Os meus “Dia de Reis”

por Alberto Correia | 2014.01.07 - 20:31

Neste Dia de Reis em que escrevo dei por mim a olhar lá para trás e muitos anos vão, graças a Deus, caminhos andados, encruzilhadas e a estrela que nos guia também às vezes apagada como a dos Magos antigos e o bater numa porta para saber do caminho, também não foi, às vezes, a melhor porta como aquela a que os Magos bateram, que Herodes foi dissimulado, mandou vir o Livro de Isaías e disse aos Magos que nascera em Belém, o Rei que procuravam, e mandou seguir a caravana com um guia que os Magos dispensaram ao sair da cidade porque a estrela outra vez se vira no céu. Valeu-lhes um anjo que os avisou das fúrias de Herodes de quem se livraram ao seguir por novo caminho, cada um para sua terra.

Quando era menino achava que esta era uma história bonita de aventura. E ainda acho que é. E é por isso que no Dia de Reis regresso, sempre que posso, à minha terra, sigo pelo presépio fora um caminhinho de areia, já não sei quem o fazia, talvez as raparigas, vinha de longe o caminho, detrás de uma serra de onde nascia o sol, torcicolos que havia, e eu seguia os pastores que traziam um cordeiro ao ombro e as mulheres das quintarolas do caminho carregando cestas de ovos e frangãos e queijinhos secos numa cesta e quando já estávamos à beira da cabana subiam ao longe, pela estrada real, os Três Reis Magos com seus arrieiros segurando pelas rédeas os camelos que caminhavam devagar no seu passo balouçado e ali ficávamos a vê-los passar, acenavam com a mão e entravam na cabana construída com palha como a dos pastores. E logo após os criados deles vinham aos alforges e levavam, cobertos com panos bordados, os presentes que a gente já sabia era ouro, incenso e mirra.

No Dia de Reis voltei à minha terra, só em pensamento voltei neste ano. Ainda lá está, eu sei, a cabana do Menino. Agora só lá existe, na aldeia, um pastor. E eu não sei se levou algum cordeiro para oferecer ao Menino. Já não mora quase ninguém nas quintarolas. As poucas mulheres que lá habitam já não oferecem ovos nas cestinhas. Queijos ainda oferece a mulher do pastor que eu sei que os faz bem. Mas quase ninguém, na aldeia, vem à porta para ver passar os Reis. Nem um cão sequer ladra ao longe, de assustado.

Não faz mal. Eu guardei os retratos antigos dos meus “Dia de Reis” de quando era menino. E vou ver.