|ON FOCUS #6

por Jose Cruzio | 2015.03.06 - 23:44

“Num mundo culto temos uma conduta florida, e num mundo inculto temos discursos floridos”

Confúcio (2009;181)

 

Em diferentes épocas, a “cultura”, ou diferentes formas de cultura, têm sido abordadas pela política dominante ou, no presente caso e como exemplo, por indivíduos cuja identidade político-ideológica é assumida e por um governo dito “maioritário” ou não maioritário, conforme a perspectiva.

Qualquer que seja o indivíduo ou governo que for,  nada há a obstar. A cada qual a sua orientação mas, fazer ilações entre actos culturais esporádicos e contextualmente pertinentes, nos quais participam pessoas das franjas de uma comunidade, há que ter algum cuidado tanto a aceitar,  de forma leviana e sem cogitar sobre a motivação subjacente, bem como em a recusar, também de uma forma leviana, sem ter em conta o mérito da iniciativa cultural em si.

Não se quer retirar mérito a projectos destes. Quando fundamentados,  pertinentes, mobilizadores e qualitativamente significativos. Ainda assim, essa participação será sempre algo factual, limitado num espaço-tempo muitíssimo curto e preciso;  a alusão de outrem, que “se quer” afirmar como politicamente empenhado e seja de que quadrante for,  entre estes factos -acontecimentos  e  a “qualidade de vida” numa visão de sobrevivência a longo prazo, é, a meu ver, impertinente. Especialmente, quando são visados protagonistas oriundos dessas mesmas franjas da comunidade. Ora, se falando  entre um projecto artístico, com um horizonte delimitado pelas possibilidades e contextos que o permitam e a vivência, no dia-a-dia do quotidiano – onde a muitos ressaltam as dificuldades de sobrevivência, as actividades milimetricamente rotineiras e afastadas, muitas vezes, do que é a “casa”, no sentido vivencial – antropológico do termo, existe uma grande distância.

Noutro contexto e espaço – tempo, houve (sempre as haverá) as tentativas de “comparação” de programação entre dois ou mais diferentes equipamentos culturais quando têm espíritos e pressupostos totalmente diferentes. Neste aspecto, o cuidado de se só se referir ao gosto pessoal – desde que o refira, demonstra algum tacto. Todavia, muitos não se referem ao gosto pessoal mas “analisam” e tiram “conclusões” numa esfera que nunca foi a sua e de forma não tão “correcta”. E sem fundamentos que consubstanciam essas mesmas “análises”. Ainda que vejam a respectiva oferta (e provavelmente, “mais num lado que noutro”).

Por fim e nesta sequência, não devemos esquecer que cada projecto ou colectivo começou nalgum lado e a partir do nada (e sem fundos!). Da boa vontade, empenho, interesse e muito trabalho por detrás (ainda que nem sempre visível). Deste ponto de partida, cada um cresce(u), consoante as suas possibilidades, espaços de manobra  e engenho. Tudo isto, não  devemos minimizá-lo apesar de ser tão óbvio  à maioria. Nem que se deva utilizá-lo com iníquos pretextos ou falsos subtextos.

Na actualidade e da forma como se gerem os preceitos legais, até à data, a cada equipamento a sua equipa, seja ela uma companhia “residente” ou seja ela uma ligada a quem os financie; com os seus projectos específicos e as respectivas visões artísticas. Que poderão ser bastante díspares entre si mas não de “menor valor” ou de “menos valia”. Mas diferentes. Se complementares, tanto melhor. Maior a diversidade de oferta. Quanto mais por perto e sem ter que pagar portagens, melhor ainda.  Como bem vemos, já tal não acontece.

Desde que haja programação de qualidade, se bem que tal apreciação seja sempre subjectiva.

Além que tais alusões não são tão “inocentes” assim.

Por outro lado, não só aludamos a indivíduos com orientação político – ideológica  (im)precisa  – num contexto de “tempos líquidos”, como diria Zigmunt Bauman, onde nada é definitivo, nada é preciso – mas também a participantes, sejam eles quais for, de diferentes mundos da arte – especialmente, aqueles com percurso de programadores, investigadores e de curadorias. Nestes,  não se fala somente em orientações  artístico – curatoriais mas  também há a necessidade (fundamental) de  inferir  a política “necessária” e subjacente a fim de levar a “bom-porto” os seus projectos. Só assim, apercebemo-nos do contexto geral. E  teremos as nossas conclusões.

O homem, além, de ente social é também, tanto aberta ou inconscientemente, um ente político. Na complexa teia de relações sociais, dinamiza e implementa uma série de diferentes políticas visando diferentes objectivos. Sejam eles quais forem, haverá que ter em mente também o contexto, mais geral e na mesma área. Nem que seja para pequena análise.

Neste contexto e noutros, mesmo na esfera da cultura e seus participantes, vêm-me à memória autênticos “tratados” de como ser e agir. A alguns, será por demais perceptível – talvez por se “moverem” e “dominarem” esses meandros – mas à maioria, nem tanto.

Aqui “re-utilizarei” e adequarei ao meu raciocínio um deles, um delicioso “Pequeno Manual de Campanha Eleitoral” de Cícero, Q.T (2009), da  colecção Livros de Bolso – Série Grandes Obras da editora Europa-América:

“17. Em seguida, deveis esforçar-vos para que todos aqueles que vos são próximos, e sobretudo cada membro da vossa família, vos amem e vos desejem o maior sucesso. O mesmo se aplica a todos os cidadão da vossa tribo, aos vossos vizinhos, clientes, homens livres e até escravos, pois os propósitos que estabelecem a reputação de um homem emanam quase sempre das pessoas da sua casa.” (2009;22)

E mais:

“18. Em segundo lugar, tereis de travar amizades com diferentes espécies de amigos. Pela aparência: personalidades com visibilidade cuja honra e nome são conhecidos (ainda que não façam prova de qualquer zelo para apoiar uma candidatura, estas amizades conferem um certo prestígio ao candidato. (..). Esforçai-vos em particular para mobilizar e garantir o apoio daqueles que, graças a vós, possuem – ou esperam vir a possuir – uma tribo, uma centúria ou qualquer outro favor.(..) Assim, usai todos os meios que tendes à vossa disposição e esforçai-vos para que esses homens vos apoiem com convicção e muita dedicação.”(2009;22 e 23)

Convém, desde já, fazer uma pequena pausa e ter um outro olhar – ainda mais distanciado e, se possível,  ainda coerente. Pois há mais que abordar.

Para terminar este pequeno discurso, remeto-vos para a expressão de Confúcio transcrita no início deste texto e retirada do “Dicionário de Citações” de Paulo Neves da Silva (Âncora Editora).

Até outro | ON FOCUS.

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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