Os olhos do meu pai

por Patricia Maia Noronha | 2014.03.14 - 13:11

A luz do dia bate diretamente na minha cara. Acabei de acordar. Passam ainda pelos meus olhos imagens do sonho que tive. Era um sonho bom. Dancei nesse sonho.

Esfrego os olhos com força. No espelho o meu reflexo diz que ainda não está na hora: os olhos continuam inchados. E acabo de verificar que tenho uma nova ruga, mesmo por baixo da pálpebra esquerda. Tal como o meu pai.

Olho mais de perto o espelho. O reflexo. E vejo à minha frente os olhos do meu pai. Nunca quis ter os olhos da minha mãe. E as pessoas dizem sempre que tenho os olhos da minha mãe. As pessoas não conhecem o meu pai.

Vem uma voz do espelho. “Dá me a tua mão”. É a voz do meu pai. A tua voz quando ainda estavas vivo. Antes de te ter encontrado. Já sem palavras. Antes de te ter tocado nas mãos frias. E nessa altura eu percebi. Nessa altura ainda ninguém sabia. Só eu.

Era a tua voz antes disso tudo ter acontecido. “Dá-me a tua mão”. Já não é o espelho que fala comigo. E eu dou-te a mão. pai. Sou agora pequena e estamos de mãos dadas. Ao fundo, oiço o barulho das ondas. Aquelas ondas pequeninas do Algarve onde mergulhávamos os pés descalços sem sentir frio. E nós nunca queríamos sair da água. pai. E depois a areia ficava colada ao nosso corpo. Porque ainda estávamos molhados. A areia cola-se à nossa pele quando temos um resto de mar agarrado.

Dás-me a mão. Lembro-me de tudo. Dás-me a mão e já não pisamos a areia quente e fofa. O sol já não nos queima a pele. Está frio e há um animal que uiva. Ao fundo vejo uma floresta. Pressinto lá escondidos todos os medos. Os medos de todas as pessoas.

“Para onde vamos pai?”. Pai e tu agora não dizes nada? Ah mas vejo um breve sorriso nos teus olhos. Sorrio também de olhos postos em ti. Vamos em frente. E contigo ao meu lado entramos na floresta. Por detrás das árvores espreitam pessoas antigas. Pessoas de agora. Pessoas que hão-de vir no futuro.

Alguém, a minha avó?, diz-me orgulhosa, numa gargalhada (logo ela que nunca se ria) do cimo de uma das árvores: “Davas uma freirinha tão lindinha, com esses olhos”. E desenha no ar uma flor num vaso. Depois um número 2 muito perfeito que se transforma num pato. Desenha tu agora!. Desafia-me a minha avó, de olhos posto em ti. pai. E tu continuas. Vou contigo.

Estamos agora na aldeia. O meu irmão está connosco. Traz amoras silvestres nas duas mãos. As amoras são nossas. De ti também. De nós todos. E rimos muito por causa disso. O sino da igreja ecoa demasiado alto. Tão alto. Temos nos olhos aqueles óculos escuros de radiografia que fizeste para nós no dia do eclipse. E todos os miúdos da escola queriam ter uns iguais. Eram os óculos mais lindos. Temos os olhos postos no céu. Mas o sol é escuro.

A aldeia foge e a floresta continua. Estamos só nós outra vez. O meu coração acelera e os meus olhos crescem. Os teus também. pai. Crescem. O uivo dos animais regressou. Paramos. E os medos de há pouco regressam cá dentro. E lá fora. Em todo o lado. Eu fujo para trás mas tu agarras a minha mão com mais força. “Fica comigo.” Eu fico.

Olhamos em frente. Aos poucos o medo parece que se transforma em luz. Começa a brilhar mais intenso e torna-se nosso. E enquanto o brilho cresce, nós dançamos. Estou ao teu colo. Rodopiamos. A música vem cá de dentro. O nosso antigo medo é agora luz e música. Dançamos mais. Eu e tu pai. E a nós juntaram-se todos os outros, lembras-te? Fecho os olhos.

A minha mão já se soltou da tua mas ainda oiço a música baixinho. Abro os olhos l e n t a m e n t e. Estou deitada na minha cama. Pressinto o dia lá fora. Atravesso o chão de madeira onde já brilha um raio de sol que entra todo confiante pela nesga da janela.

Estou em frente ao espelho. Abro a torneira. Esfrego os olhos. A luz do dia bate-me diretamente na cara. Acabei de acordar. Passam ainda pelos meus olhos imagens do sonho que tive. Era um sonho bom. Dancei nesse sonho.

 

* Imagem de António Ferra

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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