O doce sorriso do meu Pai…

por Aquilino Machado | 2013.12.18 - 23:28

A aldeia de Soutosa encontra-se docemente guardada no recanto mais sereno da minha memória. Como se achasse acondicionada num pequeno frasco de compota, daqueles que repousavam em casa da minha avó Gigi, grata oferta dos sempre fiéis amigos beirões, e que faziam transbordar de aromas e lugares da Beira Alta a despensa do Bairro de S. Miguel. As recordações que nele se encontram são de uma doce e balsâmica ternura, uma repetição de fotogramas familiares revelados nas férias grandes, quando rumávamos para a canícula das Terras do Demo, ou seja, para o “sol comburente de Agosto”. «Lá está o Diabo a abanar com a fralda», observa o meu avô Aquilino, nesse admirável livro de nome “Geografia Sentimental”, que circunscreve, em boa medida, uma parte dos meus territórios de afecto. O estio e o céu azul, “este azul dos céus profundos que parece ir lavar-se ao mar e como uma gaze envolve tão diafanamente o velho Portugal”, eram estas as primeiras sensações que retenho quando nos aproximávamos de Soutosa. Lembro-me do meu coração saltitar de ansiedade, à medida que a toponímia desaparecia sequencialmente: Vila Nova de Paiva – Alhais – Peva e, finalmente, Soutosa. Depois, a redescoberta dessa geografia valerosa e sensual era feita de uma forma inata seguindo o trilho natural das coisas: o pátio da quinta onde a sombra e o perfume das tílias amenizavam a canícula da velha serrania e fazia-nos pensar de como era surpreendente o sentido das coisas arquitectadas pelo meu avô Aquilino; depois, os campos de milheiral e o pinhal no seu extremo, tudo se compunha fielmente no desenho das minhas coordenadas, fazendo com que o recolhimento com as boas graças da vida fosse logo assumido naquele pequeno perímetro da propriedade.
Mas a superior liberdade era alcançada nos passeios feitos através das “tempestades de penedos suspensos de morros e encostas”, naquele “solo sáfaro condenado a dar fruto”. Sozinho ou acompanhado pelo meu Pai, o comprazimento assumia um limbo de onírica contemplação telúrica: o silvo do vento nas copas dos pinheiras, as plantas da mata, “as belas plantas da mata, tocam já ao eterno”, e a paleta campestre onde assentavam penedios, tantas vezes antropomorfizados, “assinalados por orcas, cenotáfios, campas, e mais campas inscritas nas rochas vivas”. Por regra, no segundo dia, ala que se faz tarde, e a perdição da descoberta era total, rumo à serra da Nave. Não conheço muitas outras situações em que a nostalgia do passado, o sentimento de retorno ao já vivido, adquira tão grande intensidade como a que se experimenta com a súbita redescoberta destas imagens, destas cartografias sonoras.
O Agosto decorria infatigável, espantoso na sua pujança e só começava a declinar ao virar a esquina com o mês de Setembro, quando durante as noites mais frescas pedíamos para o nosso Pai acender a lareira onde assávamos, com o auxílio de uma enorme pinça, maravilhosas avelãs das avelaneiras outrora plantadas, acalentadas e tuteladas pelo meu avô Aquilino. Junto ao braseiro quente acontecia uma espécie de imaginário natalício que recordo enternecidamente. Na verdade nunca passámos o Natal na aldeia de Soutosa. Mas ao rememorar estas recordações da minha infância, na companhia dos meus Pais e das minhas irmãs, sou capaz de jurar que a consoada de Natal era passada no princípio do mês de Setembro, junto à lareira, numa aldeia serrana das Terras do Demo. O doce sorriso do meu Pai, que ainda retenho, não me faz desmentir esta estranha e trocada aparição nas noites frescas do final do Verão.
(Dedicado ao meu Pai)