Os imperativos da razão

por Gaëlle Istanbul | 2014.01.22 - 23:15

Em 1978, ao entrar para a escola, disseram-lhe que o mais importante seria que questionássemos, até morrermos. Foi um conceito que marcou Clara. Não sabia que na escola se podiam discutir ideias pois ouvira falar de memorizar a tabuada, de conhecer o nome dos rios, de aprender a língua e a sua gramática, mas nunca de pôr em causa.

A ideia de poder-se reconsiderar seduziu-a e quando o fez pela primeira vez, aos 6 anos de idade, e para sua grande surpresa, foi literalmente atirada para um canto, de costas voltadas para a sala, com orelhas de burro a coroarem a sua cabeça.

Ainda era do tempo em que as orelhas de burro faziam moda. E que moda! Hirtas e orgulhosas. Um belo par delas, capazes de desencadear nos colegas uma gargalhada colectiva e na professora um sentimento de orgulho soberano, disfarçado de um suspiro reprovador.

Nesse dia, Clara apanhara do chão um mapa caído e, simpaticamente, entregara-o à professora. Admirada pelo gesto não ter sido retribuído, com um simples ‘obrigada’, reclamou-o.

A professora, uma senhora magra e altiva, com cara de poucos amigos e de ética duvidosa, lançou-lhe um olhar vociferante. Apontou o dedo em direcção ao canto. Um dedo esguio, pálido, deformado, que a magnetizou, forçando-a até ao encontro da esquina.

Não chorou. Noutra ocasião, teria explodido em lágrimas, teria protestado. Ficou de pé, durante os infindáveis 30 minutos em que nem o toque a salvou. A lição prosseguiu e, ela, não consegui ouvir nada. Pôs-se a filosofar sobre o que tinha acontecido e a considerar todo o seu percurso pessoal e o seu início escolar.

No final, o dedo esguio, pálido, deformado, que a tinha atirado para o cadafalso, foi substituído por uma voz áspera, mas aguda, desafinada, quase ensurdecedora.

– Tu, que estás no canto, podes ir sentar-te.

Clara virou-se, lentamente, até que o seu corpo espelhasse o da sua educadora. Fez uma pausa. Acenou levemente e disse, num tom muito calmo e confiante:

– Obrigada.

O que é aqui relatado e o que se segue é o que acontece numa escala maior e mais complexa, em países onde a ditadura e a tirania procuram tecer as suas raízes:

Do canto, passaram-na para a cadeira, onde lhe colaram a boca com fita-cola, onde a amarraram por mais um tempo. O tempo do recreio, do convívio, das partilhas, das experiências. O tempo das conquistas, das desilusões, dos jogos e das conversas. O tempo da aprendizagem. O tempo que temos e a que todos deveríamos ter direito. O tempo da nossa vida. Única, pessoal, intransmissível.

Irrecuperável.

Findo o castigo, ainda com os punhos marcados, os lábios rubros e a pele ardida, levantou-se. Encarou a professora e, com um ligeiro sorriso e inclinação da cabeça, Clara respondeu:

– Obrigada.

 

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

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