|ON STAGE#6

por Jose Cruzio | 2015.02.12 - 14:36

“Aprender sem pensar é esforço vão; pensar sem nada aprender é nocivo. Aprender sem pensar é tempo perdido. ”

Confúcio  

 

 

Howard S. Becker, em “Mundos da Arte” (Livros Horizonte, 2010), fala em “cadeias de cooperação”, onde vários indivíduos e numa cadeia segmentada, com as suas diversificadas competências, contribuem para a concretização de uma obra.

A leitura é bastante conveniente e fundamental para se conhecer os meandros da arte, seja ela qual for. Mesmo que numa abordagem sociológica, argumenta (e bem) sobre esses meandros e os seus participantes. Tenho usado este referencial, entre outros, para as minhas abordagens acerca do trabalho que desenvolvo.

E, neste texto, abordarei o tema (recorrente!) de “cadeia de cooperação”  num contexto cénico – performativo. Obviamente, poderão pensar que terá um certo fundo auto-biográfico, que é o que menos importa. Importa, sim, as lições com os exemplos dados. Que tenham servido para a minha consciencialização sobre alguns aspectos e, fundamentalmente, aprendizagem, serviram. E ainda servem.

A “cadeia de cooperação”, neste texto, deverá ser entendida como um colectivo de pessoas em torno da concepção de uma obra. Na qual todos participam equitativamente, sem subterfúgios ou subentendidos, como deverá ser. Se houver fluidez e entendimentos mútuos, baseados no reconhecimento devido das diversas competências, mais facilmente se concretiza. Mesmo havendo algo equiparado a uma “hierarquia” – visível na ficha artística e técnica.

Sendo um trabalho conjunto, com os vários intervenientes, acaba por ser uma criação colectiva. Ainda que dirigidos por alguém com um papel cimeiro.

Há algo a enunciar antes de continuar: o papel de “maestro” não significará somente delegar mas também o de afinar o conjunto todo de acordo com o pressuposto que a obra exija. Em qualquer tipo de obra, são raros os que conseguem. Quando o quadro geral tenha tema, área artística pré-definida e programa qualitativo, mais facilmente os encontramos.

Por outro lado, quanto maior a magnitude ou variedade, mais evidente se torna essa mesma dificuldade. Ainda que delegando noutros  reconhecidos  profissionais da mesma área e apesar do acompanhamento, não garante que decorra com os pressupostos idealizados ou desejados. Neste tipo de eventos e desta magnitude, há um “saber estar” e um “saber dirigir” que muito evoca preceitos de liderança nomeadamente política. Seja com o seu quê de positivo como de negativo.

Ainda focando no “maestro”: há sempre um risco quando  envolvido noutras produções a serem criadas ao mesmo tempo – o de não haver “foco”/concentração necessária e diferenciação. Existem vários  exemplos que se podem enunciar ainda que a produção esteja numa fase de construção:  o “adequar”,  de um outro contexto e leitura,  uma linha narrativa;  o “repescar” de uma fórmula cénica, pertinente e fundamentada numa obra anteriormente exibida; o “adaptar” uma metodologia de trabalho muito individual e consciente de uma outra série de produções com a sua lógica e sequencialidade inerentes, por exemplo.

Outros riscos que  poderão vir ao de cima, quando não haja “foco”: a repetição de fórmulas e de modus operandi  em contextos muitos diferentes;  os que poderão ser “erros de casting” e de colocação das diferentes  personagens no espaço cénico, como bem enunciou António Pedro no seu “Pequeno Tratado sobre a Encenação” entre outros.  São exemplos.

A concretização, em si, não abdica de determinados pormenores, na minha perspectiva,  muito importantes.

Ainda que reconhecidos nos seus campos, mal não fará terem em conta um olhar mais “exteriorizado” pois permite haver a possibilidade de diferentes e, talvez, melhores e fundamentadas abordagens na construção da obra. Para isso, terá que haver maior abertura de espírito, de receptividade independentemente de onde venha a contribuição e  a consequente ponderação conjunta.

Um olhar atento, contínuo – nas diversas fases da sua construção – e distanciado – na medida em que não se está “imerso” seja como personagem seja como “condutor” –  terá a mais valia de também ter em conta os diferentes contextos. E na forma como poderá ser “lida” a obra.

Estes “contextos” tanto poderão incluir  o(s) paradigma(s)  evolutivo(s) do(s) colectivo(s) – seja de contínuas rupturas,  produções cénicas e diferentes formas de apresentação ou seja na lógica de contínuo aprofundamento (até certo ponto, pois o que se começa terá que ter um fim, se desejado,  quando se “esgotar” a fórmula!) – como também a sequencialidade a par com outras produções, quer próprias quer de outros colectivos num mesmo curto  espaço-tempo.

Um outro pormenor não de menor importância: as ilações do público quando conhecedor do(s) percurso(s) do(s) colectivo(s), muitas vezes encontrando-me também neste papel.

Daí a importância de um olhar “distanciado” e abrangente. E seja de quem for que faça parte do mesmo grupo ainda que com funções técnico – operacionais.

Daí ter-me focado da ideia da “cadeia de cooperação” neste texto.

Até breve e a um próximo  | ON STAGE.

 

 

Legenda da foto: Ana Bento em “9_volfro6_ensaio musical4_josecruzio.jpg”

 

 

 

 

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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