Os bichos e a solidão humana na era da comunicação…

por Ana Cristina Mega | 2014.02.02 - 11:39

Com o passar dos tempos o Homem sonhou em ir mais longe e comunicar mais depressa…

Substituiu os cavalos por cavalos vapor e colocou-os sobre rodas, cascos flutuantes e barris com asas.

Criou caminhos de asfalto que ligam os agregados populacionais e as estações onde toda a variedade de cavalos vapor está permanentemente a chegar ou a partir.

Agora vive depressa, muito depressa!

Carrega em teclas e fala com alguém do outro lado do Mundo, vê no momento as alegrias e desgraças daqui e além-mar. Comunica à distância e faz do Mundo a sua Aldeia Global.

Na sua Aldeia é simples a comunicação por fios, cabos, ondas variadas, antenas, ecrãs, microfones e papéis pintados.

Comunica e vive depressa …

O Homem não tem tempo para criar laços com os seus semelhantes, retarda a sua descendência e abandona a sua ascendência ao cuidado de outros.

Os jovens casais substituem a prole por um gato ou um cão, de preferência de raça pura e com sangue mais azul do que qualquer nobre europeu. Dedicam-lhes dois passeios diários, uma alimentação de marca conceituada e uma boa dose de carinho à noite. Assim, satisfazem o seu instinto parental de um modo mais económico e apenas com a perda de uma hora diária, condições impensáveis para qualquer cria da espécie humana…Este Mundo não se compadece com perdas de tempo.

Também muitos idosos vivem sozinhos e, frequentemente, em agregados populacionais diferentes dos seus descendentes, estes por terem vidas sem tempo, não têm tempo para quem lhes deu vida…

Assim, o velho solitário dedica-se ao seu gatinho, cãozinho ou passarinho, trata-o com desvelo, por vezes desmedido, mas que no seu entender, nunca é suficiente. Todo o carinho que o velho dá é-lhe devolvido pelo bafo quente do companheiro que não se importa de ouvir as mesmas histórias de antanho, todos os dias da sua vida, desde que também ele, bicho, sinta o calor a que se convencionou chamar de humano.

O Homem comunica, vive depressa e está só…

Os bichos vivem, têm tempo e não têm pressa!

Médica veterinária, docente na Escola Superior Agrária, ISPV

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