ON _Focus #5

por Jose Cruzio | 2014.11.07 - 14:34

Cada vez mais se demonstra a evidência de inúmeros projetos artísticos que, pelo menos a olhos atentos e num contexto que tenta fazer-nos questionar acerca do real envolvente como do seu potencial criativo, têm dado cartas.

Sejam eles peças teatrais, instalações artísticas bem como atos performativos interdisciplinares. Ou montras expositivas.

Múltiplos eventos têm tido diferentes ecos. Uns ecoando para mais longe, outros nem tanto. Avaliados, outros nem isso. Reformulados tendo outras expetativas de projeção. Mas muitos também se “cristalizaram”. Quer nos seus moldes quer na oferta em si. Mas aqui importa falar de outra coisa.

Um pormenor bastante interessante está na pretendida envolvência e interação do espetador, fazê-lo “submergir” e “interagir” com a pré-criação. Sim, pré. A criação em si é suscitada e, no fim, revelada como que uma epifania que varia de espectador para espectador. Daí a riqueza de diferentes leituras e espaço para troca de impressões. Desde que com juízo crítico e fundamentado.

Recentemente e numa discussão construtiva acerca de um dos projetos inseridos num workshop de longo curso de Instalação com Som e Fotografia, evoquei a “descida aos infernos em busca de uma Beatriz”, sendo esta uma imagem de forte impacto – ambígua, sim, dado não se saber se de uma pose com pormenor de dor física se de um ato de fé –  e, em seguida,  um caminho ascendente a um “paraíso”. Podendo não ser o “paraíso” idealizado ou desejado mas, melhor dizendo, a epifania esperada. Mas ainda assim,  uma descoberta. Tudo isto em conjunção com uma faixa sonora propositadamente criada para ecoar num espaço arquitetónico singular. Uma ampla escadaria. Uma descida para uma revelação e, no fim, uma subida para uma revelação. Veio-me à memória a “Divina Comédia” de Dante ou então, mais subterraneamente, o mito de Orfeu e Eurídice para justificar esta pequena evocação como algo a pensar num sentido de reformulação possível de um dos projetos. Quer na simplificação de meios, materiais e numa possível facilidade de leitura. Não torná-la “fácil”, mas sucinta e indo ao encontro do que se pretende do espetador.

Neste tipo de projetos, sejam eles individuais ou coletivos, e de lugares – não de espaços físicos sem identidade – existem sempre embates. Tanto de vontades como de interpretações e de resultados pretendidos. Desde a abertura para outros pontos de vista e outras formas de “olhar” como de confronto, tudo é possível.

Mesmo em coletivos onde se prontificam diferentes indivíduos com óbvias semelhanças em pontos de vista como de gostos individuais, poder-se-ia pensar ter o trabalho bastante facilitado. Puro engano. Há sempre lugar a, por vezes, acesas trocas de ideias, fundamentos como de estratagemas, a fim de dirimir o estado do grupo.

Pequenos pormenores, que a muitos pareçam insignificantes, podem comprometer a proposta criativa. Positiva ou negativamente, só vendo e depois de ponderadas as várias soluções e testes. Sendo assim processos morosos, dispendiosos e, infelizmente, “invisíveis” ao comum do espetador. Exceto, claro, quando hajam plataformas ou meios com roteiros descritivo-visuais acessíveis a todos.

Ainda refiro que há quem dê primazia ao desenvolvimento do processo do que à criação. Em termos de pedagogia, é sempre uma mais valia, o processo e a sua gestão nas suas múltiplas fases.

Neste texto não só o processo, mas também a criação contam.

Se há interesse na “imersão” do espetador e a respetiva interação com a obra, há que mudar algo. Ou muitas coisas.  Os paradigmas vigentes e pelos quais nos regíamos sem questionar. No saber e na prática artística. No entendimento do lugar e das suas características.  Na forma e procedimentos para o entrosamento da obra com o lugar. E, no fim, prever como queremos que a “criação” se manifeste. Mas aqui acabo esta parte.

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de "flâneur" na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para "memória futura".

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