O falso e o verdadeiro em dois filmes

por Graça Canto Moniz | 2014.03.27 - 20:52

Abbas Kiarostami não era um realizador muito conhecido. Talvez por ser iraniano. Talvez por ter como influência Godard (oh, mas quem não tem? Quem se dá ao luxo de não ser assombrado, esporadicamente, pelo rosto de Anna Karina no Vivre Sa Vie a perguntar “mais pourquoi est-ce qu’il faut toujours parler?” Eu não!). De qualquer forma, nos últimos vinte anos, Kiarostami tornou-se uma figura da cultura iraniana, autor de poemas e fotografias expostas nos quatro cantos do Mundo. Devia, também, ser uma figura de culto de todos os amantes de Arte lato sensu. Recline-se confortavelmente, assista a Cópia Certificada (2010) e compreenderá. Além de que, este filme irá agradar a todos aqueles adoradores da Beleza, aqueles que procuram um consolo para a dor e um mimo para a fraqueza: a personagem principal feminina é a deslumbrante Juliette Binoche.

O tema central do filme é a autenticidade da Arte, o lugar da cópia e do original, a diferença entre o falso e o verdadeiro, na arte e, atrevo-me a dizer, na vida. Não será Mona Lisa uma reprodução do seu modelo? Porque é que um objecto do quotidiano representado por Jarpes John ou Andy Warhol assume valor artístico quando pregado numa parede de um museu? É o museu que institucionaliza a arte? Somos todas réplicas do ADN dos nossos avôs e avós? O que é uma imitação? É o mesmo que uma cópia? Será que algo é verdadeiramente original? Que dizer quanto a uma inovação?

Regresso ao original, regresso a Godard, em busca de uma resposta e aquele diz-me: «It’s not where you take things from – it’s where you take them». Mas diz-me também Viril Oldman (à letra, “homem velho” desempenhado por um elegantérrimo e tresloucado Geoffrey Rush), o multimilionário e coleccionador de arte de A Melhor Oferta (Giuseppe Tornatore, 2013), que existe sempre “algo de autêntico numa falsificação de uma obra de arte”. O que Oldman não sabe é que está prestes a viver uma história de amor hitchcockiana que desmente a sua própria convicção. Não vou desvendar a historieta de A Melhor Oferta mas deixo um aviso: prepare-se. No final do filme de Tornatore (Cinema Paraíso, 1988) será invadido por uma estranha fraqueza. Nunca antes sentirá, de forma tão viva e apurada, a magia da Arte e o mistério da vida.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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