a Paz”, foi escrita em Berlim e Paris, em 1920, no decurso de uma ida aí feita a convite de seu sogro, são as memórias de um viajante.

Na 1ª obra, o diário inicia-se a 1 de Agosto de 1914. Por acaso ou por expressa vontade? Recordo que foi neste dia que o Império Alemão declarou guerra ao Império Russo, iniciando-se a Iª Guerra Mundial.

Aquilino casara em Paris menos de um ano antes com uma alemã de Meclemburgo, Grete Maria Luísa Tiedmann. No ano em que escreve esta obra nasce-lhe filho primigénito, Aníbal Aquilino Fritz Tiedman Ribeiro. Alemão pela mãe, português pelo pai, francês pelo solo em que nasceu.

Seis anos separam a escrita destas duas obras. Um a sua publicação em 34-35, vinte anos volvidos. Que o mesmo é dizer ter sido uma edição reflectida e não circunstancial. Se no seu conteúdo se referem factos, episódios, emitem opiniões, narram eventos e descrevem situações, é nos prefácios de ambas, o 1º dedicado ao seu velho amigo e companheiro de presídio do Fontelo, Dr. António Gomes Mota, do Freixinho, o 2º ao Dr. Francisco Pulido Valente, que encontramos 3 referências a Hitler.

Evidentemente que em 1914 tinha o Adolfo Hitler 25 anos e em 1920, os seus 31 anos não davam dele ainda eco relevante na comunicação social da época, feita em jornais e numa rádio ainda jovem.

Em 1925 é publicado o Iº volume de “Mein Kampf” e no ano seguinte o IIº volume.

Em 1934 morre Hindenburg e Adolfo Hitler apodera-se do seu lugar. Torna-se ao mesmo tempo Presidente e Chanceler – declara-se Führer, sendo confirmado a 19 de Agosto de 1934 por plebiscito, com 89,9% de votos. Porém, a IIª Guerra Mundial só começará a 1 de Setembro de 1939, com a invasão da Polónia pela Alemanha, seguida pela União Soviética. A Inglaterra e a França reagem e declaram guerra à Alemanha.

Contudo, as duas obras centram-se numa Alemanha de antes da Iº Guerra e numa Alemanha derrotada nessa guerra e espezinhada no Tratado de Versalhes pelos países vitoriosos.

Cinjamo-nos aos prefácios, citando sempre a 1ª edição:

Começando com “É a guerra”, Aquilino alerta-nos:

Neste livro narro, em obediência sempre à minha divisa, como vejo e sinto; às vezes com imoderada franqueza. Se dou realce ao subjectivo aqui e além, é que foram as forças espirituais que prevaleceram na grande guerra. A França jogou com elas tão desesperadamente que todas à uma lhe serviram. Não chegou a organizar com admirável argúcia e extensão a mentira?”

E mais adiante acresce:

“Manejada por inteligência imaginosa, dextra e subtil como a francesa, terrível arma é a mentira. Lâmina de Damasco a cortar, flecha de malaio no venenoso.”

Para de seguida criticar a Alemanha actual, a de 1934:

“À medida que a Alemanha ganhava no domínio da física, digamos, perdia no espiritual. Absorvida no desdobre da força ou tarda de reflexos, não parava com vantagem os botes da treda e florentina arma, jogados com desconcertante rapidez. As suas ripostas dir-se-iam de imenso chifarote que apenas lanceava no ar.”

E escreve em 1934 o que, numa bela manhã de Maio de 1912, em Meclemburgo vira:

“acordei a caudaloso e compassado tropel. Corri à janela. Eram os ulanos da Kronprinzessin que se dirigiam à parada. Corséis de raça, robustos e garbosos cavaleiros, uniformes tão limpos e escarolados que não seria ingénuo perguntar se acabavam de tirá-los do casão. Marchavam em duas alas com perfeita cadência e rigor geométrico (…) era soberbo, marcialmente soberbo…”

E o observado, tendo seu filho Aníbal Fritz Tiedmann Ribeiro 20 anos, não será o reflexo, também, de um pai orgulhoso?

De seguida, comparando a Alemanha de 1914 com a de 1935, ajuíza, crítica e futura:

“Apesar de tudo era bem mais simpática que a Alemanha dos nossos dias, que ferve na mística descabelada, acende autos de fé dos livros que divergem do credo estreitamente nazi, provoca o êxodo dos judeus e encurrala em campos de concentração, até se renderem à mercê, os que não comungam na religião nascente. A outra tilintava a espada, é certo, e esta a cada passo entoa o hino da paz; a outra tinha prazer em fazer-se passar por lobo, esta traz vestida a samarra de cordeiro; simplesmente, a outra era o que transparecia, e esta não é nada do que inculca.

A Alemanha que procede de Versalhes é dos tais vencidos a que deixaram os olhos para poder chorar. Retalharam-na, empobreceram-na, humilharam-na, quando a boa política seria apenas arrancar-lhe unhas e dentes, que tão assanhadamente arrancaram e morderam, para que cedo, um meio século, não ousasse recomeçar.”

Opinando sobre o Tratado de Versalhes, encontra nele causa para o efeito, aí referenciando Hitler e o seu surgimento:

“O triste pode mandar-se pintar num retábulo se, ao cabo da malhada, lhe escaparam alguns dentes, não lhe puseram as costelas num feixe, ficou derreado apenas para semanas. Também se era pacífico torna-se fera, se conservador acrata.

Foi mediante processo similar havido com ela que a Alemanha derivou para inimiga figadal do género humano. Em Versalhes não se pretendeu estabelecer a verdadeira concórdia entre as nações, mas sim dar satisfação aos ódios triunfantes. É explicável. Mas deixassem, ao menos, criar ossatura à nascente democracia alemã, chorona e paz de alma. Ao contrário, a mísera veio disforme à luz e morreu de consumpção chupada pelos vampiros francês e britânico com seus acólitos. Hitler desabrochou do nateiro de miséria, de opressão, de vexame, de rancor reprimido como flor onde menos se espera, miraculosamente, por conjura do vento, húmus e sol. Aí têm Átila II.”

No prefácio à 2ª obra, aclara a sua admiração estética pela Alemanha, dirigindo-se a Francisco Pulido Valente:

“Alemanha, terra a que sei prenderem-no gratos vínculos espirituais e a que vota, como eu, rasgado apreço pelo que tem de fecundo e criador.”

E volta ao Tratado de Versalhes para compreender este novo país emergente:

“A Alemanha que perpassa nestas páginas fui surpreendê-la no momento mais trágico da sua história: ao sair da guerra, rôta, faminta, ulcerada, desiludida de Deus e de César, heróica sempre. Começara a operar o Diktat de Versalhes ou a cilindração dum povo, à valentona e com meticulosidade chinesa, como se faz à brita das estradas.

Exangue, sem fôlego, governada por fantasmas, só um cego a não veria a tomar-se daquela febre que devia conduzir a Hitler e ao estado de exaltação patriótica que apavora o mundo.”

Vai constatando que a Alemanha está na moda. Mas só agora e com “divindades carniceiras”:

            “Decerto que a Alemanha, agora na berra, não quadra ao gosto dum espírito sensível à moderação e harmonia. Os autos de fé que reduziram a cinza livros menos ortodoxos e o êxodo dos sábios e escritores que não comungavam no credo novo representam os piores atentados contra a inteligência. Para eles não há absolutório possível no tribunal da razão. É preciso descer à sua própria etiologia para explicá-los. De verdade o povo germânico afizera-se à ideia de que no sector da opinião liberal, tanto interna como externa, estava o inimigo: ‘ Não fora a Social-Democracia que soltara sobre Alemanha os sete flagelos? Não se inculcara de democrática a constelação de Estados que se haviam mancomonado para lhe dar combate?

O mais lamentável de tudo é que se perdesse a lição do cataclismo e rios de sangue e de lágrimas debalde regassem o mundo. Estão outra vez de pé em suas aras as divindades carniceiras.”

Adiante, acerca da guerra, pergunta:

“Mas a última palavra da nossa condição está em homens e nações se atropelarem e subverterem segundo a lei do mais forte?”

E chega ao “homem novo”, esperançado nele e por oposição ao “hediondo” que provavelmente pontificaria em Portugal e contra quem, enquanto representantes da monarquia ou da república, mascarados de tiranos, lutou, foi ferido, esteve duas vezes preso, fugiu e três vezes se exilou. Será legítima esta presunção? Revista até na sua já dupla descendência?

“As camadas sedimentares da humanidade volvem de suas fundagens à superfície trazidas por desabaladas e contínuas convulsões. Anda-se a elaborar o ‘homem novo’. Superior, inferior ao de hoje, conforme! Esse que para aí gira, nos acotovela, nos humilha, nos causa piedade, nos oprime e deixa-se oprimir, ora morre de indigestão, ora de fome, não pode continuar. É simplesmente hediondo!”

E eu próprio, recusando liminarmente uma noção de arianismo germânico, penso que no Portugal de hoje, o que mais falta nos faz é um “homem novo”, porque atingimos o clímax da ofensa, do espezinhamento, do abuso, da humilhação, da exploração, da prepotência, da arrogância e da mentira.

Aquilino termina sugerindo ao ofertado uma restrição. A de não ver naquelas páginas senão o propósito de “esclarecer o fenómeno estupendo da Alemanha hitleriana”. Advirto para os mais apressados ‘stupendu’ não quererá significar espantoso, assombroso, extraordinário? E não foi isso mesmo, ou teremos que o encarar como mera qualificação encomiástica?

Há que incluir também o desamor histórico que Aquilino sempre teve pela Inglaterra. Permito-me estes exemplos:

“Há uma nação, sim, uma só nação que pode querer a guerra no fundo do seu instinto sorna e rapace ao mesmo tempo ou a quem talvez a guerra convenha: a Inglaterra.”

E continua:

“A guerra apenas utiliza a uma nação, repito, a Inglaterra, que precisa de colocar a hulha, reaver a supremacia política, o que só é possível desmantibulando os países continentais, em particular a Alemanha, cujo poderio naval a assusta a ponto de não digerir em paz nem dormir a sono solto, particularidades sem as quais um inglês não é inglês.”

Para concluir:

“A Albion, que não pregou o fogo ao rastilho mas podia apagá-lo e não faz porque lhe sorri que a labareda suba tão alto que devore a arquitectura actual da Europa, se deverá imputar, de futuro, a grande responsabilidade do conflito.”

Reitere-se que este “conflito” foi a Iª Guerra Mundial e sobre a posição da Alemanha, em vésperas de nela mergulhar, escreve:

“A Alemanha parece esquecer que na víbora quem mata é o veneno e não o ferrão. Julga-se a coberto de todos os riscos na couraça de Siegfried e, por este caminho, pode cavar o túmulo e lançar-se nele. O mundo não se move apenas pela força; move-o a mentira que põe a máscara furtacores da verdade, ou a verdade que anda à tona dos sentimentos como o azeite de água; movem-nos os mil e um cordéis da moral dominante; a honra; a estupidez das correntes de opinião; tudo isto que a Alemanha, olvidando a data em que estamos, pôs de parte ou calcou com botas de gendarme.”

Perante o exposto, cada um construirá sua ideia, tecerá sua opinião, congeminará seu cenário. Se vos despertei alguma curiosidade tenho o objectivo atingido. Por mim, clara a “convenção de afectos”, apodar de germanófilo Aquilino é mais que justo. Também o foi, por exemplo, o Professor Paulo Quintela, o maior tradutor português de Goethe e Rilke. Admiraria este democrata convicto o nazismo? Só pela mais perversa e absurda ilação! E de entre os presentes, quem não aprecia Bach, Beethoven, Brahms, Mendelsohn, Wagner ou Honegger? Ou Schiller, os irmãos Grimm, Kafka, Brecht, Hoffmann, Heine, Remarque, Büchner, Döblin, Walter Benjamin, Stefan Zweig? Ou os laureados com o Nobel da Literatura Thomas Mann (29), Herman Hesse (46), Nelly Sachs (67), Heinrich Böll (72), Günter Grass (99)? Ou Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Freud, Schopenhauer, Heidegger? Ou Lucas Cranach, Dürer, Max Ernst, Lucien Freud, Mathias Grünewald, Holbein, Paul Klee, Peter Graf? Ou Einestein? Ou o poeta Heinrich Heine que escreveu acerca do 10 de Maio de 1933, o dia da “limpeza da literatura”: Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”?

Talvez, poucos apreciemos Ângela, a Merkel… mas isso nem fará de nós germanófilos nem germanófobos. Antes humanistas lúcidos.

Quando colado o ápodo a Aquilino numa perspectiva de simpatia nazi, afigura-se-me grossa asneira, má leitura, prenhe de ambiguidade e fecunda em detracção. Até e porque, subjacente à sua admiração por uma Alemanha criadora, há claramente explícita uma crítica ao nacional-socialismo e ao fanatismo hitleriano.

O passado de Aquilino como gladiante anarquista, intervencionista, activista republicano, maçon e carbonário da Alta Venda, acrescidos dos anos que precedem e procedem 1934/35 de combatente pela liberdade (aliás, até ao fim de sua vida, em 1963), de homem lúcido, democrata, inteligente e coerente, desfazem qualquer cenário de um Aquilino-germanófilo por seguidismo de ideais nazis. Não obliteremos o seu apoio a Norton de Matos, a Humberto Delgado, as perseguições de que foi alvo pela Pide, a animosidade que votou ao Estado Novo e lhe foi retribuída, a polémica gerada pelo establishment aquando da publicação de “Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias” (53), o vil processo de que foi vítima pela Censura do Regime quando viu prelo “Quando os Lobos Uivam” (58)…

Contudo, mais do que pensar que poderá ser ou não ser; mais que não mexer no assunto porque incómodo, há que trazê-lo à luz, estudá-lo, dilucidá-lo e discuti-lo. Foi esse o meu propósito. Desculpem se me alonguei. Embora presciente de quão breve fui para tão intrincada temática, deixo aqui a sua incipiência para aprofundamento futuro.