O ciúme

por Graça Canto Moniz | 2013.12.18 - 12:51

 Não há amores cor-de-rosa, não há crimes cor-de-rosa. Esta não é uma crónica cor-de-rosa. Lamento, é uma crónica sensorial. Porquê? Desde logo porque está refém de um filme francês, está cativa de um filme de autor, aprisionada, desde a primeira letra, por um tal de Philippe Garrel. O filme que amarra esta crónica, imagine-se, foi selecionado pela revista Cahiers du Cinema como um dos melhores filmes de 2013, prova de que o terrorismo, pelo menos o sentimental, continua a ser compensado pelo Ocidente.

Este é um filme, daqueles que não chegam a Viseu facilmente mas apenas e só, num futuro distante, graças ao Cine Clube de Viseu (obrigada por todo o vosso trabalho ao qual muitas vezes não assisto por, assumida e egoisticamente, preferir ficar a ver filmes no conforto da minha casa). O título da obra, La Jalousie, podia insinuar tratar-se de uma novela tragicamente melodramática. Não é. É um filme extremamente simples, com uma batida da vida a cada imagem que mascara a densidade do propósito de Garrel: falar sobre o amor. Pois é, sejamos moderadamente optimistas, sejamos românticos: se há ciúmes, há amor… Será?

La Jalousie: Louis (Louis Garrel, filho do realizador) abandona Clothilde (Rebecca Convenant) e a filha de ambos Charlotte (Olga Milshtein) para juntar os trapos com Claudia (Anna Mouglalis). O filme é pureza, senhor leitor, transcende a matemática cruel e fria do amor. Garrel, incontestavelmente um dos principais cineastas românticos, excede os clássicos esquemas de circulação da dor amorosa (o triângulo, quero dizer) assegurando-se que o ciúme circula em todas as direcções. E é a personagem de Charlotte, a filha de Louis, que representa esta ideia: a pequena inquieta-se por saber quem ocupa o lugar principal no coração do pai. A menina é, ao mesmo tempo, o objecto do ciúme e o amante perdido. O calor emocional inesperado desta comédia dramática vem deste bonito enredo sentimental entre um pai e sua filha. O que dizer da resposta de Louis quando a sua filha lhe pergunta quando ele voltara: «Em breve…. eu ainda tenho a chave do lugar onde estás!»? Louis pode sempre encontrar a filha, abrir a porta ou trancá-la, libertá-la ou amarrá-la. Aí está: o amor tem dupla face, deixar ir ou trazer cativo. Numa hipótese ou noutra, pode ser para sempre, diz-nos o filme, tal como a música dos Donna Maria, “Sempre para sempre”.

O problema, caro leitor, é que Philippe Garrel não leu a crónica de Paulo Mendes Campo, “O amor acaba”. O ciúme nada mais é do que um exercício de totalitarismo.

Graça Canto Moniz é filha do ano revolucionário de 1989 mas é, ela mesma, muito pouco dada a revoluções. Jurista e devoradora de livros, séries, filmes, paisagens e viagens.

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