O paradoxo da Andorinha

por Rui Macário | 2013.12.15 - 18:49

Esquecendo a cientificidade zoológica que poderia assumir-se como necessária, o indicado paradoxo reporta ao ditado “Uma andorinha não faz a Primavera”. Aplicado ao espectro cultural, o Paradoxo aponta três dimensões.
A primeira, explicita que não é a quantidade de andorinhas presentes numa dada localidade que configura a qualidade da estação. Assume-se que havendo melhores condições climáticas haverá maior número delas, não equivalendo no entanto a “melhores” Primaveras. Transposto para as dinâmicas turísticas, mais turistas não implicam mais receitas turísticas (em número de refeições servidas, dormidas, etc.) e muito menos melhor turismo (em termos de “investimento” – despesa realizada – por turista). Assim, é paradoxal que uma localidade vocacionada para o turismo e efectivamente receptora de turistas, não seja directamente uma localidade “melhor”, em particular porque o turista pode ser potencialmente, um factor de distúrbio quanto à dinâmica vivencial da localidade ao invés de um factor de desenvolvimento. O Porto, por exemplo, que tem recebido números crescentes de turistas e que se tem transfigurado – nomeadamente na Baixa – para cidade turística, depara-se neste momento com a simples questão de o turista “low cost” preferir comprar no aeroporto ao invés de nos estabelecimentos comerciais da cidade, investindo mais em experiências e alimentação que em objectos ou produtos (vulgo recordações) – por motivos que passam também pelos limites de peso autorizados nos vôos. Noutras cidades o que se verificou foi uma quase ruptura do sistema de transportes públicos (Roma, por exemplo), a pressão imobiliária (o litoral português quase por inteiro) ou o esvaziamento residencial/cristalização da localidade em prol dos arredores. Por outro lado, assegurar turistas de perfil diferenciado e com recursos económicos para um gasto médio elevado, implica investimentos em infra-estruturas e actividades cuja criação e manutenção podem tornar a localidade em causa dependente de uma só fonte de receita, para lá de eventualmente afastarem os habitantes (por falta desses mesmos recursos) do acesso aos investimentos efectuados. Em suma, se queremos turistas, quantos e quais queremos, e o que estamos dispostos a fazer para os atrair e manter?; sendo que podemos não ter “Turismo” enquanto tal mas ainda assim receber turistas esporádicos. A Ideia que se tenha para a localidade desempenha aqui um papel fundamental.
A segunda dimensão, presume sensivelmente o mesmo desafio mas partindo da perspectiva dos agentes/operadores/entidades no sector turístico-cultural. Muitos agentes não implicam bons agentes (aliás, por norma é exactamente o oposto) mas m número acentuadamente reduzido de agentes ou a sua especialização síncrona para um domínio concreto, limita a oferta a ponto de afastar o interesse/procura, quer para os habitantes, quer para potenciais visitantes (inclusive levando-os a procurar variedade noutros pontos). Uma localidade mono-valência é em princípio uma localidade em perigo… tendo em conta que a vivência humana se faz com diversidade e que o factor “moda”/adequação ao tempo é relevante. [Talvez este ponto se possa explicitar melhor noutro contexto.]
A terceira dimensão é simples: uma andorinha não faz a Primavera mas sem andorinhas a Primavera provavelmente ainda não chegou… uma localidade atractiva atrairá, mas tanto atrairá o que se deseja como o que se não espera ou procura. Uma localidade anónima, assim permanecerá indefinidamente.

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

Pub