ON STAGE#3 – Play False

por Jose Cruzio | 2014.11.29 - 17:55

 

A “continuidade” poderá ser confundida com a “estagnação” da imaginação ou do espírito criador, como se houvesse a “obrigação” de sempre inovar.

Muitas vezes, com o medo do risco, a cumplicidade não gera novas ideias potenciadoras da interação com um novo “outro”.

Uns casos até se confirmam, indo até à “saturação”. Noutros, nem tanto assim. Mas este é um ponto de vista singular, o meu. Não coincidente com muitos, eu sei. Terei que conviver com isso, claro. E se pensarmos de outra forma?

Ao entendimento de “continuidade” podemos sobrepor o argumento da importância do “aprofundamento” da linha de pesquisa. Válido, se verificado. Mas muito depende da apreciação do espetador. Do lado do co-criador, haverá que ter a certeza da validade do argumento.

A cumplicidade entre os atores/performers deve ser entendida como o ir “mais além”, na interacção e na exposição do seu íntimo, através da expressão e do movimento, perante plateias de gente anónima e ao longo de tournées programadas. E idealizando outras não concretizáveis, não por falta de tentativas. Mas isto já dará outra linha de textos. Tudo a  seu tempo.

Entre ambas, há frutuosas relações entre encenadores e actores/performers,  mesmo entre os outros elementos do coletivo.

Um dos momentos possíveis para as aferir são as estreias absolutas na cidade dita “natal”, em todos os anos. Outras em temporadas específicas onde retornam com novos trabalhos. Nesta última e num espaço de tempo que medeia dois anos, tive a oportunidade de rever uma deliciosa parceria. E um novo trabalho, “Play False”, uma renovada parceria de António Cabrita e São Castro. Ainda que o dispositivo cénico se mantenha inalterado: a sua “caixa negra do palco” e o respetivo jogo de luz. É a simplicidade dos adereços e da cenografia.

Longe de mim tentar  assumir um outro papel que não de um expetante espetador. Com alguma liberdade, escudar-me-ei  em alguns dos pensamentos de Oscar Wilde:

“O crítico prefere as obras que fazem meditar, sonhar, imaginar; as que possuem o dom subtil da sugestão e parecem segredar-nos que encerram em si mesmas os elementos que nos abrem o caminho para um mundo muito mais  vasto.” in “O Crítico como Artista” (2011:141 e 142)

Daí a possibilidade de ser suspeito na apreciação. Suspeito de “ir ao que sempre quero ver” ainda que quando posso e, humildemente, admita que haja tanta coisa interessante e muito boa a acontecer. Mesmo que os hajam com intérpretes/atores amadores. Não farei essas distinções e nem interessa para aqui.

Mesmo que Wilde nos diga:

“A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital” (2011:116)

Mas para tal diversidade se manifestar e “torná-la complexa e vital”, tem que haver algum feedback; que pode ser uma troca de ideias, opiniões e de possíveis outras hipóteses. Que o espaço de opinião seja, muitas vezes, o foyer e no fim do espectáculo ou de uma projecção, já é normal. E que outras, sejam em pleno auditório e em conversa informal com os intérpretes/co-criadores. Ainda que correndo o risco do “julgamento” estar afetado no rescaldo da estreia. Para uma “visão mais fria” do que se passou, podem preferir algum distanciamento.

Um jogo com o espetador inicia-se quando se adentra pela plateia e vendo os intérpretes num momento de pausa. Observam-se. Levantam-se e, da parte da performer e em si mesma, há um “despejar” de água como que um baptismo iniciático.

O palco obscurece-se. Dá-se início com a transfiguração dos intérpretes em simulacros.  Os “Outros” que se criam em palco e se projectam ao olhar e audição focados do espetador. Unicamente atuando sob focos de luz e numa imensa blackbox. Vistos da plateia, não só entre eles mas também com os seus reflexos através do fino lençol  de água, sobre a qual a intérprete inicia o seu solo. Um jogo que tem diversos andamentos. Isoladamente, dançando em solos, ou em conjunto, como cúmplices. Uns momentos que são mais intimistas, outros mais agressivos, visual e fisicamente. Para não quebrar o mistério e o desejo de futuros espetadores em ver a peça, não a descreverei em pormenor, senão num ponto mais.

 

Uma das “sugestões” que mais me marcou, em contraponto ao “artificialismo” da expressão/movimentos da performer à boca de cena,  foi a total empatia pela dança, no fundo da blackbox e sob um foco de luz,  com movimentos e ritmos tão naturais que qualquer um de nós, espetadores, o fazemos durante um live act ou concerto quando tão “embalados” pela música. Numa performance e numa área que muitos apelidam de “elitista”, com um olhar atento, surpreendeu-me. A outros mais “calejados” nestas sendas, pode não surpreender.  Mas que “segredou” outros caminhos para algo muito mais vasto, sim. Incluindo a troca de “identidades” somente assentes na troca de dois adereços. E os gestos? De tão usuais, ainda outra surpresa nesta performance. A trilha sonora composta com a junção de Murcof com Johann Sebastian Bach. Inesperada dupla.

As epifanias, se as houve, têm o seu valor e consoante o espetador.

Da “continuidade”, a sincronia dos dois simulacros nos movimentos e nos segmentos de diálogo. Do “aprofundamento”, o jogo de opostos: se são síncronos/assíncronos, se são cúmplices/isolados; o artificialismo/a normalidade. Da “cumplicidade”, o extremar do risco e da interacção. Expôr-se mais.

Ainda assim e em outros coletivos, avistam-se limites. De parte a parte, a vontade em criar rupturas e explorar novos caminhos com novos intérpretes. Ou retornar à aparente simplicidade dos antigos.

Imunes não estarão estas parcerias a novos paradigmas. Rupturas. Não resultados que alguns possam apelidar de “fracos” mas diferentes. Enriquecedores, de algum modo. Ao espetador exige-se também abertura de espírito. Sob pena de se “enfiar” numa visão conservadora e “monocromática” do mundo.

Que somente este texto, à falta de imagem a ele correspondente, sugira uma “visão imaginativa” das “sugestões “ que me deu.

 

WILDE, O. (2011).”Pensamentos”. Edições Relógio d’ Água:Lisboa

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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