O eleva-dor

por Patricia Maia Noronha | 2014.11.12 - 13:15

 

 

 

Subo no elevador. Cinzento. No open space as pessoas confundem-se com as secretárias e os computadores. Não há música. Nem janelas. Cheira a ar reciclado pelo ar condicionado. Aqui ninguém gosta de ninguém, nem sequer de si próprio.

Digo

– Bom dia.

– Hum, grunf, responde alguém.

A coordenadora levanta os olhos embaciados do ecrã que lhe dá uma tonalidade azul à cara. Olha em tom reprovador para o relógio. 15 minutos de atraso. Pensou. E depois olha para mim. Retribuo com um sorriso. Ia dizer-lhe que nunca saio a horas do trabalho, que às vezes fico quase mais uma hora do expediente e portanto 15 minutos nem chega a ser um atraso, é até uma antecipação, mas disse antes

– Estava imenso trânsito, não sei o que terá acontecido. Alguém quer café?

Ninguém responde. Café e água são as únicas coisas que não se pagam neste trabalho. Tudo o resto paga-se e bem caro. Há até rumores de pessoas que pagaram com a própria alma. E eu acredito.

Sento-me na cadeira, com o café de plástico na mão, enquanto o computador carrega o meu perfil. Começo a rotina de todos os dias, sem conseguir deixar de pensar nas coisas que podíamos mudar ali. Sem deixar de pensar em como o nosso trabalho podia ser outro: melhor e mais preenchido. E as relações entre colegas podiam existir para debatermos ideias, encontrar soluções, irmos mais além.

– Chefe?

– (grunho)

– Ah… estava a pensar que podíamos fazer uma reunião.

– Reunião??!!

Olha para mim chocada, como se tivesse dito caralho, ou outro palavrão qualquer, como se eu tivesse dito: estava aqui a pensar que devíamos ter um caralho.

Mas não desisto, apelando com todas as forças ao espírito zen que há-de residir algures em mim para não subir o tom de voz.

– Sim. Juntar os membros da equipa, discutirmos algumas coisas. Tenho umas propostas para fazer…

– Equipa?

– Sim… nós. As pessoas que trabalham aqui. – respondo, traçando no ar um gesto que abarca os outros.

Continua a teclar sem olhar para mim. A cara azulada pelo ecrã. E sobe o tom da voz.

– Valha-me deus. Mas as reuniões servem para alguma coisa? A última reunião serviu para alguma coisa?

– Ah… mas isso foi há mais de três anos…

– Serviu? Serviu para perder tempo. Credo. É preciso uma paciência para vos aturar.

Vira a cara para mim pela primeira vez neste diálogo. Continua azul cor de gelo e portanto a culpa não é do ecrã. Sinto um arrepio. Pergunto-me se será humana. Que género de pessoa diz Valha-me deus, ou Credo com 33 anos de idade?

– Porque é que em vez de ideias e sugestões criativas não passas a chegar a tempo e horas, e agradeces a Deus por não estares no desemprego? Reuniões… pfff. Era só o que faltava.

Olho à minha volta. O colega do lado faz de conta que não ouviu a conversa. Tem as unhas compridas e pretas. E cheira mal. Abana a cabeça e fala sozinho. Olho para as outras secretárias. Não há um sorriso, uma lágrima, um pingo de humor. Começa a configurar-se em mim a certeza de que não estou entre humanos. Isto é um pesadelo em formato série Z. Daqui a nada acordo.

Ou então entramos para sempre no elevador. Respiramos o ar condicionado. Envelhecemos. E de um dia para o outro morremos. Pronto já está.

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos "Brilho Vermelho" foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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