Os Pontos Fixos

por PN | 2014.12.01 - 20:49

 

 

Estão sempre lá. E também na minha cabeça.

Podia chamar-lhes isotopias ou imagens obsidiantes, mas prefiro “os pontos fixos”.

Que forças me impelem para eles, tão recorrentemente?

Ainda não sei explicar. Talvez nunca venha a saber. Os mistérios, são-no como o 7º véu de Salomé.

O meu pensamento, a competência mais móvel que detenho, para eles me centrifuga. O meu corpo, segue-lhe as pisadas,

E é lá que, ora uma enorme serenidade, ora uma pesada inquietude, de mim se apossam. Quebrado, a elas me rendo na inexorabilidade de um destino.

Creio, tão profunda quanto inscientemente, no axis mundi que cada um de nós transporta latente vida fora. Há anos sei do meu. E porfiado, com o ímpeto e fé do peregrino, pelos 4 pontos cardinais, a ele acedo com a periodicidade dos passos seguros e velhos.

 

É lá que melhor capto a luz. Me tranquilizo nos silêncios e ouço o murmúrio das pedras.

É lá que a mesma janela sem vidros de sempre me oferece, sobre um soalho rompido, o banco em granito concâvo onde me sento erecto de olhos pasmados para o horizonte infinito.

É lá que os odores seculares, sem mácula, me fremem as narinas.

É lá que a toutinegra, no ramo mais grosso da figueira próxima, me mira impávida, cúmplice e apaziguada.

É lá que as lapas longas lisas luzem com o sol, com a chuva e acolhem o vento triste e a neve pura.

É lá que os muros afeiçoados e musgados simbolizam, só, o espaço do indíviduo, singular e consigo uno.

É lá que os trilhos cavados, mansos deambulam em torno do seu centro, na figura mais que perfeita do círculo.

É lá que o córrego mais marulha incessante e persistente suas gaias melodias e ansiadas maresias.

É lá no côvo fundo que a velha truta de dorso sarapintado dorme no pêgo leito embalada.

É lá que o sincelo cai álgido a guilhotinar o dia a meia tarde.

É lá que a canícula do estio faz do caldário minha cegueira e torpor.

É lá que ouço meus passos ranger na poalha esfarinhada da terra sem sequer me mover.

É lá que a terra e o seu de madre ventre, outrora súcubo e hoje, já de si só sáfaro, sibilam seu feitiço, apelo e chamamento.

 

 

Viseu, 30 Novº, 14h05