O Ninguém

por António Soares | 2015.02.20 - 12:08

 

 

Ele é alguém que é ninguém. Ele é um. Um de muitos. Um dos muitos.

 

A roupa velha, suja pelo tempo de uso, veste a pele corcódea enegrecida pelo desuso do sabonete. Como as unhas, tingidas de negro noite.

 

O andar – curvado pelo tempo – prenuncia o cabelo oleoso, luzidio branco e prata, assertivo à passagem das mãos tortas, rebelde onde se lhes escapa.

 

Os lábios gretados sopram as estórias que lhe fazem companhia. Memórias que ninguém ouve.

 

A sua existência é inocente e esquecida. Quem ele lembra, dele não se lembra. Ou não vive.

E apaga-se todos os dias.

 

A carcaça não esconde o que é. Esconde o que foi.