O BOLO DE CHOCOLATE

por Rufino Fino Filho | 2014.07.21 - 22:33

Levantei-me cedo, e, como o costume, mandei o cão à rua antes que a idade já avançada vencesse a sua boa educação sobre regras de higiene e o obrigasse a dar-me um desgosto oferecendo-me uma dose de trabalhos manuais com a esfregona logo pela manhã. Ainda choco com o sono, pareceu-me ver uma linha preta no chão e achei estranho ser tão grande e tão visível. Depois, achei ainda mais estranho que se movesse! Pensei, “que merda é esta?” e dei um salto, desviando o pé, que, em desequilíbrio, avançava ameaçando pisar aquela porcaria. Baixei-me, olhei melhor e nem queria acreditar: era uma invasão de formigas, daquelas minúsculas que, aos milhares, atravessavam a cozinha de uma ponta à outra em direcção à despensa. Em pequenas linhas rectas, quebradas pelo desvio às pernas da mesa ou das cadeiras, aquele traço negro parecia uma seta apontada a um alvo bem escolhido. Eram em número suficiente para despejar um armazém em menos tempo do que leva a estrelar um ovo. Umas, passavam por debaixo da porta e desapareciam na prateleiras, outras, saíam carregando com pequenos grãos de açúcar, respeitando sempre o mesmo caminho e cruzando-se pela esquerda e pela direita com pequenas paragens para se cheirarem, pareceu-me.
Corri à rua com a determinação de descobrir a origem da ameaça e tentando, ao mesmo tempo, recordar-me do lugar onde a” minha” tinha guardado o pózito que, no ano anterior, espantara umas primas, um pouco mais avantajadas, que andavam a roubar as sementes de relva acabada de semear no canteiro onde antes cresciam as plantas aromáticas – hortelã, salsa e coentros – que, por motivos que desconheço, acabaram por ser substituídas por saquinhos de plástico com folhas das ditas lá dentro, adquiridos no Continente ou no Ecomarché.
Aquela linha móvel nascia no portão do quintal, percorria a meia dúzia de metros que o separavam da casa e esgueirava-se pelo canto da porta da cozinha. O exercitozinho das liliputianas deixava um carreiro limpinho de areias, restos de folhas e pauzinhos. Nem um grão de pó se via. Lá organizadas e limpinhas, eram elas!
Furioso pelo desplante, falhei um chuto no rafeiro que andava a cirandar à minha volta e gritei para dentro de casa “
olha lá, onde puseste o veneno das formigas?”. “Vê na garagem“, respondeu a “minha”. Corri tudo: virei as gavetas dos móveis velhos que ali jazem há anos e são os fiéis depositários de quanta traquitana há, despejei o armário da ferramenta e as prateleiras de madeira, encontrando coisas que procurava há anos. Encontrei tudo, menos o Baygon, que sendo fatal e mortífero para aquelas cabrinhas, seria o meu Xanax matinal. Na dúvida, fui à casa da lenha e à garrafeira. Nada! “Olha lá, aqui não está!”, e, de lá dentro, outra vez “já viste bem na garagem?”. As coisas começavam a complicar-se e evitei uma resposta mais acelerada.
E, o vai e vem das ladras do açúcar, lá continuava, interminável, determinado e com sucesso. Pensei em tudo: em água a ferver para uma eliminação instantânea, na sola do sapato esborrachando-as às centenas, numa vassourada bem dada para lhes desorganizar o ataque, num banho de vinagre com o borrifador da roupa, eu sei lá, até pensei numa bomba de sopro que as levasse de uma vez só. Mas não conseguia descortinar um modo eficaz de as tirar, de vez, da minha cozinha. Sentei-me à mesa, a olhar para o incessante movimento de milhares de formigas-mirins, devastado pela impotência em acabar com o inimigo, que tendo um tamanho minúsculo, estava a dar comigo em doido. Ingeri os comprimidos para a tensão arterial, que devia estar para aí a 20 ou mais.
Imaginei-me a apontar uma arma radical que evaporasse, de vez, as invasoras. Assim como nos filmes de aventuras no espaço onde as armas eclipsam instantaneamente os monstros e…foi então que descobri o método de eliminação imediato das malditas. Entrei no quarto onde a “minha” guarda toda tralha necessária à manutenção doméstica e armei-me. Liguei o aparelhómetro à corrente, botei um sorriso maléfico nas trombas, comecei a deitar faíscas pelos olhos, chutei a porta da despensa, apontei o cano da arma ao ajuntamento que me surripiava o açúcar e…comecei a aspirar. Que maravilha! Era vê-las desaparecer! Depois de limpa a despensa, passei à cozinha e recordo-me que ia assobiando uma marcha qualquer enquanto o buraco negro do tubo do aspirador ia sugando aquele cordão negro que me estragara a manhã. Saí de casa, contente como o raio, e a festa do chupanço continuou até ao portão da rua. Vitória! Adeus cabrinhas!
Limpa a zona, rapidamente, peguei num saco de plástico do supermercado, coloquei lá dentro o filtro do aspirador, dei dois nós bem apertados, e, muito mais bem disposto, depositei o saco no caixote do lixo. Agora, podia tomar o pequeno-almoço descansado sem ter milhares de olhos a invejarem o açúcar que deitava no café.
Em cima da bancada da cozinha, estava um volume tapado por um pano branco. Levantei uma ponta e vi um esplendoroso bolo de chocolate que ali ficara a arrefecer desde a noite anterior. Olha se aquelas danadas tinham dado com ele! Perguntei, como se necessitasse de resposta “
posso partir um bocado do bolo?” e, lá de dentro, veio a resposta com um aviso à mistura, do género, “podes, mas come pouco por causa do teu colesterol“. Tirei uma faca da gaveta e parti dois pedaços iguais. Sentia-me magnânimo. Procurei outro saco de plástico do supermercado, meti lá dentro uma das fatias daquele apetitoso bolo de chocolate, vim ao portão da rua, coloquei-o junto ao formigueiro e fui comer a minha parte. Uma hora depois, voltei ao local da oferta, e o pedaço de bolo estava coberto por milhares e milhares de bicharocos que se lambuzavam, cortavam e transportavam pedacinhos para os buraquitos. Cuidadosamente, fechei o saco, dei dois ou três nós, levantei a tampa do caixote do lixo e juntei-o ao outro que jazia lá no fundo. Pronto, solução definitiva! Assim, estavam todas juntas e não se iriam sentir sós.

Adeus, amigas!