|on stage#4 – Solos

por Jose Cruzio | 2014.12.22 - 11:19

 

 

Nas artes cénicas – performativas e em muitas ocasiões, falam-se de trabalhos a solo. Analisando bem, não se pode dizer somente a solo.

Excepto em casos muito específicos.  E ainda assim, muito raros.

Há sempre um trabalho coletivo, com “atores” e atos “invisíveis” na fase da pré-produção e produção, se bem quem atue no palco esteja a “solo”. O que é projetado ao olhar e ouvidos “focados” do público é, efetivamente, uma actuação solitária do/da performer se bem que acompanhado com a música e com a luz.

O desenho de luz, o cenário e a música, quando não do próprio,  são contributos de outrem. Se não houver algo mais, claro.  Resultantes de um trabalho de campo, uma troca de ideias, experiências e de metodologias. Um dos “pormenores” que nos escapa e que a isto se refere é a ficha técnica do espectáculo. Tanto no fim, quase que como nota de rodapé, da folha de sala. Ou mesmo do cartaz.

O que será visível e audível é a soma. Ainda que partindo do ímpeto e vontade individual, seja do/a coreógrafo/a/performer ou de outro do colectivo, em congregar equipa e esforços para  a sua “materialização”.

Em vários pontos  ou “centros” de criação/experimentação, tem havido várias produções de características e pontos de partida bastantes distintos.

Desde os mais “institucionais” como os grandes teatros nacionais e a rede de cine-teatros, à devida escala das respectivas cidades,  e como também às pequenas salas/centros criativos em vários pontos do pais, a respectiva programação contou com vários e diferentes “solos”. Muitas vezes, não os apresentando na sala principal mas no designado “Pequeno Auditório”. Que seja antes no “Pequeno” pois a sensação esmagadora de vazio no palco poderá ser intimidante. O profissionalismo não está em causa. Mas a percepção tanto do público como do actuante são fundamentais na “gestão” da obra desde o início até ao seu término. Um espaço mais “pequeno” potencia a “proximidade” e também  uma leitura mais intensa. Inversamente, potencia um maior detalhe de possíveis “falhas”. São pormenores que influem na “apreciação”. Noutras produções, exigem outros artifícios e meios técnicos e cenográficos não para “preencher” o espaço mas como complemento à performance do actuante. Que a obra cénica assim o justifica, na óptica dos colectivos criadores.

Já a “apreciação” final, cabe a cada um e de acordo com a sua sensibilidade.

Uma outra característica ou pormenor bastante importante  dos ditos “solos” tem a ver com um outro ponto de partida ou, se quisermos ser mais objectivos, o pretexto para  criação de espectáculos com um performer/actor ou bailarino solitário em palco.

Muito antes e num outro texto,  referi o “exaurir” de uma cumplicidade como  limite e ponto de ruptura. Se calhar não chegando a tanto, mas que pode ser algo a ter em conta. Como um factor possível entre muitos outros. A ânsia pessoal em experimentar; o deixar a “zona de conforto” e  correr outros riscos,  por exemplo.

Num percurso profissional e artístico, acaba por ser um desafio enriquecedor, seja ele positivo ou negativo. O trabalhar com outros profissionais, de diferentes coordenadas artístico-intelectuais; com novas e refrescantes “formas” de  se fazer expressar. Não será de ânimo leve a tomada de consciência dos desafios tendo como fim último um cada vez maior leque de competências.

Nesta alínea, vêm-me à memoria todo o trabalho desenvolvido pela performer/bailarina Leonor Keil. De “Noite de Reis” com encenação de John Mowat/Chapitô à colaboração com Olga Roriz, “materializada” em “Bits & Pieces“, onde “A escrita da história é claramente uma construção:
nós ligamos pedaços do que nos chega às mãos através dos séculos
de forma a criar um quadro convincente do passado.”

A convite da Companhia Paulo Ribeiro assim surge este inesperado
reencontro de duas mulheres separadas há décadas pelo fio que as une, a dança.
Leonor mergulhará nas suas memórias enquanto eu traçarei o percurso da sua viagem. Armadilhadas de tudo o que vivemos e despidas do saber uma da outra vamos por fim acertar o passo por instantes.
E quiçá, descobrir que nunca nos separámos. (Olga Roriz, 3 Maio 2013); do experimentalismo performático assente na apropriação e “ocupação” de um espaço deveras particular de “A Casa”, com vídeo da minha parte e música de Jaime Reis e Leonardo Rosado –“> ; de “Como é que vou fazer isto?” de Tânia Carvalho até “Miraginava” de Joana Providência há todo um caminho bastante diversificado e bem rico. Se me esqueci de algum, as minhas desculpas.

Outro performer/bailarino que tem procedido com actuações a solo e a um percurso diversificado,  Romulus Neagu,  também demonstrou apetência por novas experiências. Desde os projectos “A Casa” (sendo eu o videasta e com música de Jaime Reis – “> ) e noutro, apesar do mesmo título, com João Dias, a outras andanças performáticas em diferentes e singulares lugares.

Na perspectiva dos próprios, é de saudar. O risco do “salto em frente”. Na de quem os acompanha e ao seu percurso, as suas ilações. Na perspectiva do público, haverá diversas apreciações.

Aqui, convirá referir, honestamente, os que vi: Solos.

Dos ditos “solos”, houve vários nesta temporada: “A Sagração” de Olga Roriz, com a música de Stravinsky  reinterpretada por Luís Tinoco e vídeoprojeção de João Raposo;  “E Pur Si Muove” de Francisco Camacho, estes na dança.

Na facção teatral e na mesma linha de entendimento – já chamados de monólogos, “A Hora que passa” de Lorenna Mesquita/Fábio Brandi-Torres (Srt.ª Lô Produções/Brasil), por exemplo.

Noutros lados, nos próprios centros/residências artísticas. E, na grande parte das vezes, como “ante-estreias”. A “ante-estreia” pode permitir futuros acertos, consoante a leitura que lhe for feita.

Para este texto enfocar-me-ei em “Stretto”, uma criação de Romulus Neagu, com João Dias (stage designer e vídeo) e Ulrich Mitzlaff, na música. Primeiramente apresentado no Festival “Palco para Dois ou Menos”, no pequeno sítio de Oliveirinha, no Carregal do Sal e, posteriormente, como peça de abertura do Festival FINTA’14- Festival Internacional de Teatro Acert de Tondela. Uma “ante-estreia” como resultado final de uma residência artística e uma estreia num Festival de maior projecção. Um percurso. Medeado  por novos contextos, percepções e interpretações. Para além de um lapso de tempo considerável.

Entre as duas apresentações, houve diferenças: no sentido do “aprimoramento” e na “ consubstanciação”. Mais perceptíveis aos co-criadores do que ao público, é verdade. E no ponto de vista do colectivo. Quanto ao público, não o sei. Foram diferentes públicos. E situações.

Partindo da poesia de Paul Celan, das experiências acumuladas ao longo do seu percurso também como das suas vivências enquanto cidadão, o performer /bailarino evoca e manifesta-as, através da dança a solo num mundo materializado num piso e caixas de cartão pintados de branco mate.

Será o seu playground. Singelo, só com o desenho de luz; expressionista,  aquando a sua “travessia” por uma densa “floresta” videográfica; agressiva e inquisitiva, quando interpela o solo que pisa à procura de possíveis vozes que respondam ao seu chamamento; transformador, quando modela o seu  mundo o re-construíndo com as caixas; recordando os entes e memórias perdidas abraçando e embalando uma das caixas sob a ténue luz de uma das lâmpadas; o frémito inconstante jogando com um sabre de luz. Um todo percurso espelhado na sua actuação solitária. Mais não conto. Assistam, se tiverem oportunidade.

Talvez esteja fugindo ao essencial do texto. O trabalho a solo, tal e qual como deveria ser considerado.

Solos que efectivamente não devem poder ser chamados de solos. Que o sejam no significado de actuar solitariamente em palco.

Para além disso, terei as minhas reservas. Que não seja impedimento para assistirem a produções baseadas ou com actuações solitárias em palco. Que hajam muitas e boas.

Ainda abordarei novamente esta temática. Até lá.

stretto2_folhadesala_josecruzio

 

Legenda:
primeira foto: 6_stretto_acert_josecruzio.jpg
segunda foto: stretto2_folhadesala_josecruzio.jpg

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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