ON FOCUs 5_ parte 3

por Jose Cruzio | 2014.11.25 - 22:17

 

Numa das minhas últimas leituras, curiosamente de um campo artístico com o qual não tenho percurso académico senão referenciais que tomo como “medida” na minha apreciação estética acerca do construído – a arquitetura, tive a “materialização dactilografada” de algo que já tive sempre em conta em trabalhos de instalação artística. Muito gratificante é descobrir, através de autores com obra e pensamento noutros campos que não o meu, uma similitude de ideias ou ideais. Daí percorrer diferentes secções em livrarias. Sabe bem. Quantas descobertas se podem fazer.

O livro em si, “Os olhos da Pele” de Juhani Pallasmaa, é um pequeno compêndio acerca da arquitetura e da vivência humana em espaços construídos, mas a partir de um prisma bastante invulgar: os sentidos e a sua importância, muitas vezes, descurada pelo primado da visão.

Ao longo da leitura, criei na minha mente  diversas analogias entre o conteúdo dos textos com a minha visão artística e no que concerne à instalação como forma de expressão. E na problemática da sua “deslocação” para um outro e diferente lugar.

Em toda e qualquer arte, bem como lugar, e oportunamente extravasando o âmbito original, cito Juhani:

“Ao experimentar a arte, ocorre um intercâmbio peculiar: eu empresto as minhas emoções e associações ao espaço e o espaço me empresta a sua aura, a qual incita e emancipa minhas percepções e pensamentos” (2011:11).

Acontece muitas vezes  que uma obra, idealizada e criada num outro lugar e contexto, possa ser “acondicionada” num espaço com aura e assim transfigurar-se. Não num sentido negativo nem positivo mas transfigurador.

Há quem não concorde com esta deslocação de um contexto para outro completamente diferente; ou escudando-se na tipologia normativa de muito boa e fundamentada literatura da chamada “site-specific” – arte para o lugar e só para aquele; ou não indo além, não conseguindo re-imaginá-la num outro lugar  – não por incapacidade mas talvez por não conseguir dissociá-la do lugar original. Obviamente existe muito espaço para discussão neste campo, desde a validade da obra como a perceção de “imposição” num espaço com imenso simbolismo apesar da ótica do autor acerca da mesma. E muito mais além.

Sempre existe essa possibilidade de deslocação. Com a reformulação de aspetos como de fundamentos certos para a justificar. São possibilidades. Viáveis ou não. E assim, decide-se se deverá ir avante.

Posso ser suspeito ao evocar um trabalho conjunto com dois bailarinos profissionais  e uma performer como um dos exemplos. Com premissa-base no tema da “Casa”, de tomar o espaço como sendo seu e, quando por si “apropriado”, exprimir e movimentar-se criando uma leitura pessoal.  Em dois exercícios, não havia som senão o do ambiente do palacete ou da casa. Noutro, houve uma faixa sonora que serviu de “tapeçaria” onde se embalar e assim extravasar para fora de si, de e com o seu corpo. Da captura vídeo-fotográfica e da posterior montagem resultaram três capítulos distintos. Por si, podem valer como objetos autónomos. Para uma visão “focada”.

Ao serem “acondicionados”, como previamente pensado e no seio de um evento público, num espaço com aura – um quarto intimista e com a patine do tempo e dos materiais construtivos de um edifício carregado de história e micro-narrativas subjacentes – transfiguraram-se como “telas vivas” e com som envolvente. A aura, a história e identidade do edifício, a ambiência e o intimismo do espaço, a patine evidenciada através do efeito do tempo nos materiais onde era feita a projeção criaram condições para a possível “imersividade” do espetador, que era um pressuposto fundamental para essa “deslocação” dos vídeos. Ou seja, a visão não era o único sentido necessário para a leitura global da obra. Quis envolver a audição, através do som envolvente, e a tactilidade do espetador ao sentir todas as características do espaço. Fazê-lo tornar-se um lugar só do espetador. Que o sentisse, ouvisse e visse como seu, íntimo e pessoal. Imerso nele. Perifericamente envolvendo-o, também. Pois os outros sentidos também “veem”. De formas diferentes.

Aqui, surgiram-me à mente ainda  outros extratos que retive da leitura do mesmo livro. Um deles:

   “Uma floresta como contexto, um espaço de arquitetura muito rico, oferece amplos estímulos para a visão periférica, e tal meio nos centraliza no próprio espaço.” (2011:12)

Também para este exemplo, num outro projeto no qual estive envolvido durante o evocado workshop, já na fase de pesquisa e de captura visual e de field recordings. Num percurso num bambuzal – floresta de bambus, num pleno dia de verão mas ventoso – surgiram imensos estímulos. Como quadro cénico e visual, o verdejante das canas e folhagem, a ondulação dos ramos mais altos, a variação das cores das folhas e  da luz solar filtrada e projetada no solo. Um caminho empedrado e, imersa nesta floresta, uma pequena capela em pedra desafetada ao culto. Na pele, as diferentes intensidades do vento, a frescura e o “toque” acalorado da luz do sol. Ouvindo, as canas batendo nas outras consoante a direção e força do vento. A folhagem rasando umas nas outras. Os estalidos das canas por força do calor, fazendo uma espécie de banda-sonora atípica. Estimulante mas atípica. E a capela? Um espaço envolvido, silencioso pelos seus muros mas aparentemente neutro no meio deste cenário. “Criada” como que para fazer uma pausa à contínua agitação dos sentidos. Evidentemente tal descrição aparenta ser a de uma instalação. Mas que foi um dos pontos de partida para uma, foi.

Remato, finalmente,  ainda com parte do texto de Juhani, uma explanação possível a ter em conta na arte da instalação como cénico-performativa:

     “A percepção periférica inconsciente transforma a gestalt da retina em experiências espaciais e corporais. A visão periférica nos integra com o espaço, enquanto a visão focada nos arranca para fora do espaço, nos tornando meros espectadores.” (2011:13)

Os projetos serviram de testes. Se foram bem sucedidos ou não, conto com a memória das sensações do momento no espetador. Não havendo relatos ou transcrições dos efeitos ou das revelações, ficam as memórias das vivências de um contexto muito particular.

Estas conclusões podem ter valores diferentes consoante quem as lê. Até um próximo texto.

 

 

 

Foto: JE’13_A CASA_Romulus1_Cruzio_ foto da projeção de vídeo durante os Jardins Efémeros’13

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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