| ON FOCUS #3

por Jose Cruzio | 2014.01.17 - 15:04

Tive muitas dúvidas quanto a inserir este pequeno ensaio neste capítulo. Poderia ter incluído em | MEAN STREETS.  Porquê, perguntarão. O tema bem como os motivos podem surgir nas cidades em diferentes longitudes e latitudes. Sejam elas a caótica e violenta   São Salvador,  a  seca Tijuana,  Paris – a Cidade-Luz ou, mais próxima, o nevoento Porto ou a quase árida Palestina.

Sei que são cidades e geografias bastante díspares, pelo que estranham. Se falar no tema e nos motivos que evocarei para este texto, ficarão mais descansados. Para isso, terão que me deixar criar um “fio de Ariadne”, se bem que não me chame de Ariadne. Nem lá perto.

A minha flâneuse (lá vou eu buscar Baudelaire! Por mais que tente impedir, estará sempre presente…) levou-me a percorrer não as ruas, mas escritos. Em livros e, neste caso,  jornais sobre espaços físicos e o que lá passava. A leitura é também uma deambulação por textos,  frases e palavras, como pelo subtexto mental de quem as recontextualizou a seu bel prazer. Não posso dizer que as criaram, mas as palavras já estavam criadas, restando o jogo de as recombinar para traduzir pensamentos. Como este ensaio. E com uma vantagem: permitindo ao leitor  que crie uma “visão” na sua mente à medida que progride na leitura.

O tema? Continuarei a senda das análises do que Fontcuberta (2012, p.25) designou de “necrolatrias”. Uma leitura mórbida da imagem fotográfica, segundo ele. Se há uma outra leitura, há. E mais positiva. Explicarei mais tarde.

Os motivos? Exposições e imagens fotográficas com o tema da morte. Não evidente, mas implícita. Para tal, evocarei obras e exposições. Para uma leitura e cogitações acerca do mediatismo e da política que as regiam e, por fim, dos contextos que acabaram por as dominar. Assim, julgo estar explícita a razão para inserir este texto em | ON FOCUS.

No contexto de uma formação, repescarei a obra polémica de Gottfried Helnwein, “NINTH NOVEMBER NIGHT“, em memória da Kristallnacht, entre a Catedral de Koln e o Museu Ludwig. Tendo passado por Nova Iorque e Tel Aviv sem que algo de relevante tivesse acontecido, interessa focar aquando a sua estadia em Koln. O que farei mais logo.

Já no Brooklyn Museum, na cosmopolita e caótica Nova Iorque, “GUERRA | FOTOGRAFIA: Imagens de Conflito Armado e Suas Consequências” e a partir de um artigo de Jorge Calado (Atual n. 2150, 2014, pp.12 a 17). Por fim, uma exposição de Ahlam Shibli, “PHANTOM HOME” e, principalmente, “DEATH”, na Fundação de Serralves (15 nov 2013 | 09 fev 2014). Em todos estes prevalece o tema da Guerra, nas suas várias faces, e  dos seus fantasmas. Nem todos poderão ter estômago para essas imagens como nem todas as imagens serão assim tão explícitas. Mas, julgo ser bastante interessante ver como se movimentam perante tal imagética. E como reagem. Aí, provavelmente, as conclusões divergirão. Veremos.

Em GUERRA | FOTOGRAFIA, uma enorme exposição de fotografia comissariada por uma frontwoman, Anne Tucker, com autores de várias nacionalidades, permitindo uma ampla visão sobre a fotografia em contexto de guerra, quer nas frentes quer nos bastidores.  E do papel do fotógrafo nos conflitos.

Como escreve Calado: “Anne Tucker não acredita que haja fotógrafos não comprometidos, especialmente em condições tão difíceis e perigosas. A neutralidade não existe. Ao disparar a câmara, o fotógrafo retrata-se a si próprio.”(2014,p.15). Em todo e qualquer acontecimento tal como em conflitos bélicos, o fotógrafo destacado tem o seu papel de registar fotograficamente o acontecimento. E debate-se com o seu dilema ético-moral. Se será ético e como deverá captar algo que revele sofrimento. Todavia, considero importante frisar a implícita “ideologia (no seu sentido lato) que determina o que constitui um acontecimento”, como escreve Susan Sontag nos seus “Ensaios sobre a Fotografia” (p.27).Ou seja, há sempre pontos de vista. E também antagónicos.

E num mundo hipermediatizado, e cujo interface é a câmara fotográfica, o fotógrafo, na ânsia de captar imagens, muitas vezes não tem a perceção de si no momento. Para evidenciar esta formulação, relembro a imagem bastante polémica de cinco ou seis fotógrafos em redor de uma vítima de agressões violentas, deitada num solo de terra batida. Se houve hipótese de serem evitadas as agressões, não saberemos. Se houve hipótese de as  minimizar, também não. Todavia permanece a imagem dos seis em redor. Como abutres, dizem. O que não abona muito esses profissionais. E que nos faz pensar na validade de tudo isto.

Sobressai, segundo Calado, um pormenor em toda a exposição: a grande variedade de autores, profissionais e amadores, que registam, na sua maioria,  algo que conduz à ideia de morte a par de uma preocupação nas composições fotográficas.

“A verdade é que a simplicidade e harmonia estéticas fizeram a maior parte dos ícones fotográficos de guerra do séc. XX”,

de acordo com o mesmo autor. E continua: “Por outro lado, tornou-se corrente rejeitar – na guerra, como na fome e no sofrimento em geral – uma imagem esteticamente apelativa. O pecado seria aquilo a que Susan Sontag chamou de “inautenticidade do belo”, esquecendo-se que a conjunção da beleza de Vénus com a belicosidade de Marte é um dos esteios do pensamento ocidental”.

Pode-se concordar  como não. Se, de entre muitos,  evocar o escândalo da fotografia manipulada e premiada na última World Press Photo, julgo haver ponto de discussão. A eloquência estética exponenciada através da manipulação digital e como “verdade” é um ponto de discussão bastante pertinente, sim.

“DEATH”: nos interiores de habitações e de núcleos familiares destroçados pela guerrilha, o esforço das famílias palestinas em manter a presença e a memória de familiares – mártires através de cartazes, fotografias em pose de combatente e outra memorabilia tangível foi o cerne do trabalho de Ahlam. À obra desta fotógrafa, não acontece, muitas vezes, o distanciamento necessário quer da sua nacionalidade quer da suspeita de uma possível e bastante polémica apologia dos “mártires” em fotografias e  com a presença de familiares nos seus afazeres quotidianos. De um único quotidiano, pois pressente-se não haver um outro mais radioso.

“As fotografias, que por si nada podem explicar, são inesgotáveis convites à dedução, especulação e fantasia”, como escreve Susan Sontag nos seus “Ensaios sobre a fotografia” (2012, p.31).

Daí que Ahlam Shibli tenha feito acompanhar cada imagem com uma legenda.

Em todas elas, houve uma política que presidiu tanto à construção como à exposição das obras. De formas de questionar, estética e visualmente, o mundo visível e as suas relações. Para descambar, na falta de melhor e decente termo, muitas vezes em leituras politicas ideologicamente enviesadas. Eu que o diga.

Se quem criou “DEATH” não fosse uma fotógrafa palestina, com toda a carga simbólica que acarreta,  mas de uma outra ocidental nacionalidade, o valor intrínseco seria o mesmo? De quem vive o quotidiano e, ao mesmo tempo, que opera com um distanciamento à realidade envolvente a uma fotógrafa destacada por um pequeno lapso de tempo, o suficiente,  para realizar a série?

Ainda Sontag escreve ” É a existência de uma forte consciência política que determina a possibilidade de sermos moralmente afetados por fotografias” (2012, p.27). Como vemos,  independentemente da matriz ideológica-moral de cada um, há sempre algum frenesim. Mais ou menos mediático, é certo. Se é positivo ou negativo, só a sensibilidade e a experiência de cada um podem dizer.

Muito e mais difícil, é fotografar o nosso quotidiano, nos temas mais fraturantes, com um objetivo distanciamento. Brutal quando existe implícita carga simbólica ou imensamente pessoal. Neste, basta dizer que ter assistido à projecção de uma curta assente na vivência de uma experiência dolorosa numa das mais recentes guerras, fez-me “mossa”. Ficaram na retina as imagens. Principalmente, a sinceridade de quem a testemunhou. De Bekim Guri e da sua curta “Heshtje”. Daqui uma singela nota: bem haja ao Shortcutz Xpress Viseu, à sua peculiar programação e às suas deliciosas curtas.

Do outro lado, um enorme friso fotográfico de um conjunto de sucessivos retratos de crianças, com a mesma pose e enquadramento, exposto nas paredes exteriores  de uma estação alemã cuja história se confunde com a Alemanha nazi, foi vandalizado, em plena atualidade, com cortes ao nível do pescoço dos retratados. Posteriormente, o artista optou por colar as margens de cada fenda com fita-cola, reforçando, assim, o pathos da obra.

Todavia, as crianças retratadas são cidadãs locais da atual Alemanha. Pese embora as diferenças face ao que se diz ser o  padrão ariano.  Visível, com toda a pujança e beleza, em  “O Triunfo da Vontade” e  “Olympia” de Leni Riefenstahl. Idealizado e raríssimas vezes “cumprido”.

Ainda mais que os povos arianos primordiais fossem originários da Índia.

Daqui se depreendem factos que considero bastantes perturbadores: interpretam-se as imagens como algo irreais embora esteticamente “cuidadas”, criam-se paralelismos, fizeram-se leituras sem que o passado estivesse totalmente sarado. Os ecos ainda ressoam. Ainda que assentes em princípios “deformados”.

Como bem refere Sontag: ” A fotografia insinua que conhecemos o mundo se o aceitarmos como tal a câmera o regista.” (p.31)

São estes os três motivos deste texto. Quanto às primeiras reflexões, fi-las. Continuarei a cogitar ainda nestes escritos. A vós: que vejam e que tirem as vossas.

Uma legenda: still de frame do filme HESHTJE, de Bekim Guri  José Cruzio/Shortcutz Xpress Viseu

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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