| ON STAGE #1

por Jose Cruzio | 2014.01.27 - 09:44

Finalmente, começo o capítulo  | ON STAGE.

O início de um conjunto de textos ligados à fotografia das artes de palco.  Textos espaçados, obviamente. Mas antes, devo esclarecer. De peças teatrais, concertos e performances que exigem uma nova perspetiva da fotografia de palco. Ou de espetáculo, como quiserem.

O que é certo é que é nesta área que desenvolvo grande parte do meu trabalho. Entusiasma-me  trabalhar nas diferentes “artes de palco”, com os diferentes coletivos e processos criativos, sejam eles artistas amadores ou profissionais. Neste parâmetro, não faço distinções, se bem que haja convenções que a isso nos “obriga”. Diz um encenador amigo: existem amadores mais profissionais e versáteis do que alguns que se dizem e são considerados profissionais de palco.

O teatro acaba por ser um autêntico universo. E com vários “mundos”, mesmo que só vejam o palco e a plateia. Aos muitos, para quem existe o estereótipo de uma arte que implica um palco, camarins, cortinas, plateia e frisas, desenganem-se. Continuam a existir, isso sim. Ainda são construídos novos equipamentos com este figurino, desta vez com “assinatura” de eminências pardas da arquitetura. E outros por não tão “pardas” figuras, mesmo que não tenham visto sequer uma única peça teatral. E com  consequências e  por muito tempo. Essas revelam-se ao correr do tempo e das várias programações.

O grande António Pedro, no “Pequeno Tratado de Encenação”, até nos dá uma deliciosa achega:

“O total desconhecimento da função dum chão de palco e a cretina estupidez de certos construtores (infelizmente, às vezes, engenheiros e arquitectos), fabricaram chãos de taco e cimento em certos teatros que infelizmente também há. Na impossibilidade de abandonar tais monstros, a única solução para os utilizar será forrá-los duma placa de soalho e  maldizer, a cada prego espetado, os autores da monstruosidade.” (1975, p.50).

Volto ao desengano. É necessário e vivendo nestes tempos de crise, falta de financiamento de uma ou outra “direção geral das artes”. Escrevo entre aspas. A nossa, se é que há, tem muito que se lhe diga. Submersa em indissiocracias várias, esmagada sob ditames ideológicos de vista “muito curta” e dominada pelo “eloquente currículo” de títeres humanos  filiados. Por vezes, emerge consoante os objetivos da ideologia dominante. Nem que seja para passar uma mensagem de “ultra-modernidade” de líderes do arco governativo, se bem que, por si só,  não percebam patavina dos artists statements dos que, posteriormente, serão identificados como “artistas do regime”. Penso eu. Ainda terei que comprovar. Só o tempo o dirá.

De cine-teatros, modernistas e alguns “valmorizados”, agora como lojas de grandes marcas e de outras nem tanto assim. Até de produtos chineses – aos quais nada tenho contra, ainda que dispense uma grande maioria. E cresce o número de petições para reconversão dos espaços à mesma Cultura que os desdenhou. O histórico e icónico tem o seu quê de charme e glamour. E  o seu preço.

Aos que serão postos em cena, programações possíveis com o pouco dinheiro atribuído. Contigências.

Com estas perspetivas, as companhias e coletivos reformularam estratégias e processos. Voltaram-se para espaços devolutos, tornando-os como seus. Antigos armazéns, vivendas de época, casas de caldeiras, oficinas desativadas, tudo serve. Até padarias. Adaptaram-nos com os materiais mais à mão e em conta. E quanto à comunidade, onde se inserem?

Para uma “ilustração” possível deste panorama, socorro-me de um pequeno contributo meu, UM PEQUENO ENSAIO SOBRE A CRIAÇÃO (OU COCRIAÇÃO?), COMUNIDADE E PÚBLICO (

http://dl.dropboxusercontent.com/u/90719797/bu/BU5_2013.pdf), publicado no quinto número da revista Boa União, do Teatro  Viriato:

A COMUNIDADE TORNA-SE, TAMBÉM, UM LABORATÓRIO VIVO.

COM AS SUAS SUB-CULTURAS E TRANSVERSALIDADE DE RELAÇÕES. OS SEUS INTERVENIENTES SÃO CHAMADOS A PARTICIPAR NA CRIAÇÃO. NÃO COMO COCRIADORES, NA MAIORIA DAS VEZES; MAS COMO MEROS EXECUTANTES DE PROCEDIMENTOS PRÉ-DEFINIDOS. AINDA QUE MÍNIMOS, É CERTO.

O RISCO É GRANDE E A VONTADE DE ARRISCAR AINDA MENOS. COMPREENSIVELMENTE.

O CONTEXTO INCERTO, DE FUNDOS RESTRINGIDOS POR AVALIAÇÃO (VAGA) E IDEOLOGIA (DA MATRIZ), A ISSO OBRIGA.

POST-SCRIPTUM: ALGO MAIS E QUE JUSTIFIQUE PELA SUA PERTINÊNCIA NO SEIO DA CRIAÇÃO CÉNICO-PERFORMATIVA (OU NÃO). É BEM VINDO, OBVIAMENTE…

ASSIM, EXIGE-SE UMA ESTRUTURA FLEXÍVEL E MINIMIZADA. ATIVIDADES COMO COMPLEMENTOS TRANSVERSAIS, NÃO ESTRUTURANTES MAS NECESSÁRIOS. CRIAM-SE REDES. PARCERIAS NÃO UTÓPICAS, MAS EXEQUÍVEIS.

INVOCA-SE A HISTÓRIA DA COMUNIDADE OU DE UM LUGAR SEM QUE A CRIAÇÃO TENHA ORIGEM NELE. TRANSFIGURA-SE A CRIAÇÃO, ADAPTANDO-A AO NOVO LUGAR OU COMUNIDADE, MAS NÃO ABDICANDO DOS PRESSUPOSTOS FUNDADORES. E ASSIM, DESLOCALIZANDO-SE AD INFINITUM… OU ATÉ ONDE DER. ATÉ ONDE DER, É VÁLIDA. A ESTRATÉGIA.

E AINDA A COMUNIDADE… É O SEU PRÓPRIO PÚBLICO.
IRONIA? ALGO MAIS? OU OUTRA COISA? (2013, pp. 38 a 43)

E é neste contexto  em que me movo. Também é neste meio que a minha prática fotográfica se desenrola. Com diferentes metodologias e resultados que mostrarei, futuramente.

Fiquemos por aqui e espero ter dado um pequeno aperitivo.

Para novos textos | ON STAGE, claro.

Uma pequena legenda: Llull_2fase_1José Crúzio/2013

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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