Os dias tristes não são imortais

por Gaëlle Istanbul | 2014.01.16 - 18:02

A minha máquina fotográfica foi dada como morta. Não era uma excelente máquina, como a que ficou empacotada na casa dos meus pais, em Lisboa. Era uma máquina banal, prática, digital. Uma máquina de bolso, à semelhança dos livros de bolso. Servia a sua função.

Como todas as coisas que servem a sua função, foi-me muito útil. Ajudou-me a descobrir outras realidades. Por exemplo, a forma como olho para o mundo. É importante termos a noção de como olhamos para o que nos rodeia. Faz-nos compreender melhor como nos queremos posicionar face à vida.

A minha máquina morreu. Levei-a ao centro de saúde mais próximo, depois ao hospital das máquinas e a resposta foi sempre a mesma: a sua máquina morreu. Tentar ressuscitá-la custaria o dobro do preço de uma máquina nova, melhor.

A questão é que eu não queria uma máquina nova. Queria a minha, antiga. De facto, esquinada, riscada. Usada. Levei-a, de volta para casa – gosto cada vez mais de objectos usados.

Não voltei a comprar uma máquina e continuei a pensar na velhota. Por vezes, ia injectando-lhe umas palavras doces: ‘Vá lá, não sejas teimosa’. ‘Então, desististe da vida?’ Mas a máquina continuava inanimada, entregue ao seu coma profundo.

Eis que hoje, enquanto tentava limpar a secretária para o meu filho poder desenhar ao meu lado, peguei na máquina. Olhei para ela e pensei: ‘Ah, se soubesses o bem que me fizeste!’ Recordei as nossas aventuras e a teimosia com que a empunhava nos dias tristes. É necessário fotografarmos os dias tristes.

Mas eu não sou muito afoita a dias tristes e a desistências, embora, por vezes, o pareça. Foi então que resolvi investir numa última tentativa de reanimar a máquina. Uma pancadinha do lado esquerdo da teleobjectiva que teimava em não fechar. Uma pancadinha do lado direito. Uma pancadinha em baixo e outra em cima. Medidas fortemente desaconselhadas por mestres da fotografia, técnicos, peritos e toda a hierarquia que compõe o mundo da Fotografia e das Máquinas. Pareceu-me, no entanto, indispensável fazê-lo, embora não estivesse muito convencida de que fosse resultar.

Premi o botão que permite ligar e desligar o aparelho. Ouvi o motor de arranque roncar levemente e a teleobjectiva da máquina recolheu-se. Por momentos, pensei que fosse apenas uma reacção física ao tratamento. Nada mais. Uma espécie de convulsão, uma reacção última, anterior ao sopro final. Mas não. Voltei a carregar no botão e a teleobjectiva avançou de novo. As luzes acenderam-se e pude admirar a imagem reflectida do que se encontrava à nossa frente.

Embora não me lembre muito bem dessa imagem, e de outras que fotografámos juntas, a minha máquina respira e vamos voltar, atempadamente, a desbravar o nosso caminho.

Gaëlle Istanbul (1972, Mulhouse, França) passou a sua infância em França e Portugal. Estudou comunicação social e cultural em Lisboa, mas foi com o seu filho que mais aprendeu. Graças às viagens e aos acontecimentos da sua vida tornou-se contadora de estórias, através da escrita, da fotografia e do vídeo. Co-edita a Bypass Editions (http://bypass.pt), aprende norueguês e sobe montanhas, para que não lhe falte o ar.

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