| ON FOCUS #2

por Jose Cruzio | 2014.01.12 - 09:33

Deixei passar algum tempo antes de voltar à escrita, às reflexões sobre o ato de fotografar e a fotografia.  É mais que certo que não tenho, nem terei anseios de ser um ensaísta  de renome, mas que possa ler, pensar e tirar as minhas conclusões, tanto melhor.

Como fotógrafo, são-me necessárias estas leituras e cogitações em torno da prática numa área que gosto e na qual realizo o meu trabalho. Já como simples cidadão, também faço análises de atos e contextos onde a fotografia esteja presente. Umas vezes, acertadas e outras, por tentativas e erros, mas lá chegando a uma proposta de raciocínio.

Juntar as minhas  duas facetas, é muito bom. Um processo assim e as tentativas para levar a bom porto, desde que bem alicerçadas, serão sempre uma mais valia. Assim, julgo eu, e espero que a vós também.

Deixei passar algum tempo. Repeti para não perder o fio à meada e para acautelar um relativo distanciamento, contrariamente às emoções e desabafos no calor do momento.

Nos primeiros dias de janeiro, após ter desejado votos de um melhor ano e durante a madrugada, faleceu um dos mais proeminentes jogadores de futebol: Eusébio, de seu nome, cujo clube do seu coração, o Benfica. Quanto a passes de futebol e tudo o que envolve o jogo, sou um ignorante, exceto quando são golos e penalidades. Isso já eu sei.

Admito. Para me poupar a discussões sobre algo que nada sei, direi sempre ser “academista”. De Coimbra. A quem me interpelar sobre qual o meu clube, com  negro humor e fineza, direi sempre ser “academista”. Daquela que “perde sempre”, sim, direi que sim. Mas capaz de dar boas “ensaboadelas”, em momentos deliciosos embora raros, também direi que sim. Felizmente para outros,  bem raros. Considero-me uma das “manchas negras”. Não da Mancha Negra, mas uma das “manchas negras”. Contra a corrente. Teimosamente, do contra. Lá estou a divagar.

De futebol, quase nada sei. Pronto. Todos têm os seus interesses.

Retorno aos “primeiros dias” do mês. Altura de balanços. Um deles sobre novos vocábulos cujo hype excedeu a estratosfera. Em sentido figurado, claro. Virais. E numa outra cerimónia fúnebre. Não nacional mas global, dirão uns. Selfie. Um dos vocábulos. Que me desculpe a Porto Editora por falar em selfie e não em “bombeiro”. A devida vénia a estes valorosos seres humanos, muitas vezes em risco da própria vida e parcamente equipados. Quando e se é que estão.

Em ambas e profusamente televisionadas – ao minuto! – cerimónias fúnebres, registaram-se momentos que deveriam ser objetos de reflexão.

No palanque e num episódio de aparente descontração, um selfie com Obama. Uma recordação de um (in)oportuno e (talvez) irrepetível momento com um descontraído Obama. Pena ter sido possível só naquele momento? Ou  é pena terem sido apanhados pelos media em disposições pouco protocolares?

Noutro país e, quiçá, realidade, uma fila para se despedirem de uma das maiores (mitificadas?) referências futebolísticas. Já não serão selfies, mas fotos ao féretro para mais tarde mostrar como estiveram presentes na cerimónia. Um pensamento: entre muitos e de outros autores, um ensaio de Maria Filomena Mónica sobre a Morte, embora num outro contexto, politica e subjetivamente. Se bem percebi, o povo tem uma relação sui generis com a Morte e as suas manifestações fúnebres. Talvez decorrentes da sua matriz judaico-cristã primordial e católica. Ou então, por pudor.  As suas manifestações são “dissimuladas” por cerimoniais. Aparentemente, é “repudiada” e transfigurada como uma passagem a um outro e superior  nível.

Destes acontecimentos, um mediatismo invulgar e enjoativo. A descrição, vívida e ao minuto, dos rituais e percursos, das individualidades presentes e ausentes. Os testemunhos de quem com ele se privaram como de indivíduos anónimos cuja vida foi “tocada” pelo defunto. O pretexto para inúmeras “homenagens” de programas da manhã e da tarde. Tudo televisionado, com grandes planos, planos gerais e música em toada quase wagneriana para maior grandiloquência dos atos. Nos media escritos, o uso de figuras de estilo para extrapolar a sensação de perda. Os dias   “tornaram-se” cinzentos e gelados. O “Céu chorar” porque partiu? Ora, se há semanas não pára de chover por ocasião da passagem de sistemas frontais também de frio polar e para os lados da costa canadiana…Enfim.

Em vida e quando algum evento proporcionava, lá apareciam. E não eram muitas as vezes, claro. Basta ver. Mesmo em arquivo. Espero não estar a ser evidentemente cínico mas se virmos…

Por fim e para tentar terminar, o macabro dissipou-se. Emergiu a pompa e o espetacular. O ato de fotografar como prova de que lá esteve. Parafraseando Roland Barthes e a sua “A câmara clara”, a  fotografia de algo que já foi, que já era ou que aconteceu. Joan Fontcuberta, em “A Câmera de Pandora” e aludindo a Barthes, ainda reforça:

“Para o nosso maître à penser a fotografia encarna uma morte simbólica. O clique do obturador guilhotina o tempo, congela o gesto, fossiliza o corpo…Toda fotografia constitui uma promessa de eternidade, ao custo de nos revelar futuros cadáveres: a imagem permanece quando o corpo desvanece. E, se para Barthes a fotografia mata, para Kracauer o que ela pretende é desterrar a lembrança da morte.” (2012, p.24).

E na mesma linha de “necrolatria” implícita,  retoma Siegfried Kracauer:

“O ser humano não é quem aparece na sua fotografia, mas a soma daquilo que se pode extrair dela. A fotografia o destrói enquanto o retrata (…) Os traços dos homens só se conservam na sua  história

.” (2012, pp. 24 e 25)

A fotografia com a morte, imanente, ainda mais como subtexto.

Construções. Mitificações? Talvez.

A mim, deu que pensar. Como ser humano e indivíduo, quanto ao saber estar quando a ocasião exige. Já como fotógrafo e artista, bases que possa usar para me nortear. Consciente e paulatinamente, nos processos de trabalho como na criação. Para algo que possa fazer-nos questionar.

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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