“ O Mundo não é outra coisa senão vontade.” (Ler Aquilino)

por PN | 2014.05.13 - 19:13

 

 

(para uma leitura de Um Escritor Confessa-se, escrito em 1962, publicado pela Livraria Bertrand em 1974, com data de 1972 – aqui segue-se a 1ª edição.)

 

 

Tem coragem.

Nunca desconfies de ti.

O mundo não é outra coisa senão vontade.

Joaquim Francisco Ribeiro

 

I

 

Intenta Aquilino no dealbar de uma profícua existência, um resenho autobiográfico que cinge, ab initio, exclusiva e luminescentemente, à essência de considerados episódios compreendidos entre 1901 e 1908, do Colégio de Lameg0 à fuga para Paris, dos 16 aos 23 anos…

Em boa verdade, de alfa a ómega, se as primícias de prelo veriam luz em 1913, com o surgimento de Jardim das Tormentas, pela Livraria Aillaud, de Paris, o fim traria, no ano do seu passamento, 1963, o livro de novelas, Casa do Escorpião e o de teatro, Tombo no Inferno – O Manto de Nossa Senhora.

É porém, em 1962, que escreve Um Escritor Confessa-se, cuja publicação será póstuma, em 1974, aqui objecto de nossa leitura.

Se até Jardim das Tormentas, Aquilino escreve em vários jornais, tais que Vanguarda, de Sebastião Magalhães Lima (Grão-Mestre da Maçonaria), Voz Pública, jornal republicano do Porto, O País, O Caixeiro, Germinal, anarquista e de Setúbal, A Beira, semanário republicano de Viseu …; redige com José Ferreira da Silva um romance em fascículos titulado A Filha do Jardineiro, obra visando o rei D. Carlos, apodado de livro simples e educador, distribuído à mão pelo Bairro Alto e Alcântara. Colabora ainda nos Serões e na Ilustração Portuguesa, com contos e crónicas e publica uma novela no Diário de Notícias. Do seu encarceramento na esquadra do Caminho Novo sai ainda Os Bandidos da Serra da Gardunha, contra João Franco e publicado no órgão republicano O País.

Ou seja, este homem genial, quase ainda adolescente impúbere, tem aos 23 anos uma prolífica publicação e um curricula já assinalável, de trancos para barrancos, num estrénue modo de vida, em que, d’un coup, tudo quer haurir de forma alucinantemente feérica, contrastiva, espiritual e violenta, até.

Desse idealismo primigénito guarda Aquilino determinantes memórias, riquíssima experiência e uma singular afeição, talvez por crer estarem aí, nessas revolteadas dificuldades, os esteios fundamentais de uma vida ancha de acção, terso carácter e pródiga de produção (também) literária, que legou a Portugal e ao mundo milhares de páginas de incomensurável verdade e ficção, vivificada pelo sabor e cunho de uma autonomia desde às verças resgatadas.

 

II

 

Um Escritor Confessa-se – humilde é o título da obra. Escritor com quase sete dezenas de obras publicadas, minimiza-se com o indefinido “Um” (de entre tantos) e penitencia-se contrito num acto de Confissão, não aos homens de batina, a quem se ajoelhara pela derradeira vez defronte no Seminário de Beja, mas, numa latitude de singela vastidão, a todos aqueles, seus leitores de então, de hoje, quarenta e cinco anos volvidos, e do porvir, que há-de ser o da eternidade, que o epigramará nas volutas do tempo.

A confissão aqui centrada é a modos que um registo autobiográfico, e para ser diário lhe sobeja a passagem pelos anos, elíptica, que não pelo ronceiro fluir do quotidiano, qual mulinho forçudo e tropicante, em mão de almocreve sábio.

Será doutro foro a congeminação, sempre conjectural, desta necessidade concretizada de confissão. Porque nos confessamos nós? Pela imperiosidade de expor verdades? Pela necessidade de clarificar factos? Pelo sentimento de nitidificar situações? Por mera contrição? Em busca de redenção?

Qualquer que seja das cinco, ademais as cinco podendo concumitantemente existir, no fim da sua existência, inequivocamente, não carecendo de ambiguidades explicativas nem o fazendo a rogo de ninguém, juiz de leis ou de almas, Aquilino fá-lo, decerto, para si mesmo e à laia de um de profundis esquissado numa revisitação assim à memória emersa de um passado que lhe era querido e do qual, quiçá, legitimado, se orgulhava.

 

III

 

Na obra póstuma, cuja impressão se concluiu em Junho de 74, vem a terreiro José Gomes Ferreira, discípulo e companheiro do mester, no que considera Uma Inútil Nota Preambular, lavrar sua perspectiva e reavivar, também, sua memória de uma época convulsa, aos sete anos entrevista e com a idade cimentada.

Daqui se testemunha que Aquilino Ribeiro, tendo-se evadido da esquadra do Caminho Novo, se refugia na própria capital, a 150 metros do cárcere, em casa de umas senhoras de idade, por intercessão de Meira e Sousa, director de O País.

Escolhe então de pseudónimo Alberto Ramos, para as iniciais coincidirem com as de Aquilino Ribeiro, e serem consentâneas com as bordadas na sua roupa, pela mãe, Mariana do Rosário Gomes (como depois Mariana será, em tributo, sua neta do filho Aquilino Ribeiro Machado). Aqui recebe as visitas dos companheiros da Causa; o barbeiro Pacheco, da Rua Madalena, que lhe arrasa o cabelo; Araújo Pereira, que o envelhece a traço de crayon e desenhadas rugas no rosto sobranceiro e jovem.

Nesta espécie de cautelar cativeiro engana o tédio e finta o ócio lendo e relendo. Nos intervalos escrevia e continuava Os Bandoleiros da Serra da Gardunha.

Entretanto, varre o país uma vaga de terror soprada pelo decreto de 31 de Janeiro que permitia a João Franco degredar para o longe Timor (Temor?) ou outra congénere e distante província, os discordantes políticos, a acerada oposição.

É aí que Aquilino recebe Alfredo Luís da Costa que lhe apregoa a intenção de atentar contra João Franco, o Ditador, num grupo composto pelo próprio, pelo Buíça, de dois ex-guardas fiscais e de Domingos Ribeiro. Ouviu-o Aquilino céptico, costumado a frustrados empreendimentos e alguma galhardia palavrosa.

E está Aquilino no seu quarto represo, quando ouve o alvoroço que rola com estrépito do Largo do Pelourinho e da Praça do Comércio, e lhe entra quarto adentro pela figura de Tavares de Melo, o editor de A Vanguarda, anunciando em sopro gélido:

— Mataram o rei e não se sabe quem mais da família real…

— Que grande desconcerto! – exclamou o Aquilino.

Deste episódio se limpam as mãos os do Partido Republicano, pela voz de António José de Almeida, no Parlamento, e os realistas, por digladiação profusa.

Aquilino, nesta obra escreve História e descreve os regicidas, humanamente, gizados somente a virtudes e defeitos de todo o humano ser.

E é também aqui e assim que encontramos algumas das páginas nodais de eventos da Iª República.

 

IV

 

Relevar a essencialidade dos XIX capítulos será agora o passo seguinte, fundamental para esta tese.

 

Cap. I:

 

A chegada a Lamego, feitos os preparatórios no Colégio dos Jesuítas, da Lapa e a primeira e imediata constatação da ausência de pendor para a carreira eclesiástica, aos 16 anos. Primeira altercação familiar daí sequente. O Albino alfaiate, de Barrelas, intercessor pelos pais, que o vislumbrava já lindo bispo! A ida para Viseu a fazer a filosofia em falta, com explicações de Júlio Alves Martins, sobrinho do célebre bispo. A Rua do Arco, em casa da senhora Joaquina, a pensão de estudantes. A partida clássica, espécie de praxe aos vindouros, a pesca dos gambozinos. As galhetas dadas no Augusto, filho da Joaquina, com ordens tomadas de subdiácono ou presbítero. A expulsão da pensão. A segunda morada, na Rua do Gonçalinho, a 100 metros de linha recta da primeira, e nas espaldas da Prebenda, mais próxima ao Rossio. A apresentação do filho do explicador Júlio, António Alves Martins que havia de ser poeta da Anunciação e Mulher de Bênção. Temos, de nosso, esta segunda obra, lírica menor, de monocórdico tema e forma de soneto pouco escorreita. O exame: Que sabia eu, que sei ainda hoje, que saberiam os mestres que me examinaram? Em verdade o Português nunca aprendeu outra coisa que não fosse rezar. Nunca aprendeu a pensar, nem lhe consentiriam pensar livremente. Jamais lhe cultivaram esta faculdade perigosa, o espírito, no que tem de original e altivo. Tanto a Igreja como a Realeza quiseram-no sempre carneiro e nutrindo-se no prado sujo das ideias feitas. À rectaguarda, a censura e o Santo Ofício tinham sido instrumentos perfeitos deste recalcamento e repressão. Uma seara pedagógica que só produz onagros utilitários, inteligências rotineiras e sábios asmáticos implica um terreno preparado, vessado desde longe, de modo a deter o limo e húmus para que só nele possa florescer, medrar, produzir opimos frutos este bamburral, ou melhor este bomburral lusitano. (pp. 46/47)

O entendimento com Joaquim de Almeida Costa Nunes, seminarista de Viseu que fazia a teologia em Beja. As facilidades aí dadas aos seminaristas, a disciplina branda (…) vestia-se de preto, mas andaina comum, e nunca se saía à praça em formatura como os soldados. (…) Certo, certo, sobretudo, era emborcar-se a ciência tomística e canónica sem grande queimação de pestanas, A decisão de ir estudar para Beja e a partida via Lisboa. E assim, lesta se espraia a narrativa, nos primeiros passos da maratona.

 

Cap. II

 

Chegada a Lisboa e hospedagem no Hotel Portugal. Os olhos abertos de Aquilino, não de pasmo, mas à compreensão da novidade assim desfraldada. O desejo de ver o mar, só em Cascais. Em Lisboa é rio, lhe responde Costa Nunes. O embarque para o Barreiro. A primeira navegação e as primeiras romãs. A chacota dos camaradinhas do sul por não saber o modo de as comer, adrede calada pelo resposta apedrada E, ó amigos, vocês sabem o que são mostajos, o que são pútegas, o que é um bom nabo pelo rabo dentro?

O espanto pela terra latifundiada do vezeiro olhar na courela curta e na veiga esconsa. A chegada a Beja e o frio acolhimento no Seminário, feudo consentido dos manos Ançãs, vice-reitor e prefeito, de Aveiro oriundos, vivaz exemplo da cleresia baldroegueira, matreira e contumaz nas malasartes do maniganço, e dupla e dúbia existência em nada modelar em servos que da Igreja se criam. O quebranto e a desolação moral assolam-no. A fome sitia-o. As astúcias de forra barrigas inventam-se. Os maus usos e os piores costumes onde se forjavam as rudes almas, temperadas a carência com pecado, para o futuro mester de representantes de Deus na Terra.

 

Cap. III

 

As vigarices dos Ançãs. A antipatia da população pelos padrecos. As suciatas às ocultas. A inquietude a bater o insubmisso arroio da vida interior.

 

Cap. IV

Usos e ladainhas. O catrapiscanço com a Coroada, bonita rapariga.

Os primeiros arremessos (indóceis) de Oratória.

A dúvida, Que ando eu aqui a fazer? – surgia ao meu espírito ao acordar altas horas da noite, quando vêm cometer-nos os demónios azedos da existência, porque adormeceram os silfos bons e descuidados que agitam asas à nossa volta nada mais que para erguer brisas prazenteiras e misericordiosas, com pena de nós em estado febril. E na lousa escura da noite fosforejavam estas palavras candentes: — Mas que há-de ser de ti? (p.101).

O inconformado feitio face à injustiça, no episódio que o opõe ao monitor Manuel Correia de Brito, um feio bicho nado em Tábua.

A revolta sempre à flor da pele, aqui pela exclusão vingativa da camarata superior.

A opressão. O negror. A dúvida: Queria eu desempenhar o papel de despachante nesta ilusória alfândega de réprobos e benditos? (p.107)

A directa colisão com o prefeito, paradigma da corrupção. A humilhação prepotente e a constatação de quão intolerável lhe era a sua aceitação, que Equivalia, aceitando-a, a demitir-me da minha categoria de homem. O confronto e a expulsão do Seminário de Beja.

Se tenho seguido a carreira eclesiástica, onde estava eu? O mais provável, por ser o mais inofensivo e recatado, era ter-me refugiado num poviléu das serras a comer as ementas do passal, a encomendar pobres defuntos, a quem acabou o inferno de viver, a matar o meu coelho e dormir, dormir segundo o epicurismo que traz de volta o múnus pastoral.  (p.116).

Cap. V

O reencontro com Lisboa e a hospedaria do 3º andar da Rua do Crucifixo. A inauguração da estátua de Eça, um escabichador do real? As visitas aos museus, a leitura: E li, como um pássaro voeja nas ramalheiras. Li e chafurdei nos autores portugueses, clássicos e modernos, depois nos autores estrangeiros, desde os mais bafientes, que se citam de ouvido, Delille, Malherbe, Corneille, a Anatole France em plena glória. E tentei ler os italianos, para o que me pus a aprender a língua. (p. 121).

A doença com um tumor inguinal operado a frio por um enfermeiro, no Hospital do Desterro, evidencia a rija têmpera:

             O senhor não é daqui?

            Sou da Beira Alta. Sabe onde é Moimenta?

            Pois é rijo como os penedos da sua terra. Fiz-lhe uma incisão bastante levada do canudo e não lhe vi bulir uma fibra do rosto.

Tentativa falhada de arriscar nos números, como contabilista. Procura de emprego como jornalista, na Rua dos Calafates. Os três redactores principais: Eduardo de Noronha, Alberto Bessa e Eduardo Coelho, tão chasqueiros quanto cépticos.

Teste de proficiência oral em rogado argumento ontológico da existência de Deus. O efémero abandono do jornalismo no quotidiano sopeiral.

Novas e viático de seu pai, Joaquim Francisco Ribeiro, com sibilado ultimato:

O dinheiro que lhe envio é para se vir embora, pois que não consegue empregar-se. Enquanto eu for vivo, tem aqui a tigela do caldo. Quando eu fechar os olhos, e não estará longe, só lhe resta deitar-se a um poço, pois não acredita em Deus para implorar a divina misericórdia que lhe valha. Se me não der ouvidos, desta vez, não conte que continue a sustentar-lhe a vadiagem, cedendo às suas lamúrias, por essa Babilónia.  (p. 127).

A chegada a casa em viagem de espantar e com recepção mais álgida, de sua mãe, que a neve ladroa chasqueando  a capela à ventana.

Cap. VI

Nove meses de penas bem castigado eu fui pelas rebeldias.

A escrita como ilusório modo de afastar ronceiro o tempo, lento e pesado:

Escrevia com mão vertiginosa e espírito trepidante, a torto e a direito, contos, novelas, ensaios. Até uma peça de teatro garatujei. Escrevia em estilo difícil e alcandorado, dum barroquismo inexcedível, matizado de latinismos e plebeísmos pitorescos, com os olhos numa realidade entrevista através de lentes mais grossas que vidro de garrafa. Escrevia e, felizmente insatisfeito com o que escrevia, rasgava. Aquilo eram exercícios de pretendida virtuosidade, sem disciplina nenhuma, que me serviam de válvulas de escape a uma ânsia hipertrófica de criação. (pp.138/139).

A caça em cuja arte se tornara destro, arte antiga, para ele:

A caça na Beira, depois do escalvamento dos montes, com a desarborização intensiva e traquejo sistemático das espécies venatórias, devido, além do mais, à fome crónica que atormenta o indígena, por um exército de raiunas de um cano disparando um tiro vassoirudo, altamente utilitário, pelas armadilhas nocturnas, pelo emprego legalizado da moca, tão mortífera como o chumbo, dado o olho marau do labroste que surpreende o pobre láparo a dormir depois da barriga cheia e das bambochatas da noite, é negócio de paciência acima de tudo e sempre problemático. O coelho e a lebre, que vivem mais do sementio que da vegetação natural dos bosques e plainos, buscam os arredores da aldeia. Procurem-se por todo o círculo até onde chegar o cantar do galo. Na Beira e Trás-os-Montes, especialmente, a povoação é um oásis no perímetro de maninho e inculto, vasto, tantas vezes, de milhares de hectares. Para lá da linha do agro situa-se a serra com os redutos da raposa e do lobo, e ocasionalmente da perdiz quando se vê muito acossada no seu habitat, mas sempre em torno do povo. Na periferia do redondo cultivado é que aves, coelhos e lebres se reproduzem, fazem ninhos e luras. Para o coelho, o seu logradoiro não tem verdadeiramente limite, escamugindo-se, se se sente em perigo, de uma chã ou bosque para outros sem dar cavaco; a lebre, pernas de sete léguas, alarga o raio da sua deslocação, porém menos por largo. A perdiz é dotada de maior mobilidade e dilata o seu campo consoante lhe impõe o instinto de salvação. (pp. 139/140)

Porém, a sua vida na aldeia, para lá da efusão da liberdade, do contacto com a natura (não é um dos seus primevos pseudónimos o de Bio Agros?), das artes cinegéticas em que se aprimora, não deixa nunca de ser entrevista pela acutilância de uma consciência social, provida de uns olhos perscrutadores e críticos, bem servidos de uma mente insubmissa e sempre denunciadora de uma miséria e atavismo de um colectivo: o povo, e nomeada e incisivamente, o povo das terras beiroas.

E assim, por ali e aqui, muito a propósito o vai escrevendo:

Como pôde isso ser, perguntar-se-á à face de outros povos europeus, sedentos de progresso tanto nas cidades como nas comarcas rurais, onde não é possível verificar um estádio tão recuado de humanidade? (…) Os agentes mórbidos deverão procurar-se exclusivamente? Ter-se-á perdido na guerra e na aventura asiática o melhor da raça, para não restar mais que rebotalho? Seria a mão eclesiástica e fradesca e o fidalgo, que tinham interesse em manter o povo na sujeição e no obscurantismo, que cultivaram esta relice? Ou foram os reis, que não passavam de grandes parasitas sem ideal nem grandeza e que se preocupavam apenas com suas pessoas, que lhe transmitiram a vista baixa e porcina, que só bem destrinça a bolota?

 Os veros habitantes da aldeia figuram nas páginas dos meus romances, retocados ou em carne viva, descritos parcialmente ou na íntegra, debaixo de uma leve mascarilha. Os próprios – já tive a prova – reconhecem-se no leve farricoco. (pp. 150/151)

 

Cap. VI

Terminada a vilegiatura na aldeia, dá-se o regresso a Lisboa e o retorno ao 3º andar da pensão, na Rua do Crucifixo. Decorre o concurso sem êxito para amanuense dos Caminhos de Ferro. Acontece o congresso dos ex-seminaristas, onde o contestatário emerge estrénue perante a intrusão de “observadores” da Igreja, num acto a que esta, de todo, era alheia.

Tendo, desiludido, por ora, desistido do jornalismo refugia-se na literatura como num convento de Monte Atos.

Lê, exaustivamente, com a sofreguidão cultural que lhe está na natureza: Entrava para a Biblioteca Nacional com o abrir do portão e era o último a largar (…)  Tão encharcado andava eu de literatura que, involuntariamente, cheguei a falar como os heróis de Camilo  (…)  Curei-me do vernáculo (…) mas não deixei de prosseguir na formação autodidáctica. Lia já correctamente os italianos e não se fala nos espanhóis.

Entretanto, procede à tradução de Il Santo, de Fogazzaro.

Porém, toda este frenesim, não obnubila nem embota o ímpeto do incoformado:

Entretanto, a tormenta revolucionária condensava-se sobre a capital e não havia ninguém que se furtasse ao seu fluido magnético. Eu não era dos menos possessos e dos de pé alceiro. (p. 167)

A propósito da chegada a Lisboa de Bernardino Machado, conselheiro da monarquia aderido ao Partido Republicano, a repressiva polícia de João Franco trava violentos confrontos com a multidão presente.

Nunca tinha visto o espectáculo da multidão desencadeada. Um mar tempestuoso é uma imagem imperfeita. As ondas encabritam-se furibundas e quebram-se contra a praia numa martelada estrondosa, mas com um movimento de aríete e de ressaca invariável. A multidão cresce como a onda, ulula como a onda, mas não quebra como a onda. Reparte-se, e os destroços levantam-se com igual ímpeto, e animado de maior cólera. Tudo lhe serve para agredir a começar pelas pedras das calçadas.

Houve centenares de feridos nas refregas sucessivas com as forças da ordem pública. Meia noite, uma efervescência heróica marulhava pelos cafés pelos cafés e onde houvesse gente. Era até um problema de higiene varrer o regime pandilha que conservava o País no estado de piolheira, como lhe chamava o próprio D. Carlos, o que não desconvinha a governantes e magnates que assim podiam continuar no santo pagode, dormindo a sono solto e sem quebreiras de cabeça à barra da direcção. O povo da província revolvia-se no seu muladar de estupidez e miséria, incapaz de conceber que a vida pudesse ser outra coisa que não fosse suar, tressuar e resolver o problema das atribulações à força de braço e com a ronha que basta para enganar aqueles que tinham por bestas – e de facto seriam, pelo menos mais bestas do que eles – morrer e ir para o céu. Esta era a voz da terra portuguesa ouvida no silêncio e que o meu cenáculo se esforçava por interpretar em público. (p.169)

Mas para além da mera descrição dos factos que são História, Aquilino aproveita toda a ocasião para expressar e consubstanciar, claramente, os seus pontos de vista político/críticos:

Em teoria, os reis podem ter sido necessários e úteis. Entre nós, nada disso. Limitaram-se a cultivar dentro da Nação a sua pessoa. Cadeias, pelourinhos, um ou outro castelo, que mais lhes devemos? Escolas, monumentos, pontes, estradas? Nada se ergueu pelo seu alvedrio. As poucas escolas que fundaram eram para os filhos segundos se conformarem com a espoliação dotal, ordenando-se padres ou legistas. As pontes construíram-se nas esmolas dos peregrinos que precisavam, no Inverno, de atravessar os rios de jornada para Santiago, a Senhora da Lapa, a Senhora da Cabeça, e outros santuários miraculosos. As estradas fizeram-nas primeiro os Romanos, depois os frades para ligarem convento a convento. E os monumentos, que poucos são, vieram arquitectos estrangeiros edificá-los. Com dinheiro do bolso real? Com o suor e sangue da besta popular.” (p.175).

Apesar da análise friamente lúcida do presente e do passado, Aquilino não deixa de se olhar no profuso espelho interior, e amargo constatar:

Eu era um ocioso, autocrata de todo meu inditoso tempo (p.176)

A coerência provia-se também do acto à palavra adido, e nas mais insignificantes atitudes, bem reflectia a ausência da muar subserviência assoladora do acéfalo cortesão, repimpado na mordomia imérita:

(…) subia eu a rua que costeava o Parque Eduardo VII (…) e descia a cavalo o príncipe Luís Filipe, com o seu ajudante de campo à estribeira. Não havia mais ninguém no descampado. Ele olhou para mim ainda a seis passos de distância, fitou bem os olhos azuis de Coburgo na minha pessoa, à espera, por certo, do meu cumprimento, a cortesia elementar, atávica, do súbdito pela Alteza. Eu aguentei o olhar, mas não ergui o chapéu.

Porque fora eu descortês? Porque era um revoltado contra o regime, infeliz demais disso, e comungava no descontentamento e republicanismo de Lisboa inteira.” (pp.175/176)

Entretanto, em síntona medida com este tão pessoal fervor republicano, o furor contra a monarquia tomava foros desmedidos com a condenação à morte de Gorki, pelo Czar.

Aquilino, como “ghost writter” (le nègre), começa a traduzir autores franceses para a Livraria Tavares Cardoso. O que lhe traz duplo benefício:

Além de firmar o punho na arte de redigir, em que era peco e todo o esmero não é demais, aprendi o léxico francês. Os réditos, ainda que pequenos, permitiam tornar-me forro economicamente da família. Que alívio moral não ter necessidade de estender-lhe a mão e sacar ora e sempre uma lamúria de pobre de romarias! (p.181)

Porém, aquela Lisboa medíocre e tatabitate inchava nos contrastes da pobreza com o high-life da corte. O escritor vê-os assim:

Os velhos do Asilo de Santo António, depois que nos cansávamos de subir e descer a platibanda oriental, acudiam mais pressurosos que carraças a cobrar-nos o vintenzinho da cadeira de ferro. (…) Pela tarde, a Corte exibia-se no costumado corso, não raro D. Carlos à frente a guiar o phaéton puxado pela famosa parelha de alteres colo de cisne, em seguida tudo o que Lisboa comportava de belas equipagens, lustradas, polidas, reluzentes, e de cavalos de raça, a que os automedontes de libré vistosa procuravam incutir heráldico donaire. Dentre elas, logo após a carruagem real, ao lado os imponentes maridos de calva ebúrnea, davam nas vistas as três condessas favoritas – de cujos nomes a maledicência do Paço compusera uma legenda a favor dos silfos lúbricos do rei: Guarda – Paraty – Beringela. Essas e as demais damas, dignatárias ou apenas titulares, Formosas ou mortas por sê-lo, faiscavam de pedrarias e os maridos, brasonados, de peitilhos brunidos e cartola de sete reflexos, todos graves, como se praticassem rito de sisuda pragmática marcharem atrás do amo e senhor. (…) D. Carlos parecia mais dominioso, as açafatas mais derramadas, e os velhos jarretas da Corte, da política e da Banca, murchos como malmequeres, cabeça a descair sobre as camisas gomadas pelas servas, embainhados nas sobrecasacas do Amieiro, esmaeciam de olhos baixos, pois que já ninguém os saudava, nem ao rei. (pp.181/182)

E este passo descritivo, esta função catálise também tão ironicamente informativa quanto acutilante, volta a saltar em regateado corgo do Paiva para o leito da nostalgia, para o apelo das verças, para o cidadão das Terras do Demo, que na urbe efervescente, ouvia o apelo da terra mãe, nele buscando balsâmico alento do mais singelo modo:

Nas belas manhãs eu gostava de ir sozinho Avenida fora, trepar ao bocado de sertão, que era o Parque pouco antes baptizado de Eduardo VII, onde via coelhos a correr, pássaros de tanguinho no bico em vias de construir o ninho. Ali a natureza era a autêntica madre, no seu plano primitivo, ou quase. Lá estava no alto uma casa de granja, quadrada e com telha moura, ares de ‘monte’ alentejano, desdobrada em abegoaria e alpendres, o Casal Ventoso, onde se vendia um copo de leite, se nos apetecia este mimo rural. (p.183)

Cap. VIII

            E já que fora à cidade buscar olhos para ver, direi mesmo, sentidos para gozar a natureza… (p.188)

Se até aqui perceptibilizamos o escrito como a ascenção prodigiosa a alta pico, consideraríamos este capítulo como o espaço em que o alpinista ganha o fôlego para o empreendimento, cume à vista, rarefeito o ar, frementes os músculos e erguido o olhar.

É, no nosso entender, este conjunto de quase quatro dezenas de páginas, uma das mais belas leiras lavradas pela caneta de Aquilino. E para a rasgar, o Mestre foi à terra premunir-se da seiva vital, a pretexto da inspecção militar. E mal avista a aldeia, tudo se cinge ao apostrofado:

a  minha alma desnevou (p.186)

E a partir daqui sucedem-se a narração, a descrição, a narração, nalgumas das mais belas páginas da literatura portuguesa de sempre, num rigor do observado, numa pormenorização do ver e num deleite do sentir. Emotiva e expressivamente vai dizendo:

Tinha-me deixado possuir da feitiçaria das coisas ternas da natureza, de que só então dei conta que existiam. Eu reintegrava-me no meio de que derivara, e nessa operação sentia a delícia das delícias. (p.187)

Cumpre aqui fazer referência a um ónus há muito redutor da narrativa aquiliniana. Apodar, de modo simplista, de regionalista a obra do Mestre, tomando o todo pela parte, é em nosso ver, pouco especiosa rotulação e aligeirado cometimento. O regionalismo relegado para folclore provinciano, terá origem infelizmente perdurável, numa frase do prefácio escrito por Malheiro Dias, em Lisboa, em 1913, para a primeira obra a ver o prelo, Jardim das Tormentas.

(…) fica-lhe desde esta hora devendo um romance regional onde formigue, reanimada pela vida do seu talento, toda a comparsaria rústica da Beira.

Monárquico, conservador, romântico, idealista, e quando em 1913 data de um século a introdução do romantismo em Portugal, Malheiro Dias, mais virado para Júlio Diniz que para Eça de Queirós, ignorante de Modernismos e Futurismos, no respeito pelo revolucionário que sabe ser Aquilino, assim o vê e aristocrata da inteligência o considera.

O lídimo professor e crítico Óscar Lopes (5 Motivos de Meditação, Campo das Letras, Porto, 1999) escreve a este respeito e sobre a inépcia crítica de o ler (Aquilino) como simples autor regionalista:

 A implantação regional de uma boa parte, sobretudo no início, dessa obra, e um estilo fortemente impregnado no léxico e na fraseologia, por essa regionalidade beiroa e ainda pela prosa clássica seiscentista, por ingredientes variamente humorais de um vocabulário heterogéneo, que vai desde o calão a outros registos coloquiais a expressões selectivamente letradas, de matiz latina, grega, técnica ou cosmopolita, estas coisas satisfizeram uma certa tradição camiliana e granjearam-lhe os entusiásticos admiradores dos anos 10 e 20, mas depararam desde os anos 30 com uma barragem desvalorativa, que não afectou as camadas etárias já ganhas mas dificultou o acesso crítico das gerações mais novas ao cerne aliás resistente da obra. É um facto que Aquilino é emeritamente destro na apreensão do ambiente natural e humano ao nível, de resto bastante complexo e paradigmático, de uma sociedade rural já arcaica em 1900, cujas maranhas ele agarra com um punho balzaquiano, mas os seus dons de ficcionista deram também excelentes provas na evocação de variados meios históricos ou urbanos lisboetas. (…) Esta profunda simpatia de Aquilino pela vida animal nas suas manifestações mais graciosas ou mais dramáticas nada tem de sentimental. É a mesma simpatia que ele estende a toda a resistência dos pobres e explorados contra a violência cruel ou hipócrita, (…) é por isso que Aquilino Ribeiro constitui na nossa literatura (…) uma riqueza arrecadada para todo o nosso sempre.

 Na escrita de Aquilino, se porventura encontramos as mais subidas páginas em romances, novelas e contos adstritos a uma região, toponimicamente eternizada como Terras do Demo, prevalece aqui, sem incompatibilidades, com denúncia, o verismo e a determinante influência matricial, ao invés do propagado pendor para o delicodoce e bucólico iludir da vida áspera e dura, com a miséria tão omnipresente do homem rústico, do camponês de sempre.

Um olhar mais atento descodificará célere que certos vocábulos e expressões só são falas do povo pelo mais simples dos motivos: sincronias de um falar de outrora, primevo, português de lei, retidos num dizer não contaminado pela impermeabilidade geográfica.

Não nos diz Aquilino que, à excepção de Lisboa, Porto e mais duas ou três cidades do país, o português vivia em plena Idade Média? Pois é esse falar d’antanho que o homem de hoje tanto estranha na equidade de um falar nivelado pela  modernidade, pelos média, pela globalização. Nos anos 20 e 30, um cidadão de mediana cultura ainda trazia nos ouvidos o léxico hoje estranhado.

E que mais não fora, ninguém ignora o esmerado, cultivado gosto e a proficiente erudição que Aquilino detinha da língua e que em tantas páginas concretas, dedicou seu aparo de sapiente filólogo (p ex, vide revista Beira Alta, vol, I, Fasc.III, 3º trimestre de 1942, pp.115 a 123, o ensaio etimológico titulado ORCAS, DÓLMENES E ANTAS).

Também é sabido, e recordo aqui as diligências de espólio de inventário que fomos incumbidos de realizar, conjuntamente com o ex-edil de Moimenta da Beira, estimado amigo dr. José Agostinho, onde deparámos com significativa quantidade de antigos dicionários e elucidários, decerto adequadamente “consumidos”.

Agora, reduzir, por exemplo, estupor a feia imprecação e acintoso ápodo da hodiernidade, é ignorar o espanto profundo assim registado por Fernão Lopes, na Cónica de El-Rei Dom Fernando, de meados de quatrocentos, em figura de rei quedado em seu estupor!

A seu tempo e noutro escrito se voltará ao assunto.

Mas que fique a ideia e que se ultrapasse a redução: Aquilino universal, sim. Regionalista, só pela telúrica condição, húmus seivador de páginas das mais sublimes. E não é o Mestre que no-lo diz?

Não teria eu torcido a vocação e o que eu dava era um lavrador teso, capaz de lavrar de mão na rabiça terra para um moio de centeio na manhã orvalhada, assentar o mangual na eira e fazê-lo zurrar, ir para o arraial de pau argolado, pena de pavão no chapéu mariola e, modo de me tornar interessante às moças, armar um banzé aparatoso depois de riscar no chão o círculo mágico do Malhadinhas : Eh, rapazes, daqui para dentro, mando eu; para fora, vós. Se algum quer a tola rachada, adiante-se!  (pp.190/191)

E que dizer de excertos assim escritos, donde ressuma o amor pela terra e seus filhos, acutilantíssima capacidade de observação, a descrição pictórica em que nada fica fora do fresco, a emotividade e a expressividade delicada e rude e, mesmo que a alguns doa, a vernaculidade ímpar de uma universalidade inquestionável e de um lirismo também inefável:

A esta altura as cerejas, só elas, enfeitam a serra triste e feia. Mas há outras coisas engraçadas para que ninguém olha, tão interessantes como uma écloga de Crisfal: o cebolinho a crescer, cada dia os punhais javaneses de suas tiges a empolarem e altear-se; a erva-molarinha a aveludar o lenteiro, e os estendais de macela, malmequeres e boninas, em certos prados, a alcatifar o solo com sua lençaria indiana.

 A perdiz já não cucuritava na crista dos muros. Passava escoteira com os perdigotinhos, ágeis como argalhos levados na regaçada do vento, a mãe à frente naquela sua marcha tão fluida que não se se alcança ver-lhe o passo, o pai perdigão, cobrindo a rectaguarda, pronto com uma manobra diversiva a distrair o inimigo, podengo, ave de rapina, o homem. O Argos dava-lhes uma corrida, eu berrava-lhe, e ele suspendia-se como um bronze, contrafeito mas advertido em seu instinto de bicho bem-educado que sabia que não tinha licença. Os melros cantavam, recantavam para que a fêmea se não cansasse no gineceu enquanto boiavam por cima dela, a desafiarem-na debalde para a bela gandaia, as nuvens, o vento, outros pássaros, e a rola e o cuco desferiam na coruta dos pinheiros um bolero à Ravel. E as águas, empurrando-se na ribeira, saltando dos cômaros, fusgando na rega, ou, soltas da represa que se tapou à noite, taramelando calçada abaixo, rasgavam, como relâmpagos de brancura contra a claridade baça do céu de trovoada, clareiras à morrinha eu que ia correndo a lide rural. (pp.189/190)

A descrição da égua Rubisca é outro momento alto deste capítulo, sendo o mais pungente aquele que Aquilino nomeia como o tributo a Vénus, uma Vénus Calipgía negra de alma e retorta (p.202) aquando do seu pendant pela jovem órfã, sobrinha do sub-delegado de saúde de Barrelas, da descoberta pela tia que a não quer mais em casa e da quase fuga célere para Cabeceiras de Basto, onde uma irmã a acolhe. Aquilino, cavalheiresco, acompanha-a na diligência até Mondim da Beira. Depois, o dinheiro finado e sem alternativa de transporte de retorno, mete à terra dura e aos 25 quilómetros de casa, as botas, que eram dum estilo muito em voga, calf amarelo e canos de lona, que pelo uso, dureza e inusitado do trilho distante de avenida, num ápice se arrombaram completamente. E daqui, Serra da Nave afora, Alvite, Cuvos até chegar a casa Apeteceu-me quase ir de rastos e o facto é que a cada momento me atirava ao chão a tomar coragem. (p.202)

E é a finalizar o capítulo que uma frase do pai, Joaquim Francisco Ribeiro, se lhe imprime tão lapidarmente na memória que, sem recearmos o errar que nunca será, na pior das hipóteses, grande, temos aqui a matriz do que vai ser ad perpetuam o seu ex-libris, Alcança quem não cansa:

Parece-me que a tua não é boa, boa… (a estrela). Mas tem coragem e nunca desconfies de ti, que o mundo não é preciso que no-lo diga o filósofo alemão, não é outra coisa senão vontade. (p.204)

Que o mesmo é dizer: Tem coragem. Nunca desconfies de ti. O mundo não é outra coisa senão vontade. E quem não cansa alcança!

 

Cap. IX

O retorno a Lisboa. As mudanças de hospedaria pelo ciúme provocadas em noivos de moçoilas quebrantadas. O Café, ponto de encontro de revolucionários republicanos. O convite para ingressar na Carbonária. Os nomes da Alta Venda: Machado Santos, Luz de Almeida, António Maria da Silva e o “supremo arquitecto, António José de Almeida.

A tradução da Anarchie, de Jean Grave.

Entretanto lancei-me a fazer literatura por minha conta e risco, que fui acumulando como um construtor de gaitas que houve na minha terra, de quem, ao morrer, encontraram uma arca cheia delas de todas as formas e feitios. (p.211)

Uma novelazita que destinei à página literária do Notícias, dirigida por Schwalbach, foi como pedra que caiu num poço. Escrevi outra tomando como centro de intriga as festas dos Remédios, em Lamego, que dói aceite pelos Serões e publicado. Imaginei uma série de artigos para a Ilustração Portuguesa, género folclore, e o primeiro que fui levar à redacção tinha por assunto e título: Feiras. (p.211)

Tudo junto, mais um viaticozinho minguado enviado pelo pai alma paternalmente hipersensível que me ia detectando, e como que presenciando os meus esbracejamentos. (p. 212) dava apenas para levar uma existência atribulada.

A nova tertúlia de José Augusto Ferreira, pianista de grande virtuosidade, Joaquim Granja, Carlos Duque, Duffner, Avelar, Cortês Pinto, onde pouco a pouco eu fui tendo voz onde antes só tinha ouvidos.

Mas, para além da música, recém-descoberta e da literatura, sempre, porfiadamente a descobrir, a ideia nodal era a do derrube da Monarquia para fazer a regeneração do país, que Aquilino assim vê:

Os monarcas portugueses, todo esse fastidioso chorrilho de paranóicos, epilépticos e comilões de orelha e tromba de cerdo, a cada um dos quais, uma vez defunto, o mais travadinho dos historiadores acorria a pôr o chinó dum cognome banabóia, afectos a ver a sua inútil pessoa divinizada e indiscutida à testa do rebanho, supondo por hipóteses que eram transferidos para a vida civil, tenha-se por garantido que não davam uma para a caixa no que quer que fosse. O senhor José Maria dos Santos nãos quereria a feitorear uma malhada de homens nas suas terras do Alentejo.

Em pleno século XX, antes de Fontes Pereira de Melo, Portugal, salvo a capital e duas ou três cidades, vivia em plena Idade Média. No geral, o povo sertanejo continuou a viver a vida dos antepassados de há quinhentos, mil anos, habitando choças sem ar, sem luz, bebendo a água das fontes de chafurdo, ignorando a higiene e o conforto. Muitas das vilas continuavam ligadas à sede distrital pelos velhos caminhos romanos e célticos, como ainda hoje sucede com as aldeias em relação à sede do concelho. O poder central, à semelhança de uma grande santola, com as patas a vibrar aos quatro pontos, se fazia menção de saber que existia e onde existia a récua numerosa de portugueses, era apenas para os sugar.

O pobre labrego do tempo do senhor D. Carlos – eu fartei-me de vê-lo a migar a malga do caldo, meio entalada entre os joelhos, com pão centeio de oito dias e limpar as ventas ao canhão da vestia – comia da leira e da horta visto não ter posses para comprar mercearia. Trajava o burel e a estopa do seu tear, e vivia e morria sem nenhuma espécie de assistência. (pp.215/216)

Mas a acerada crítica, a lúcida visão in locu sorvida, não se queda em meias tintas, e o mangual continua a matraquear:

Visto do alto, o Portugal do senhor D. Carlos era um casarão velho esburacado, com um inçadoiro prodigioso de gusanos. Ouve-se dizer aos que têm o culto das ideias fossilizadas e ajoelham ao passado, porque o presente não lhes liga importância: Era um rei bom. Porque é que havia de ser mau ou dar impressão de maldade se nada lhe faltava, e a vida lhe corria sobre rubis? (…) A D. Carlos não chegava a lista civil, passou a receber por baixo da capa das mãos dos ministros venais. Feia coisa, comparável à do sacristão a roubar a cera das almas, do maioral que induz os moços do bardo a maquiar a queijeira dos amos. (p.217/218)

E seguem-se os pormenores da vileza do processo de liquidação da dívida da Casa Real ao Erário que metem a moscambilha toda em mesmo saco adentro.

É a coragem e desassombro de Afonso Costa interpelando no Parlamento João Franco, que faz eco da indignação que lavra como fogo em giestal seco:

Faça hipoteca à Casa de Bragança e quando o rei houver restituído ao País o que lhe tirou, diga-lhe então: Agora retire-se, não queira que o País o meta numa prisão como criminoso vulgar! (…) Por menos do que fez o Sr. D. Carlos, rolou a cabeça de Luís XVI no patíbulo! (p.221)

A reacção do rei à constatação de que o arraial ameaçava subvertê-lo foi pensar abdicar no filho mais velho. Na improcedência da proposta manda para a rua João Franco de pau feito, como um caceteiro, a conter o ímpeto da nação ululante. Foi o que o perdeu. (p.212)

Aquilino passa a milícia secreta da República. É aqui que conhece Alfredo Costa, na pensão da Rua dos Retroseiros ou no Gelo.

 

            Cap. X

Como modo de vida, Aquilino escreve para revistas e jornais republicanos de Lisboa e do Porto, recebendo a mor das vezes, como pagamento, um grátis por Deo.

 

Alfredo Costa alicia-o para uma empresa literária: escrever um romance em fascículos, de publicação periódica e distribuição em mão e ao domicílio – prosa de enredo ameno e de escacha-pessegueiro.

Encontro na noite, em Algés de Cima, de revolucionários da Alta Venda: Joaquim Pinto Ramos, Carlos Duque, Duffner, Humberto de Avelar, Alfredo Costa, Mariano Santana, Manuel Buíça, dr. Gonçalves Lopes, Raul Pires… Projectos idealistas em prol da República e para pôr fim à tirania de João Franco, exaltadamente conjecturados mas, Em conclusão, não se chegou a nenhuma conclusão (…) (p.235)

Define-se o enredo para o supra citado romance em fascículos: há-de ser a história brejeira da sedução da filha do jardineiro da Tapada das Necessidades imputada a D. Carlos. O título daí sairá: A Filha do Jardineiro. Será ilustrado por Colomb com colaboração de Myriel Myrra, sendo o 1º fascículo da autoria de Aquilino e o 2º de José Augusto Ferreira da Silva.

O acolhimento do público fora favorável, e de Lisboa e Porto, passava-se a Évora, Coimbra, etc.: uma nova Maria do Adro, condimentada, afora o sal próprio, com pimentão monárquico e malagueta revolucionária. (p.240)

 

Cap. XI

A 9 de Novembro de 1907 Aquilino é abordado por um dos cabecilhas da Alta Venda, Luz de Almeida, para anuir a esconder no seu quarto, à Rua do Carrião, por dois ou três dias, a metralha guardada no consultório do dr. Gonçalves Lopes.

No dia seguinte, chegada a “encomenda”, aparecem Gonçalves Lopes e Belmonte de Lemos para armarem as granadas.

No meio da perigosa função batem à porta. Era uma inspecção do senhorio, fumando grosso havano, acompanhado de outro indivíduo e acolitado por D. Bona, a esgrouviada patroa.

Mal saem, ludibriados com a ficção de uma visita médica a Aquilino, para justificar o ajuntamento, dá-se terrível explosão. Ambos mortos. Incólume, Aquilino, é preso, ainda atordoado.

Na rua, nas mãos da polícia, depara-se com o fotógrafo da moda (mais tarde seu duradoiro amigo), Josuah Benoliel que intenta o disparo e a quem Aquilino, lesto, enxota.

Sucede-se o interrogatório pelo temível juiz Veiga, o grande papão dos republicanos, o terror dos anarquistas (…).

A astúcia pronta de Aquilino, e a rápida capacidade de improvisação, justificam o injustificável, na defesa, não de si, mas, fundamentalmente, de seus camaradas. Aquilino assume-se anarquista e com a dose certa de ingénuo compungimento que adrega a cair nas boas graças do magistrado:

Já confessei tudo a V. Exa. Eu sou um serrano em Lisboa… Mal assentei o pé, pus-me a ler Kropotkine e, por desgraça, na minha condição, pobre, desamparado, sem futuro, deixei-me contaminar pelas ideias extremistas. Logo aqueles amigos aproveitaram a minha inexperiência (refere-se aos falecidos, a quem já nada de mal viria…) e meteram-me nesta camisa de onze varas. (p.254)

E o certo que é, uma vez alinhavada a versão, nunca dela se descoseu, e sem tergiversações, nunca denunciou nenhum companheiro, nem perante acareações e/ou ameaças várias.

Aquilino é encarcerado na esquadra do Caminho Novo, e mal mede o espaço e o “luxo” da cela, logo lhe acode Tenho que me pirar! E daí em diante passa o tempo, que é todo, a estudar o processo de abrir o travador ferrolho, por dentro.

 

Cap. XII

Os dias escoam-se lentos. Sucede-se novo interrogatório, agora a cargo do Chefe Romão Ferreira que o alicia à delação com a expectativa de uma eventual bolsa de estudos no estrangeiro.

Acareação com a locatária dos Lóios. Rotinas de cárcere. Estudo psicológicos dos guardas, das praxis, dos preparativos para a fuga, já esquissada.

Nova inquirição, no Juízo de Instrução Criminal, feita pelo dr. Alves Ferreira. Cimenta a sua aura de ideologia anarquista: Não era Cristo um anarquista?

Consolida a sua história do mero guardião de explosivos como favor para servir um amigo. E dali não arreda pé nem palavra.

 

Cap. XIII

Nova inquirição. Acareação com um suplente do Grupo, o sapateiro da Rua do Cardal. Artificioso e lesto, justifica um cartão com o nome do homem encontrado numa sua algibeira, por lhe ter mandado pela criada da pensão calçado a consertar.

Primeira tentativa de fuga gorada. Consegue justificar a abertura da porta da cela como acto de negligência do guarda.

 

Cap. XIV

Chega ao Tejo um navio alemão, o Hohenstaufen, que vinha carregar dissidentes para Timor.

Recebe as primeiras visitas: o José Monteiro (dos Alhais) e sua esposa, Dª Casimira, o Amável, da Casa Nunes Correia e a mulher, o senhor Garcia com a filha, e o Raul Pires. Traziam boas palavras, incentivos de coragem e mimos, comida de toda a espécie e mudas de roupa.

Lá fora constava-se: Fulano não tuge! (…) Aquilo é fixe como o aço. Não é ele que dá com a língua nos dentes. Nem uma só palavra lhe arrancaram comprometedora para quem quer que fosse; nem um nome. (p.313)

O que lhe granjeia admiração, no exterior e perante os correligionários, e permite entrever e inferir da dura têmpera em que este Homem era forjado. E não esqueçamos que tem, apenas, 22 anos!

Entretanto, à notícia da prisão, inevitavelmente, grande foi o desgosto dos pais. Sua mãe, Mariana, dispôs-se mesmo a vir a Lisboa jorrar-se aos pés da rainha a pedir clemência pelo filho. Foi o António Monteiro, dos Alhais, pai do democrata Álvaro Monteiro, ilustre advogado com escritório em Viseu, tio do actual director do Expresso, Henrique Monteiro, que a dissuadiu dessa loucura: mulher da Meseta, rija e dura como uma espada, mas sã do entendimento, não deu esse prazer ao padre e aos trogloditas da terra. (p.315)

Na véspera do navio para Timor atracar, Aquilino, com um sangue frio invulgar, de modo rocambolesco e corajoso, logrou o êxito na sua segunda tentativa de evasão.

Depois de uma noute de andarilhança pelas ruas de Lisboa, disfarçado de moço vendedor de grelos, é Alfredo Costa a resgatá-lo da primeira taverna da Travessa da Palha, onde a fraqueza e o cansaço o haviam acolhido.

 

Cap. XV

Para compreendermos com nitidez a postura de Aquilino Ribeiro face aos acontecimentos do 1º de Fevereiro de 1908, dia do regicídio, é fundamental este capítulo.

Inequivocamente, Aquilino Ribeiro é um republicano. Sem quaisquer ambiguidades, está ao lado dos revolucionários. Sem pejo, faz-se passar por anarquista perante os juízes de instrução criminal que o interrogaram aquando da sua detenção. Integra a Carbonária. Pertence à célula designada de Alta Venda. É camarada e amigo de vários outros revolucionários radicais republicanos, entre os quais Alfredo Costa e Manuel Buíça, aqueles que vitimaram o rei e o princípe herdeiro. Sobre Buíça, segundo a História de Portugal, vol. 6, ed. do Círculo de Leitores, direcção de José Mattoso, pág. 293 se refere: Aquilino Ribeiro era padrinho de um dos seus filhos (nascido em Setembro de 1907).

É guardião – um pouco forçado e ingenuamente – no seu quarto da Rua do Carrião, por dois ou três dias, de dois caixotes contendo explosivos que, intempestivamente, de forma imprudente e letal, vitimam os seus dois companheiros à hora presentes, a confeccionarem bombas, o dr. Gonçalves Lopes e Luz de Almeida.

É preso a seguir à explosão, a 10 de Novembro de 1907. Evade-se no início de Janeiro de 1908, após um cativeiro na esquadra do Caminho Novo, de aproximadamente 60 dias.

É acolhido no primeiro dia da sua fuga nas águas-furtadas de um prédio pombalino, a 150 metros da Parreirinha pelas escadinhas de S. Francisco, e a menos de 200 do Ministério do Reino, podendo ouvir, se não houvesse a interferência acústica das paredes, os espirros do Sr. João Franco. (p.325)

A casa pertence a duas senhoras idosas que o acolhem por interferência de Meira e Sousa, director do País. Estamos a 12 de Janeiro de 1908. Está Aquilino com 22 anos.

Os amigos vinham visitá-lo, disfarçado sob o nome de Alberto Ramos, para manter as iniciais. Traziam-lhe notícias e quebravam-lhe o enfadonho tédio. Aquilino Ribeiro ganhara alguma notoriedade com a sua evasão, que quase provocara uma crise hepática em João Franco (p.329). Era um exemplo: Traduzia o poder da insubmissão das forças ocultas. (p.329)

São mobilizadas todas as polícias do aparelho de estado, desde a polícia de segurança à secreta, passando pela Guarda Municipal e Fiscal. A sua cabeça está a prémio pelo país fora, com instruções expressas e elucidativas de empregarem todos os meios ao seu alcance para o deter.

Entretanto, a vaga revolucionária não pára: Encapelara-se a onda contra a Monarquia e já não havia diques que a contivessem. (p.333)

A celerada Lei de 13 de Fevereiro e o Decreto de 28 de Janeiro que habilitava à expulsão reino e degredo para uma província ultramarina (Timor) todos os opositores ao regime, dão asas ao descontentamento e apressam a queda do regime.

Alfredo Luís da Costa visita Aquilino Ribeiro no seu refúgio para lhe dar conhecimento da tentativa de sequestrar ou assassinar João Franco, para pôr a revolução na rua. Aquilino sugere-lhe que isso seja obra de agaloados, militares de patente.

Alfredo Costa conta que leva o Manuel Buíça consigo, mais dois antigos guardas-fiscais do posto de Olivais, demitidos por João Franco, mais um rapaz da Costa do Castelo, Domingos Ribeiro, empregado num armazém de vinhos um pouco acima da Sé.

Alfredo Costa, fanático, acha o rei mais responsável que o João Franco pelo Decreto de 28 de Janeiro, e assim o afirma:

Este decreto, que é senão um pacto de criminosos depois da liquidação miserável dos adiantamentos? Desde esse dia, o rei é o capitão da quadrilha, que promoveu Franco a seu lugar-tenente. O que D. Carlos merecia sei eu… (p.341), ao que Aquilino lhe replica, com estas lúcidas razões:

Tudo o que se fizesse neste momento contra D. Carlos era contraproducente. Lembre-se que nos países atrasados a tradição tem muita força. Não esqueça também que este povo está há sete séculos ajoelhado diante do rei como de Deus. Tínhamos todo o mar de sentimentos, os naturais, os obtusos, os artificiosos, os herdados da nossa avó torta encapelados contra nós, a favor do trono. A nau republicana, de mau madeiramento, mal calafetada, inexperta nas águas revoltas, ia-se ao fundo, irremediavelmente. Ia-se ao fundo debaixo do peso das responsabilidades com que não sabia, nem teria a coragem de arcar. (pp.341,342)

Alfredo Costa está decidido a abater Franco, velha raposa sabida:

Vamos dar-lhe caça até o descobrir. Nem no meio do inferno nos escapa. Ele há-de ir hoje ao Terreiro do Paço esperar a Família Real. Fuzila-se mesmo lá! (p.342)

Aquilino leva um pouco à conta de inconsequente bravata esta decisão:

Eu, no fundo, guardava um pouco de cepticismo sobre aquele empreendimento, que me parecia destinado a gorar como dezenas de tantos outros. (…) E vi-o partir na convicção de que tudo em Portugal fica em vê-lo-emos. (…) E não pensei mais nisso.  (pp.343,344)

E porém, horas após, entrou pela janela entreaberta da mansarda uma lufada de sons que me pareceu singular (p.344) (…) vi gente, gente que corria de baixo, singularmente ou por cachos. Vinha do Largo do Pelourinho, da Rua do Comércio, como tocada por um látego invisível, e, com maneiras de comportas, deitava a correr pela calçada de São Francisco e a Rua Nova do Almada, como para pontos de refúgio. Depois, as golfadas de gente foram-se multiplicando, e era a população transida, tomada de pânico, a furtar-se, dir-se-ia, a uma hecatombe. Ao mesmo tempo, chegou-me aos ouvidos uma zoada, cortada de gritos e estridências que me não soube explicar. E disse para comigo: então sempre era a sério? (…) E fiquei de todo desassossegado. (…) Subitamente abriu-se a porta de arranco e entrou no meu quarto Tavares de Melo, ao tempo redactor da Vanguarda, que era visita da casa:

— Mataram o rei e não se sabe quem mais da família real…

— Mataram o rei!? Que grande desconcerto! Exclamei, não de pasmo nem de afogo, emoções próprias do súbdito comum de três dinastias, mas o republicano, que via ir por água abaixo as suas esperanças e o fruto da messe que alourava. (pp345,346)

 (…) Ninguém veio durante muito tempo aliviar-me da minha mortal ansiedade e pesadume. Finalmente chegou Meira e Sousa que me pôs ao corrente do ocorrido… (p.346)

 

Cap. XVI

Espraia-se o escritor investigando pelo contado e relatado a tentar compreender o ocorrido, e conclui que, tendo o ditador João Franco sabido-se em perigo, houvera negaceado os perseguidores. Estes, no enervamento de tão longa espera ansiosa vêem chegar a Família real. De João Franco, nem sinal. O desespero toma Alfredo Costa, que corre ao Domingos Ribeiro para alertar o Buíça de que o filho dum cão tornara a escapar. Os três conspiradores estão juntos. Não sabem que mais fazer, mais preparados para a morte que para a vida, Alfredo Costa questiona Buíça: — E agora?… Se liquidássemos a cambada? (…) Buíça, responde — Vamos a eles! (…)

 D. Carlos tinha caído cerce como um roble, debaixo por certo das balas de Buíça, e igualmente o Príncipe alvejado à queima-roupa por Costa. (p.353)

Mais tarde, Aquilino observa a Humberto Avelar:

— É estranho que dois homens de são entendimento tivessem variado assim de chofre num caso de tanta magnitude. Quem acredita que não procedessem segunda longa e madura premeditação?

— Psicologicamente compreendo muito bem que assim houvera ocorrido. Costa e Buíça tinham largado de casa, como caçadores em África, numa batida à pacaça. Não descobriram a pacaça e rompeu-lhes o leão. Atiraram ao leão, arrostando com todos os riscos, e tantos foram eles que deixaram lá a pele. Seja como for, o rei foi vítima das manobras e andanças tortuosas do seu primeiro-ministro. Se este calcorreasse pelos trilhos comuns, nunca o rei pateava. Pateava ele! (p.354) e remata: O segredo hermético de que se cercou o atentado só se explica pela improvisão…

E porém, atrás da carruagem da Família real, seguiam os condes de Figueiró. No terceiro veículo ia o marquês de Alvito. João Franco vinha num coupé em quarto lugar, pelo motivo de D. Carlos o ter convocado ao Terreiro do Paço. O que, segundo o raciocínio mais lógico, nos levará a concluir uma de duas hipóteses:

a) a intenção era a de matar o rei;

b) a intenção não era a de matar o rei, mas não lobrigando João Franco, pelo acima referido, atacaram o leão.

E não é despiciendo pensarmos que, sendo os três primeiros veículos abertos, facilmente se descortinava quem lá seguia dentro. O quarto veículo era um coupé, que o mesmo é dizer, fechado, não permitindo ver quem lá dentro seguia. E esta simples explicação, no mero campo das conjecturas, no período de tempo que medeia entre a aproximação do coche real e a passagem do quarto veículo, ditou, provavelmente, o regicídio.

Entretanto João Franco, que fugira a correr para o Terreiro do Paço, pretende manter-se à testa do governo. A rainha, porém, sacude-o com enjoada repulsa e ante os dois cadáveres reais, estendidos no chão do Arsenal sobre uma enxerga, haviam soltado a voz da exprobração: — Veja a sua obra! (p.355)

 

Cap. XVII

Este capítulo é um entreacto necessário à culminância de toda a acção anterior. Nele se detém Aquilino esboçando com empenhada humanidade, os perfis de Manuel Buíça, Alfredo Costa, José Maria Nunes e Adelino Marques, estes três, também presumíveis cúmplices. Principalmente, dos dois primeiros. Mais, enquadra o atentado num contexto político-temporal, espaço que nunca deve ser desdenhável ou despicientemente observado, para fazer juízos sobre eventos ainda relativamente próximos. E, de facto, quando Aquilino sobre eles se debruça, sem contraditórios à luz da opinião pública da época, mal decorrido é meio século (1908-1962). Reflictamos um pouco sobre estas palavras:

Condenável por si, pelas leis da vida e as lições da história, condenável ainda pela sequência política, até agora nefasta, do regicídio, não quis tecer um libelo com receio duns, e muito menos uma apologia para agrado doutros. Contei o que sabia e apurei com lisura e respeito absoluto da verdade. O regicídio foi a enfloração lógica de ideias, ódios e revoltas, semeados a trouxe-mouxe por monárquicos e republicanos num solo bárbaro, propício à violência… Que tinha a esperar uma realeza mucilaginosa, atrofienta, caída no hebetismo, sem outras vistas sobre o horizonte do que conservar a pia farta?

 O regicídio, em tanto que obra singular, terá de integrar-se no plano de demolição, intentado contra o Portugal obsoleto pelos espíritos livres e esclarecidos, desde a época liberal até os nossos dias. Os protagonistas foram o braço armado dessa propaganda. Apoucá-los ou engrandecê-los seria cometimento gratuito que não cabe em cérebro com dois dedos de caco. Mas porque o regicídio em sua nebulosidade, em sua sua paradoxal concepção e feito, quedaria inexplicável sem o conhecimento psicológico das dramatis personnae, eu experimento pintá-las sob todas as reservas do meu fraco entender, (pp.357,358)

 

Cap. XVIII

 Este penúltimo capítulo visa uma análise histórica de D. Carlos, enquanto Bragança com o físico dos Coburgos, aquele que apodava a pequenez da sua terra como piolheira. Explica-nos as teias urdidas que levaram à errada união com D. Maria Amélia da Casa de Orleães, e as consequências políticas daí oriundas. Esquissa o seu perfil psicológico de beata dura, odiando um povo que não compreendia e que nunca a aceitou.

Quanto a D. Carlos, assim se remata, com profunda ironia:

O rei era péssimo, o homem, pelo que li, pelo que ouvi, era um óptimo senhor de coudelarias e montados, com rendeiros e criados que acabaram por ter grande cadastro de terras na Fazenda, ou grossos capitais nos Bancos. (p.392)

Cap. XIX

O excipit destas 400 páginas em 8 rematadas, centripetam-se descomprimindo-se (missão cumprida), na sua própria pessoa, no seu amor por uma cortesã de luxo que muita matéria de vida lhe terá ensinado, na dissipação que viveu durante uns tempos, desforrando-se do calabouço, das agruras de uma existência tão curta quanto ancha, e desbaratando neles o dinheiro que seu pai (sempre cuidoso) lhe mandara da colheita do ano.

Aquilino justifica o interesse dessa mulher por si, da mais clarividente e expressiva forma:

Mais que tudo, devia ter-se obcecado pela visão sensual do auroque que nunca puxara ao arado.

E nesta metáfora nos pinta a imagem, por analogia fonética, do arouquês selvagem, indómito, inconformado, rebelde, obstinado, homem de causas, senhor de ideais, que não de jugos, que nunca de cerviz rendida à aguilhada ferroadora do dono, ou à prisão tolhedora da canga e carga.

Emigra com dinheiros por seu pai pedidos emprestados. Toma o Sud-Express para Paris a 1 de Junho de 1908. E assim, lavrando nova leira à sua prodigiosa e ainda curta existência, se despede:

À laia de conclusão, que nos fica pois?

E pegando-lhe na interrogação retórica, respondemos, incompletamente:

Um retrato completo de um Homem íntegro e inteiro, que aos 23 anos correra de Meca a Freixo de Espada à Cinta, comendo o pão pelo diabo amassado.

As sementes do Homem em que esteou toda a sua vida inteira e a coerência com que soube viver os seus sobrantes 55 anos.

Mais conclusões, tire-as o leitor, a seu gosto e modo, fundamentando-se nos factos e na verdade histórica para proferir de peito cheio e olhar lavado de teias sórdidas:

Aquilino, se fosse consultado, teria gargalheado, bem-disposto, com a ideia de morar na Igreja de Santa Engrácia. Mas que é de pleníssimo direito a derradeira residência, lá isso estamos certos de ser, varrendo cerce todos os conjurados estigmas e nebulosos ónus que os saudosos do tempo em que o povo, isso que rastejava a apanhar as beatas dos grandes (p.391) intentam à luz do disse-que-disse impender sobre a genial e nobre (sem ofensa!) cabeça do Mestre Aquilino Ribeiro!