On Focus 5# Parte 2

por Jose Cruzio | 2014.11.17 - 11:34

 “Não se encontra o espaço, é sempre necessário construí-lo.” (BACHELARD, G. in O NOVO ESPÍRITO CIENTÍFICO).

Continuando o texto anterior, irei fazer um jogo nestas páginas. De palavras, parágrafos, referenciais  e raciocínios. Tomarei como ponto de partida e apropriando-me da expressão de Peter Brook,  os “espaços vazios”.

Um jogo algo libertário  acerca do que se entende como “espaços vazios” e das infinitas possibilidades de seu  preenchimento.

Existe um imenso manancial de “espaços vazios” – seja ele um antigo matadero, um cour-d´honneur de um palácio de antigos Papas, um belo palco à italiana de um teatro municipal reconvertido, um imenso contentor reconvertido numa  Black Box, uma cela de um antigo convento agora dedicado à causa da criação humana e não divina ou uma anónima eira numa das vastas planícies onde se quer “escrever na paisagem” entre outros. Há todo um potencial.

Diferentes lugares e ainda assim invulgares, no seu historial e perfil. Múltiplos tabuleiros e, por vezes, na mesma cidade. Uma das grandes dificuldades é uma mudança de visão quer particular e quer global para enriquecer o espaço construído com outras formas de intervenção cultural. Felizmente e com o tempo, tem havido propostas de diferentes coletivos. Não deixando de ter como ponto comum o envolvimento do espetador. Todavia,  julgo que deverá haver um certo cuidado neste aspeto. Envolvimento não implica essencialmente a imersão do mesmo numa obra, com todos os sentidos ativos e em pleno jogo de fruição e usufruto da mesma.

Da visão e audição focadas num bailado para o estranhamento e espanto percetivo quando parte dos bailarinos “assalta” a plateia fazendo-a como que parte do conjunto; o público em todos os lados do palco, focado, ao assistir e fruir do que se quer como intimismo de uma coreografia ou do jogo de atores baseados num texto teatral; fazer o público ou parte dele participar, mediante indicações, para parte de uma criação muito mais abrangente e fora da sua perceção global.

São estes uns dos poucos exemplos com que pretendo demonstrar o cuidado que é necessário quando se analisar o conceito de “imersão”. Na sua globalidade e pelo menos como a entendo.

Com justiça, e sendo o mais certo, quem poderá afirmar “imerso” e em “interação” tanto entre si como com a envolvência será o performer ou o bailarino. E isto numa criação-cénico performativa. Neste campo, e relativamente à participação e à interação do espetador, subsiste uma outra problemática. Operativa, metodológica e, principalmente, num aspeto que considero importante: a efetiva contribuição individual, sejam elas nas memórias “cedidas” como na expressão psico-motora sensível  – à sua medida e plena, e, por fim,  participação bem e não subrepticiamente conduzida do futuro espetador/participante na pré-criação.

Evidentemente que em outros campos artísticos, efetiva-se de diferentes modos. Variando de projeto para projeto como na forma que se pretende como haja essa imersão/interatividade. Provavelmente, serão mais subsconcientes dos propriamente visíveis essas reações finais. Melhor experiência do que “entrarmos” e “experimentarmos” não há e nem haverá. Mas com a envolvência plena dos nossos sentidos ativos, maior o potencial do impacto.

Experimentem esta abordagem.  E que hajam boas experiências.

 

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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