Outros tempos!

por Ana Albuquerque | 2016.01.16 - 14:56

 

Aquela aldeia era singular. Tinha muitas casas solarengas de pedra granítica, com varandas cobertas, onde as plantas sorriam para o sol da manhã, e as mulheres, de pele macia, acenavam às janelas, com cortinados feitos de renda ao serão. Havia outras casas, mais pequenas, nas ruas mais estreitas, com balcões, cobertos de vasos de sardinheiras, onde outras mulheres, de pele crestada pelo sol e pelo vento, coziam roupas ou catavam piolhos à criançada.

No meio do largo, havia uma fonte, onde, à noite, se juntavam as raparigas casadoiras para encher os cântaros, enquanto animavam a alma com canções do estio ou bailavam olhares com os rapazes de fora.

Havia um forno, usado pelas mulheres do povo, onde as crianças procuravam as mães, aqueciam as mãos e amaciavam o estômago, com o pão de milho acabado de coser ou a bola feita com sardinha, trazida pela manhã, pela tia Susana, ou com carne do porco, morto, com a precisão de homens calhados na arte, no tempo frio, guardado, talhado em partes, na salgadeira, para dar de comer à família numerosa, todo o ano.

No outro lado da aldeia, voltado ao sol, havia um tanque, o lugar sagrado para as mulheres do campo. Aí lavavam a roupa, que punham a corar ao sol, na lameira em frente, e curavam a alma com ais aflitos ou gargalhadas sonoras, enquanto mergulhavam os braços na água fria e batiam com as peças na lavadoiro, depois de as esfregarem com o sabão azul ou rosa. Tinham lugares marcados hierarquicamente. Nenhuma ocupava o lugar da outra, só com autorização prévia. Os lugares passavam de geração em geração. Era um direito consuetudinário. Palavra cara que não cabia no dicionário destas mulheres iletradas, mas cultas, de uma cultura outra que não era valorizada nem reconhecida pelos homens brutos que, muitas vezes, as ameaçavam de morte nas pedras da noite, quando fugiam das suas casas para as das vizinhas a pedir ajuda.

As pessoas que habitavam as casas de balcões de pedra escura eram simples. Comiam o que a terra abençoava com o suor dos seus rostos. A ceifa, fila a fila, para cá e para lá, (“sentindo-se felizes talvez”, como dizia aquele poeta estranho que nunca ceifou na vida); a apanha das batatas, sempre de cócoras, as mais graúdas para um lado e as mais pequenas para trás, para serem apanhadas pelas crianças da casa; o segar da erva para os animais, alojados nas tardes quentes ou nos dias chuvosos; a sacha do milho, entoando canções melancólicas ao calor do verão; a vindima e o arrastar dos cestos até ao carro de bois, atirados para dentro da dorna, levada, depois, até ao lagar, e o pisar das uvas, pela noite, calças de homem arregaçadas até acima dos joelhos; a desfolhada, o milho-rei e a volta para receber o beijo conseguido; o erguer do feijão e do milho, na eira, ao sabor do vento mansinho, mas certo; o ensacar das avelãs e das castanhas para vender ao taberneiro rico da aldeia mais próxima. E tantas, tantas outras tarefas.

Era assim a vida, regulada pelas estações do ano e pelo Seringador, comprado, na feira dos vinte, em agosto, ao homem que vendia mezinhas e sementes e artes de enfeitiçar, penduradas com molas num cordão esticado. (Parece-me ouvir, ainda hoje, o som do acordeão, tocado pelo Zé da Micas, cego de nascença, mas com um ouvidinho de santo e umas mãos de fidalgo, herdadas de um pai que não se sabia quem era, mas todos desconfiavam).

Uma vida suada, mas amada, apetecida, saboreada até à última pinga da água-pé, para as mulheres, ou do tinto forte, para os homens de barba rija, um tinto com o nome do rio que serpenteava os vales do concelho vizinho, mas tão próximo, que se confundiam as extremas. E o Vouga, o outro rio que nascera ali à beira e corria para as bandas de Aveiro, acolhia, nas tardes quentes, os corpos musculados dos rapazes, que procuravam, na corrente fria das águas escuras e profundas, aquietar os peitos e as partes quentes do cio natural da idade.

Ao domingo, as raparigas vinham da missa e ajudavam as mães na cozinha, no almoço melhorado para o “Dia do Senhor”: uma galinha assada no forno, com batata e arroz branco, e uma canja feita com as miudezas. Voltavam da vila, a pé, pelo caminho velho, de cujos muros pendiam as madressilvas (que depois foram o título de um livro) e onde as amoras negras pediam atenção. Picavam-se ao colhê-las e riam-se alto. Entoavam cânticos novos, com uma melodia alegre, feitos pelo novo padre, um homem muito alto, esguio, que tinha o dom da palavra e da música. À tarde, sentavam-se as velhas nas soleiras das portas e atualizavam as notícias da semana, enquanto os maridos jogavam a bisca dos sete na tasca do Xico ou iam ao futebol atirar uns palavrões ao árbitro, que nunca tinha razão. De uma maneira ou de outra, regressavam, ao colo das camas, pela noitinha, já carregados da pinga. As novas, essas embelezavam-se, escolhiam as saias mais justas e mais curtas e voltavam à vila para ver as poucas montras de lojas de roupas bonitas e sorriam, discretamente, ao espelho de corpo inteiro, que em casa não tinham.

Era assim a vida, como Deus queria e todos estavam de acordo, pelo menos assim parecia aos olhares mais distraídos. (Não aos meus!)