O NATAL DA MINHA TERRA

por Alberto Correia | 2014.12.21 - 16:23

 

A minha terra fica nas extremas das “Terras do Demo”, se é que a imprecisa fronteira que lhe delineou Aquilino Ribeiro se não estendeu, hoje, mais além. Que as terras contidas nesses limites por ele definidos há cem anos eram pobrinhas, tisnadas pelo sol, pelo codo e martirizadas pelo vento, pelos impostos do Estado e outras corveias ainda, daí que os seus filhos, aos mil, as abandonavam na procura de “brasis”, Brasil, Argentina, França dos anos vinte, mais tarde para as Franças dos anos sessenta e seguintes. E poucos voltaram do Brasil antigo, raros regressam das novas Franças…

No tempo da minha infância que antecedeu os anos do “salto” para França, nessas vésperas desses antigos Natais, minha mãe, lavradora, e outras lavradoras mães dos meus companheiros mais felizes, mandavam-nos entregar garrafas ou pucarinhos de vinho (Era um costume antigo) a quem o não tinha, nem teria possibilidades de o comprar para essa magra Ceia de Consoada.

Com o vinho ia a cestinha de batatas e o naco de carne de porco e duas cebolas. E quantas vezes um molho de lenha para a quentura da lareira.

No tempo da minha infância não se acendia o Cepo de Natal no Adro da Igreja. Perdera-se o uso, mercê de uma civilidade mal entendida.

Passou mais de meio século desde esse tempo, para mim felizmente aureolado, o da minha infância.

Entro agora na minha aldeia onde regresso (migrante que também sou)  algumas vezes e encontro-a quase deserta. Quase ninguém voltou de França! Meia dúzia de rapazes, que já nem são bem rapazes, são homens feitos (Que é feito dos rapazes novos?!) acendem no Adro, agora livre, o Madeiro do Natal. Depois vão deitar-se cedo. Ah! A memória do cepo de carvalho na lareira ardendo noite fora!…

E a missa da manhã do Senhor Padre Cândido! Que Deus o conserve. E o “sermãozinho” que ele faz nesse dia. E o Menino Jesus antigo que as pessoas vão beijar. E a pequena esmola, ao Menino, na bandeja.

Talvez esteja um dia de sol, este ano, que não derreterá as geadas nos quintais, que não alegrará, de todo, aqueles que lembram os ausentes, que não aquecerá as paredes dos estranhos “Lares” que ainda irão receber tantos de nós.

E a inocente espera dos Reis Magos. Dos presentes abonados que trarão. A nossa inconsequente espera dos Reis Magos que nos finais do mês de Janeiro talvez possam – tum-tum – mandar um criado deixar um presentinho na nossa caixa do Correio, na conta quase vazia do nosso Banco, na resposta esperançada a um curriculum há muito enviado.

Mas há tanta gente que não tem esperança!…