O Urso Mariana – Ou o outro lado do mundo

por Alberto Correia | 2016.05.30 - 08:22

 

Imprevistamente, à hora da aula, apareceu no povo o urso Mariana.

Rana cataplana, rana, rana – e disparámos para a rua na cara aparvalhada da professora.

Uma rapariguita em traje de comédia, calção azul, casaquinha escarlate, carapuço de astrólogo por cima dos caracóis louros, avançava do caminho de Adbarros, jogando com desembaraço as baquetas sobre a pele do tambor.

    In Cinco Réis de Gente

 

 

O dia-a-dia, na aldeia, era quase sempre igual pelo ano fora. E se mudava era apenas com o sol, nas estações.

De longe-em-longe lá vinha o burrico de um louceiro que estendia a louça no adro da capela. Vinham compradores de cornelho, de cera de abelha, de peles de coelho. E farrapeiros. E os amola-tesouras tocando uma gaitinha. E os caldeireiros batendo uma sertã com martelinho. E os pobres de pedir. E os alvitanos com a pele de um lobo cheia de palha carregada num machito. De longe-em-longe passava uma carroça de ciganos.

Certo dia correu voz – que vinha lá o urso Mariana! Vinha, sabe-se lá, do fim do mundo, a garotada soltou-se para a rua sem licença de ninguém, o mulherio deixou as lidas da casa ou os vãos do soalheiro, os homens encostaram a enxada ao muro das hortas e fizeram roda no adro da capela onde o urso os olhava agora tão pasmado quanto eles.

Réstia de sol esse cibo de tarde, a dança do urso ao som de um pandeiro, o gracioso jeito da menina de cabelos de ouro tocando tambor enquanto o corpo em arco de um rapazinho volteava no adro como girândola de cores. Raras moedas no chapeuzinho que passou em roda. E outra vez o urso Mariana se sumiu no caminho deixando a fama.