O NATAL DUM CÃO FELIZ

por Ana Cristina Mega | 2013.12.21 - 13:00

Tenho o sol e tenho o vento,

Tenho as estrelas e a lua.

Tenho a terra e as pedras,

Tenho tudo, tenho a rua.

Galgo o solo sem parar

Se me der na real gana.

Durmo onde me deixam,

Em ervas fofas ou na cama.

O meu mundo cheira a erva,

a flores e a carne crua.

Sabe a ossos e a jasmim,

Sabe a tudo, sabe a rua.

Uma carícia de vez em quando

O meu pêlo despenteia

São mimos, são presentes

De quem vive na alcateia

O fogo ruge na lareira.

Deito-me com langor

Fico pasmado, entorpecido,

No regaço do calor.

Vivo todos os dias,

Inconsequente, sem medida.

Vivo para viver,

Porque só assim se chama vida!

 

 

O meu prato estava cheio

Hoje à noite ao jantar

Sou cão, não reflicto,

Não sei ponderar

Mas as luzes que vejo

No mundo desta gente

A cara das crianças

Isso sim,…um cão sente!

Esta noite está gelada

Mas deve ser especial.

Ouço vozes, ouço risos

“A todos Feliz Natal”.

O que será essa palavra

Que soa incessantemente?

Porquê tanta alegria hoje,

Se tudo está sempre presente?

Possuem tudo por inteiro

Tudo… e mais além.

Conquanto seja feliz,

Eu não tenho vintém!

Ouvir Natal todos os dias

Seria bem mais verdadeiro.

Para celebrar este mundo

Que é deles por inteiro.

 

 

Mas será que já perceberam,

Que no meio de tanto enleio,

Se fosse Natal todos os dias

Eu teria sempre o prato cheio?

 

 

Médica veterinária, docente na Escola Superior Agrária, ISPV

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