| ON FOCUS # 4

por Jose Cruzio | 2014.02.07 - 14:53

“Com a excepção de uns poucos criminosos, toda a gente aspira a ter uma alma pública, uma alma-cartaz. ”

Emil Cióran

Inicio a primeira de três partes sobre a “alma_cartaz“. Começarei pelos “primórdios”. Não num sentido histórico. Daria uma obra volumosa. Todo o saber compilado seria uma tremenda biblioteca. Maior que as da  antiga e nova Alexandria juntas. Missão impossível. A finitude humana  tal não permite. Falo por mim.

Farei uma pequena crónica – ensaio, daquilo que vi e relembro.

Dos constantes visionamentos na televisão e a altas horas, naquela época, como na visão de cartazes colados nas paredes dos cine-teatros (antes dos inenarráveis monstros arquitetónicos, agora quase vazios e que quase nos faz querer trucidar esses construtores!) retenho a fotogenia das estrelas do star-system e o excelente “gosto” dos fotógrafos de cena.

Quem não se lembra de fabulosos cartazes onde surgiam Rita Hayworth, no fabuloso Gilda; Marilyn Monroe, em Niagara ou em Os Inadaptados; James Dean, em Fúria de Viver; Orson Welles, no seminal O Mundo a seus pés? Com a crescente importância dos protagonistas e a tentativa de preservá-los,  os estúdios de cinema impuseram contratos com cláusulas, muitas vezes, abusivas. Cada vez mais eram o veículo imagético e primordial dos filmes produzidos pela indústria. Criou-se o star-system. Um mundo que “tinha mais estrelas que o Céu”, parafraseando o slogan da MGM. Com este mundo, modelos a seguir. Pelo menos, nos padrões de beleza e nos modos de “se estar e de viver a vida”.

No plateau, as fotografias de cena, necessárias para os grafismos dos filmes, serviram também para alimentar os sonhos (e alguns pesadelos) dos espectadores. Vêm-me à memória várias cenas:  da praia de Até à Eternidade, com Burt Lancaster e Deborah Kerr;  Marilyn, no inacabado e premonitório Something Got To Give; Robert Mitchum, em  Night of the Hunter. Talvez peque por não evocar exemplos recentes. Como disse, fui aos primórdios. E há muitos e fabulosos exemplos. Tesouros, mesmo. Tentem revê-los.

Fora de cena, houve ensaios fotográficos e, muitas vezes, na intimidade com a conivência das próprias estrelas e dos Estúdios.

A par com o crescimento dos media, aumentou o interesse nas suas vivências quotidianas e sem glamour. Com os seus vícios privados. E fora do controle da indústria do Cinema.

Resumindo, públicas virtudes e vícios privados. Ainda não posso falar em “alma_cartaz”. Avante.

A película e o filme.

Primeiro, a preto e branco; do grayscale para as cores generosas do Technicolor (que continua imbatível apesar das mais recentes tecnologias! Falta o “olho”  de quem o tinha, na altura. Da tecnologia, não se fala. Morreu. Se, por enquanto, não sei. Mantém-se a esperança de “reviver” novamente. Perto, perto, talvez “Far from Heaven”, versão  de Todd Haynes de  “O que o Céu permite/All Heaven Allows“. É uma hipótese, a meu ver…)

Dos tons do realismo agreste para as cores pardacentas dos anos sessenta e setentas. Das cores saturadas para as “virtuais” do CGI. Uma toda evolução. Como dirá Marc Cousins, a base do cinema é a inovação. Pode ser discutível, mas tão bem exemplificou no que considero ser uma das Biografias e Odisseias do Cinema.

Falei no Cinema, mas a fotografia está na sua génese. Ao que se lhe acrescenta o movimento, ininterrupto, e a projeção através da luz e da lente,  o que lhe configura uma dimensão quase imersiva. O 3D não passa de uma tentativa mais aproximada da “imersão”. Não duvido que lá chegue e assim espero. Mas também dependendo dos filmes. Há coisas que são bem dispensáveis.

Comecei esta crónica-ensaio no Cinema, mas lá vou para a Fotografia.

Os cartazes. Podem ser graficamente concebidos, como muitos de Saul Bass ou, recentemente, como os de Frank Miller, vindo do universo da banda desenhada. Um outro  ponto de partida, uma das fotografias de cena, escolhida como supremo veículo imagético para introduzir o espectador no ambiente do filme. Às vezes, explícito como não. Ao espectador, as suas expectativas cumpridas ou não. Por fim, com a imagem digitalmente manipulada e fortemente gráfica. Para os “mais novos”, posso evocar os cartazes de Sin City, de Robert Rodriguez, ou Death Proof, de Tarantino. Nos meus favoritos, Kill Bill, com a deliciosa interpretação de Uma Thurman. Há inúmeros exemplos. Ou seja, a cada filme, a sua “alma_cartaz”. Digo filme, pois cada vez mais são ficheiros digitais. E não película. Se bem que haja, felizmente, alguns corajosos  “gauleses” pelo mundo fora. Ou “lusitanos”.

Os ensaios fotográficos. Autênticos portefólios de profissionais contratados pela produtora, como de tarefeiros fãs dos protagonistas.  Das rodagens e outros momentos no set. De Os Inadaptados, uma ambiência de western e, simultaneamente, de um delírio semelhante às pinturas de Edward Hopper.  Costumo também fazer mais paralelismos com as obras de Andrew Wyeth. Mas  isso sou eu.

Outros que, inicialmente, se pressupunham privados. Mas não. Mais “achas” para alimentar os sonhos. A sensação de pertença à intimidade do ídolo, o fazer parte do seu meio íntimo. Mesmo que através de um livro.

E na atualidade, a “alma_pública” reveste-se de muitas formas. Com uma presuntiva equivalência ao antigo star-system.

Os media impressos, contínuas entrevistas, quase sempre com o mesmo tema  e sessões fotográficas. De promoção como do quotidiano. A mesma “alma-pública”, na sua vivência privada e constantemente “não-privada”,  pode não ter o mesmo glamour. As sucessivas imagens em poses e entrevistas polémicas, não só nos tablóides, mas à mistura com vulgar entretenimento televisivo, a isso ajudam.

Uma relação ambígua, a nossa com os nossos ídolos.

Uma pergunta: e nós?

Assim me despeço. Até à segunda parte deste post.

Uma legenda: ” Suspenso(s)_Sónia_ensaio1″ ©José Crúzio

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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