| ON STAGE #5 – Solos 2

por Jose Cruzio | 2014.12.30 - 14:19

Num outro texto  abordei a temática das actuações a solo. Se bem que tenha manifestado as minhas reservas quanto à caracterização do espectáculo como um solo quando o seu resultado é uma soma de várias competências e indivíduos que pertencem ao colectivo criador. Ainda que a ideia tenha sido de um dos membros do colectivo ou daquele que irá actuar.

Um eloquente exemplo deste ímpeto encontra-se espelhado na reportagem do jornal Público de 12 de Dezembro de 2014  e da autoria de Gonçalo Frota ( p.28 | Cultura) e a propósito da re-“apresentação “ de “ Os olhos de Gulay Cabbar” de Olga Roriz.

Para uma ideia criativa ou de criação, pode concorrer muitos factores. Muitas vezes, completamente díspares entre si. Para a peça em si, houve factores que, se calhar, nem sequer se lembra ao comum dos mortais.

Na junção de diferentes factores tais como uma viagem de táxi, o folhear de uma revista, o fixar o seu olhar numa “imagem fantástica de uma mulher, dentro de um carro enlameado, com o pescoço estirado para trás” e, em seguida num jogo mental  da performer/bailarina, as ilações com outro “desconexo artigo sobre eczemas” na página atrás da que continha a imagem, permitiram a ideia de uma criação.

É o solo que anda mais perto do meu próprio corpo, sou eu mais nua, num sentido lato. Na altura, por via daquela personagem e daquela situação, fui encontrar uma série de coisas muito minhas, muito autobiográficas, e estou ali instalada nas minhas facetas mais ternas, mais agressivas, mais dramáticas, mais sensuais.”

Ainda que o lapso de tempo seja grande (catorze anos) e as circunstâncias tenham bem como a perspectiva da coreógrafa tenham mudado, não implica que tal “olhar” e “leitura” tenham deixado de ter a sua validade.

Um outro pormenor ressalta desta criação como em muitas outras já antes estreadas e com outros colectivos. Acontece, por vezes e por motivos de força maior, que a performer/actriz ou bailarina não ser a anunciada. Que haja “delegações”, há. Para este texto serve o exemplo invocado e com o seguinte extracto:

“Impedida, em virtude de problemas físicos do momento, de voltar a habitar em palco a personagem que compôs para Gulay Cabbar, a coreógrafa legou em Marta Lobato Faria o desafio de encarnar esta mulher “roubada” à realidade.”

Que tal delegação ou legado  tenha que ser forçosamente negativa, não é. A expectativa do público em ver quem esteja anunciado é que pode sair defraudada. Ainda assim, o ser humano também é falível. Como aquele que também tenha capacidade de ter a clareza de pensamento inversa ao não aceitar tal facto. E imprevisibilidades.  As estratégias para “debelar” tais imprevisibilidades são muitas. E obedecem a critérios que passam despercebidos ao olhar do público, na maioria das vezes. Critérios essenciais por quem delega.

“O casting, no entanto, não foi tarefa fácil e Roriz admite que só nesta bailarina encontrou o conjunto de caraterísticas que entende serem essenciais para a peça.”

“O lado masculino/feminino, a força física e muscular, a delicadeza, o estado zen, o gostar e degustar os movimentos lentos, a parte muito sensual, o lado dramático”, descreve.”

Como em todas as reposições, as circunstâncias como o olhar mudaram. Os lapsos de tempo como os contextos podem variar bastante. Até a percepção de si, agora no “outro lado da barricada”, também varia. Com o tempo e até com as circunstâncias.

“A lentidão dos movimentos é, de facto, uma das chaves da coreografia, como que evocando paradoxalmente o momento de pânico vivido por Cabbar, enquanto o seu carro hesitava em abandonar-se à correnteza, Mas até para a criadora essa vagareza é surpreendente.“É curioso, não tinha a noção de que era assim”, diz reflectindo sobre como se observou nas gravações em vídeo e dirigiu a nova vida do solo no corpo de Lobato Faria. “Tive uma sensação estranhíssima, como se não reconhecesse o solo, porque lá dentro não é nada lento, é muitíssimo esquizofrénico.”

Que o acto de criar, ou melhor, “re-criar” não é assim tão linear, já vimos.

Ainda mais quando a interpretação é delegada em outrem, noutras circunstâncias e com outra “jovialidade”.

Em suma, um pequeno retrato de uma visão para uma interpretação a solo.

Mais intimista, mais despida e com mais de si. Arriscada? Mas honesta.

 

 

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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