O viúvo

por Rufino Fino Filho | 2014.03.24 - 10:47

Pelas ruas de Roriz, aldeia da freguesia de Pindo, num corrilório abafado, os vultos iam passando colados às paredes, confundindo-se com o granito já musgado pela humidade de Inverno. Rápidos e sem barulho trepavam muros, abriam portões, saltavam regos e barrocas, confundindo-se com a noite. De vez em quando, um cão mais atento ladrava na escuridão. Nada que os demovesse dos intentos predatórios. Sabiam onde iam, ao que iam e quem seria a vítima. Acreditavam que a noite fria era uma aliada e um abrigo dos olhares de alguém mais tardio. Àquela hora, a aldeia dormia a bom dormir.

Cautelosamente, aproximaram-se do alvo. Desta vez era o galinheiro do Fala Barato. O tal que dizia “quem lá for, leva chumbo“. Do meio do grupo avança um vulto mais avantajado que se encosta à parede e, colocando as mãos entrelaçadas no meio das pernas deu apoio a dois dos meliantes, que, rapidamente treparam pelos ombros e desapareceram lá no alto.

Providencialmente, uma nogueira plantada junto no limite do pátio, permitiu uma descida suave e sem problemas. Acachapados, aproximaram-se da rede que separava o galinheiro do resto do quintal, e, da penumbra, destaca-se um feixe de luz amarelada que percorre num ápice o terreno ao redor fixando-se, momentaneamente, num canto junto à casa. Era ali que estava a arma com que se iria praticar o crime: um sacho de cabo longo e fininho. Pé ante pé, evitando que algum galho seco estalasse como um tiro na noite escura, deitaram a mão à porta do galinheiro e, esta, abriu sem ranger. Suavemente, entraram e mais uma vez a luz baça da pilha permitiu um rápido reconhecimento dos obstáculos e dos alvos. Alinhados em fila e estáticos como pequenas estátuas, os galináceos ali estavam prontos para levar. Lindas de gordas!

Com a sabedoria que só os especialistas possuem e a prática que muitas noites como esta apurou, estenderam o cabo do sacho, e, com meiguice, encostaram-no às patas das aves escolhidas. Estas, num gesto instintivo, subiam delicadamente para o cadafalso. Lentamente, recolhiam o sacho e num golpe rápido, zás!… com uma torcedela no pescoço, impediam qualquer possibilidade da vítima cacarejar e alertar o dono, que, àquela hora, coitado, dormia o sono dos justos. Isto sim ! Era a Arte de um verdadeiro pilha-galinhas!

Requisitadas mais de uma dúzia – que jaziam no fundo de saco de sarapilheira- e uma vez que eram suficientes para a tainada programada, abandonaram o local do crime e retrocederam em direcção à nogueira, que o Fala Barato ali colocara e tratara amorosamente durante anos.

Ali chegados, diz um dos larápios: – Espera aí, pá! Falta uma coisa!- e voltou ao galinheiro donde regressou com o esplendoroso galo – o verdadeiro dono daquela galinhada toda – na ponta do pau do sacho. Retira uma gravata preta do bolso das calças, pendura-a no pescoço do galo, que pousa suavemente no chão junto da nogueira. Um fio é preso numa pata e a outra ponta amarrada num ramo da árvore. Saíram quase como entraram, sem barulho, mas mais pesados.

Nessa manhã, emudecida e espantada ao verificar o tamanho e o descaramento do roubo, a mulher do Fala Barato, desmaiou ao ler um letreiro pendurado na gravata preta que o galo ostentava no pescoço:

ENVIUVEI À MEIA NOITE!

NOTA: Ressalvando a dinâmica da acção, a história do galo é verídica!