| ON STAGE #2

por Jose Cruzio | 2014.04.04 - 12:46

Deixem-me fazer a seguinte afirmação:

“A criação, final e efetiva, de uma peça teatral só ocorre no usufruto de quem a frui”.

Tive a liberdade, talvez extrema, de fazer um paralelismo com a arte. Seja ela performativa ou não. Que a criação última vem da parte do espectador. Estranho?

A alguns, não. Para a generalidade das pessoas, é uma hipótese bastante provável. Ser “esquisita” esta formulação.

É na fruição, assimilação e usufruição que se revela na sua plenitude. O que lhes é  mostrado é uma proposta, de imensas possíveis, de “materialização” de um texto dramatúrgico. E que na sua génese está um coletivo cénico-performativo, constituído por várias pessoas e de diversas áreas. De vários “mundos” que constituem o universo do teatro cujo interesse é de “corporizar” e “materializar” um texto que tanto os estimula. E que pretendem mostrar. A seu modo.

Podendo  ser  também de  Marguerite Yourcenar, Shakespeare, Anton Tcheckov, Bertolt Brecht ou, mais recentemente, de Helena Tornero a partir de Ramón Llull. Ou mesmo Aquilino Ribeiro. Só por falar em projetos nos quais estive ou estou envolvido. Noutros coletivos performativos, o pressuposto – base acaba por ser quase o mesmo. Mesmo na dança.

Seja como  ator | figurante, de apoio a bailarinos profissionais em coreografias com a presença da comunidade, ou como proponente e concretizador de projetos de vídeo performance, de leitura de conceitos e de espaços através da dança.

De um singular modo, este capítulo | ON STAGE, acabará por ter um seu quê de biográfico e de testemunho. Obviamente, terei ainda caminho para percorrer, se ainda houver. Com o tempo e vontade, que venha mais caminho, desde que seja enriquecedor, profissionalizante embora não deixando de ser prazenteiro. Quem corre por gosto, não cansa.

Um texto. Uma proposta de trabalho. Um coletivo, no qual se prontifica o encenador – um maestro, atores, cenógrafo, figurinista e aderecista, um “desenhador de luz”, um “desenhador de som”,  designer gráfico, técnicos e, por fim, o produtor. Neste ponto, julgo que desconfiaram de alguns dos termos anteriores. O som “desenha-se”?!

Um pormenor: considerem-no como uma corruptela, de boa-fé, do anglicismo sound designer. A faixa sonora é criada, a partir do nada ou de elementos pré-existentes, como sons avulsos, ou então com um alinhamento de canções para  criar o ambiente necessário à peça teatral. Também para realçar tanto os momentos fulcrais de cada personagem e das cenas. Com a luz, acontece o mesmo. Logo são “desenhados” com esse propósito.

Existem peças com uma fabulosa noção da importância do som e da luz na criação. A meu contento ( e daquilo que vi, claro): no som, a Wasteland, de António Cabrita e São Castro, com faixas que reconheço como sendo de bandas minhas favoritas. O som incorporado na proposta de criação. Até a luz, bem crua numa black box onde se materializou como complemento necessário à proposta de criação. Afetou-me, sim. Num bom sentido.

A luz… ainda a meu contento: de alguns, a concepção de luz em Robert Wilson como em Worm d’Assumpção e os trabalhos de luz de Nuno Meira. Próximo, o trabalho de luz de Cristóvão Cunha. Por vezes, são tomadas opções que podem  “arruinar” um soberbo trabalho de luz. Opções quer de ordem estilística, de metodologia ou de planeamento sequencial como de estrutura. Mas prontifica-se, invariavelmente, a perspetiva do encenador ou do coreógrafo. Noutros casos, nem tanto. De ambos, há o positivo e o negativo. Resta saber contrabalançar no devido momento.  Ou então, ter senso e ter equilíbrio. A subjetividade na apreciação permanece. Sempre.

Num outro patamar, poderia evocar espetáculos, que apesar de recorrer a programações específicas, em que a luz é fundamental. O trabalho conjunto de Murcof com os AntiVj; de Amon Tobin, partindo do seu álbum ISAM; de Ryoji Ikeda e nos seus vários trabalhos; de Rui Horta para os Micro Audio Waves. Isto tudo como exemplos nas linguagens das “eletrónicas”. Noutras linguagens, o dispositivo tende a ser mais simples. Desde uma luz crua a uma sequência de “disparos” aleatórios de luz (ou não).

Evidentemente que não tenho lá grande background de conhecimentos na área do desenho de luz para poder mencionar outros mais. Falha minha que ando a tentar colmatar. Aos poucos, lá vou tentando. Até mesmo experimentando a função de operador de luz. Com tanto “botão” ou reóstatos, é preciso um autocontrole e atenção inexcedível. Eu que o diga.

Em palcos diversificados, variando entre o que parece ser uma arena, noutros, um estrado levantado rodeado de frisas decoradas com tons de dourado ou uma árida blackbox, um  outro mundo sobressai, à vista: a cenografia e os figurinos. Em ambas as áreas e, ultimamente, têm havido experiências bastante enriquecedoras e, nalguns casos, memoráveis. Das quais ainda ressoam ecos em diferentes planos como o político. Infelizmente, e dependendo do “fervor ideológico”  ou, melhor, da “estratégia visionária” da governança do momento, estas experiências não se “estabeleceram”. Nestes pontos e neste retângulo,  bastaria evocar os episódios positivos de Paolo Pinamonti e os negativos de Dammann. Servem estes de pequenos apontamentos. Partam à aventura e descubram.

Das construções  cenográficas mais “convencionais”- em cima de um palco e segundo as convenções – às experiências de “redução“ – less is more! – nas quais o “ruído visual” é reduzido a um patamar minimal e, por vezes, angustiantemente árido e fazendo-nos focar no trabalho do ator. Com riscos inerentes: terá que ser bastante versátil e intenso. Penso em Peter Brook. Existem, sim, outros mais. Para agora, que este sirva de exemplo.

Noutras, o palco confunde-se com a plateia, em que a cenografia se articula com a envolvente ao público.

Radicalismos, também os há. Para quem não é do meio, é verdade. Que possam ser abordagens demasiado radicais para o que estavam habituados. Sumamente impressivos como a tetralogia de Wagner, por Graham Vick e no Teatro Nacional São Carlos, na qual a plateia é transformada num autêntico palco “wagneriano” se bem que depurado; outros, imersivos e deslocalizados em ambientes urbanos como palacetes ou o casco histórico das cidades. Um paradigma possível poderá ser o trabalho de Joana Craveiro e o seu Teatro do Vestido. Ou as Comédias do Minho. Entre muitos. Felizmente.

Outras vezes, o palco é algo inesperado: podendo ser um vagão  ou carruagem em andamento – aqui repesco Patrice Chéreau com “Quem me amar irá de comboio”. Apesar de ser uma longa metragem, defendem que aqui há uma visão singular e teatral. Digna de Chéreau. Que haja coletivos  que usem dispositivos cénicos e palcos inesperados, há.

Nos figurinos, vêm-me à memória  os de Colleen Atwood cujo trabalho assenta nos figurinos para o cinema, bem sei. Com tarefas quase “hercúleas” e ingratas:  a pesquisa de elementos históricos e contemporâneos;   o conciliar com a visão do encenador; a pesquisa de materiais adequados e os possíveis por uma questão de adequação ou de orçamentos. Desde fatos de época à simples utilização de uma prótese. Nestes últimos, falo em Chouinard e o seu  peculiaríssimo “Orphée et Eurydice” ou, então, de Rui Horta com Scope.

Muitos “mundos” num só universo regido por um maestro. Cada um competente na sua área de intervenção e com a responsabilidade de manter o funcionamento da sua parte da engrenagem. Assim é uma criação cénico-performativa: uma autêntica máquina que tenta provocar o desejo de ser vista.

Como veem, este post tem o seu quê de autobiográfico. Mas este autobiográfico é, certamente, comum a muitos outros. Assim já fica para uma possível e parte de uma  “memória futura” deste vosso autor.

Post-scriptum: que estas referências sirvam para novas descobertas.

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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